Volta à normalidade com os olhos postos nas presidenciais

José Mário Vaz

Depois de meses de tensão política e de pressão internacional, provocados pela demora da nomeação de um novo primeiro-ministro e da formação do Governo, que paralisaram o país, a Guiné-Bissau entrou, finalmente, na normalidade institucional, mas já com os olhos postos nas eleições presidenciais, marcadas para 24 de novembro.

A 3 de julho, data imposta pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), a organização que tem estado a mediar a crise política que o país vive há mais de três anos, o presidente guineense, José Mário Vaz, que já tinha indigitado Aristides Gomes como primeiro-ministro, emitiu o decreto presidencial com a nomeação do novo Governo.

Composto por 16 ministérios e 15 secretarias de Estado, do novo Executivo guineense destaca-se a atribuição de oito pastas ministeriais a mulheres, uma forte presença de jovens para liderar o desenvolvimento do país e que reflete o acordo de incidência parlamentar e governativa feito pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), vencedor das legislativas de 10 de março, com a Assembleia Nacional do Povo Unido - Partido Democrático da Guiné-Bissau, União para a Mudança e Partido da Nova Democracia.

Sem grandes surpresas, a pasta da diplomacia da Guiné-Bissau foi entregue a Susie Barbosa, 46 anos, eleita deputada pela região de Bafatá e que já tinha ocupado em 2014 o cargo de secretária de Estado das Comunidades, no Governo liderado por Domingos Simões Pereira.

"É uma oportunidade de conseguirmos mudar a imagem que temos no exterior, sobretudo porque é um Governo que sabe dar um exemplo e composto em 50 por cento por mulheres. Espero que seja uma equipa muito produtiva", disse Susie Barbosa sobre o novo Executivo, momentos após ter tomado posse.

Grande defensora dos direitos das mulheres, a nova ministra confessou estar com "muita vontade" e querer começar a trabalhar de imediato.

A grande surpresa foi para o Ministério da Educação, entregue a Dautarin Gomes da Costa, um jovem sociólogo, que tem dirigido a Aldeia SOS Crianças no país.

"É um ministério desafiante. Assistimos a um ano letivo que não correu bem, vamos precisar superar essa situação, mas basicamente o que vamos fazer no ministério é garantir, sobretudo, a funcionalidade e a qualidade do sistema", afirmou o novo ministro.

Para Dautarin Gomes da Costa, o novo Executivo tem de garantir que consegue construir um sistema de educação que funcione e promova a equidade, conhecimento e possa permitir a construção de um modelo de cidadão.

"O desafio é refundar o sistema para que perdure e possa produzir efeitos a longo prazo", salientou.

Questionado sobre a falta de dinheiro para promover o setor da educação, o novo ministro disse que é tudo uma questão de "boas ideias".

"Sempre disse que primeiro temos de ter boas ideias, porque normalmente os financiamentos acompanham boas ideias", sublinhou.

Outro destaque do novo Governo é o regresso do anterior ministro das Finanças Geraldo Martins.

Além do Ministério dos Negócios Estrangeiros, as mulheres guineenses vão ainda controlar a Saúde, a Justiça e Direitos Humanos, Pescas, Administração Territorial, Agricultura, Administração Pública e Modernização do Estado e o Ministério da Mulher, Família e Proteção Social.

A nova surpresa do atual Governo foi a recente nomeação de Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, para o cargo de conselheiro especial e coordenador do gabinete de apoio às reformas do gabinete do primeiro-ministro, Aristides Gomes.

O Presidente guineense, José Mário Vaz, recusou nomear Domingos Simões Pereira para o cargo de primeiro-ministro, alegando um problema político, que não seria bom para ninguém, assumindo que na base deste problema estão questões pessoais.

"Foi essa a preocupação tendo em conta a situação do povo, do país, os desafios, senti que a coabitação entre os dois não seria boa nem para mim, nem para ele, nem para o país. A política significa servir os outros, estamos aqui para servir o país, se não estamos aqui para servir o país e estamos para conflitos permanentes significa que não vale a pena", explicou recentemente José Mário Vaz.

As presidenciais que se avizinham

Mas, se por um lado, o novo Governo tem o difícil trabalho de fazer um país arrancar rumo ao desenvolvimento, a Guiné-Bissau é considerada um dos mais pobres do mundo, por outro, tem a árdua missão de organizar as eleições presidenciais, marcadas para 24 de novembro, e que vão concentrar as atenções do novo Executivo nos próximos meses.

Orçadas em vários milhões de euros, a Guiné-Bissau precisa de financiamento externo para organizar o escrutínio, que vai incluir uma atualização dos cadernos eleitorais, já que nas eleições legislativas, realizadas em 10 de março, mais de 100 mil eleitores não conseguiram votar.

Entretanto, os futuros candidatos começam a perfilar-se, mas, até agora, apenas o presidente do parlamento nacional, Cipriano Cassamá, confirmou ser candidato às presidenciais.

Outras possíveis presenças na corrida são a do atual Presidente, José Mário Vaz, que prometeu para breve um anúncio sobre a sua recandidatura, do antigo primeiro-ministro e ex-líder do PAIGC Carlos Gomes Júnior, e do general Umaro Sissoco Emabaló, que chefiou o Governo guineense em 2017.

Com uma nova esperança renovada, os guineenses esperam agora que o desenvolvimento do país e a melhoria da sua qualidade de vida sejam uma realidade.

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