Premium Jean Wyllys diz que é a memória de Marielle que vai derrubar Bolsonaro no Brasil

Jean Wyllys diz que é a memória de Marielle que vai derrubar Bolsonaro no Brasil

Paulo Novais/Lusa

O político brasileiro Jean Wyllys afirmou hoje, em Coimbra, que a memória de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018, vai derrubar Jair Bolsonaro do poder no Brasil.

Num discurso crítico sobre o presente e futuro do Brasil, durante um evento na Universidade de Coimbra, em que deixou vários recados a uma esquerda brasileira desunida, Jean Wyllys afirmou que acredita que quem vai derrubar o Presidente Jair Bolsonaro (extrema-direita) será Marielle.

"Será a memória dela e será a revelação de que há relações profundas entre quem hoje ocupa a presidência [do Brasil] e o assassinato dessa mulher que tinha muito para dar à humanidade [que vão derrubar Bolsonaro]", vincou o antigo deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) - o mesmo partido de Marielle -, que desistiu do seu mandato e saiu do Brasil, face às crescentes ameaças de morte que recebia.

Para Jean Wyllys, forte crítico do Presidente do Brasil mesmo quando políticos são eliminados, como aconteceu a Marielle, cujo "corpo físico desapareceu", as ideias permanecem.

"O assassinato de Marielle não significa o fim de Marielle", sublinhou, antes de dizer "Marielle Presente", palavra de ordem, acompanhada pela plateia, que irrompeu em aplausos.

No seu caso, entende que o sistema "decidiu que precisava" de o eliminar.

"Se não me eliminava pela destruição da minha reputação, da minha imagem pública, convertendo-me num pária, como fez Goebbels aos judeus na Alemanha nazi, então [o sistema iria eliminar-me] através da morte real, com um assassinato encomendado a sicários ou forjado. Quando me dei conta disso, que estava relativamente sozinho, tomei a atitude radical da defesa da vida, porque recuar é também uma estratégia de luta", sustentou, sobre o seu exílio.

Para o político brasileiro, as causas que defende "não precisam de mais um mártir", mas sim de "um ativista atento, até com um segurança que se pode colocar à frente de um tiro - ele atirou um ovo, mas se estivesse com uma arma tinha dado um tiro", disse, referindo-se a um homem que tentou atirar ovos contra Jean Wyllys, durante a cerimónia de hoje.

Jean Wyllys acredita que a pessoa que lhe atirou o ovo o fez por causa das notícias falsas escritas contra si, mas que, no fundo, a base está no "monstro" que habita nas pessoas.

Questionado por um dos participantes, sobre qual o caminho para reverter a situação brasileira, Jean Wyllys afirmou que os partidos e movimentos sociais têm de conseguir falar com as pessoas, utilizando expressões que elas entendam, recordando-se de um padre que o fez entender o porquê do mundo ser injusto e o porquê de passar fome.

"Isso era fundamental para organizar uma resistência", vincou.

Entende que os partidos de esquerda não devem ficar colados à luta de classes e que consigam ter a capacidade de agregar pessoas que se mobilizam por outras causas, como as questões LGBT ou o ambiente.

Voltando ao 'monstro', Jean Wyllys considerou que há também muito trabalho a ser feito para desconstruir o medo.

"As pessoas que votaram na extrema-direita não são más por natureza. São pessoas equivocadas, manipuladas, que têm o medo manipulado. Tem de haver manifestações de aproximação, ações que desconstruam esse medo. Não vamos deixar que a direita manipule o medo", vincou.

Para além disso, encontra no Brasil uma esquerda - seja partidos ou movimentos sociais - "com dificuldades de união e de ação estratégica conjunta".

Jean Wyllys apontou para críticas feitas a pessoas como a cantora Daniela Mercury por apropriação cultural ou ao humorista Gregório Duvivier por "roubar protagonismo" à mulher ao participar numa campanha sobre aborto.

"Muitas vezes, erramos no método e no tom. Não podemos afastar de nós aliados importantes. Precisamos de gastar energia com quem de facto é racista e homofóbico", vincou, mostrando-se incomodado com a desunião da esquerda brasileira.

Por agora, apesar de estar "do outro lado do mundo", Jean Wyllys garante que vai continuar a luta.

"Pensavam que eu ficaria para morrer [no Brasil], mas eu estou vivo, cada vez mais vivo", disse.

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