Na casa de Ho Iat Seng

A insatisfação em Macau é diferente da de Hong Kong mas existe. Lam Heong Sang e Iau Teng Pio dizem que o novo líder do Governo tem de saber resolvê-la porque, criticam, o desenvolvimento dos últimos 20 anos não soube responder às expectativas da população. Os homens fortes da equipa de Ho Iat Seng acreditam que, a ser eleito, o candidato é o início de uma nova era.

O coordenador Chui Yuk Lam - presidente da Assembleia-Geral da Associação Industrial de Macau, de que Ho Iat Seng é presidente vitalício - estava numa reunião, e foram Lam Heong Sang - coordenador-adjunto, e Iau Teng Pio - representante - que fizeram as honras da casa, que está na zona nobre da cidade, na Avenida da Praia Grande, onde se estabeleceu o quartel de um dos seis candidatos à liderança do Governo. O mais forte.

É no sexto andar do edifício Comercial Rodrigues que até 25 de agosto - dia das eleições para Chefe do Executivo - trabalhará o exército do mais provável futuro líder do Governo. São mais de 20 funcionários na sede de campanha. Há três que se destacam: Lam Heong Sang, Iao Teng Pio, Chui Yuk Lam. São eles que lideram a equipa que vai ajudar Ho Iat Seng a conseguir os 66 votos que precisa para ganhar.

Mudar. Inovar. Evoluir. Foram estas as palavras de ordem de Ho Iat Seng quando apresentou a candidatura. E voltaram a ser as de Lam Heong Sang e Iao Teng Pio na entrevista ao PLATAFORMA. Ao contrário do chefe, responderam às perguntas. Não especificaram medidas, mas comentaram os assuntos que Ho Iat Seng evitou quando apresentou a candidatura a 18 de junho, como a dificuldade de acesso ao imobiliário dos jovens, a lei de extradição e os acontecimentos em Hong Kong. Lam protagonizou a conversa. Iau pouco falou. Ia interrompendo o contacto visual com o telemóvel sempre que a pergunta lhe era dirigida e quando se falou em Hong Kong.

A entrevista tinha terminado, mas depois da extensa resposta do colega - um traço de Lam durante a conversa - Iau disse: "Também quero comentar".

Na verdade não respondeu à pergunta sobre se a crise política em Hong Kong tinha afetado a campanha e o programa político de Ho Iat Seng, mas afirmou: "Há sempre problemas em todas as sociedades. O Governo tem de resolver estes conflitos segundo a lei. Claro que há questões que devem ser resolvidas já, mas há outras que têm de ser resolvidas passo a passo". Depois, voltou à terra. "É natural haver mudanças. O Governo tem de ter em mente todas as pessoas de forma a beneficiar Macau com as suas políticas."

Antes, Lam Heong Sang também tinha comentado a reação às alterações à Lei da Extradição na região vizinha propostas pelo Executivo liderado por Carrie Lam. O antigo deputado acredita que "é pouco provável de acontecer em Macau". "Temos uma forma diferente de agir e o nosso regime jurídico é diferente. Como se pode ver, o acordo de extradição com Portugal não suscitou grandes problemas desde que foi assinado. Trabalhamos dentro do quadro legal. Os mecanismos de proteção estão assegurados com as leis locais, como a Lei Básica", sustenta o vice-presidente da influente Federação das Associações dos Operários de Macau.

A História entre as duas cidades difere muito, diz Lam Heong Sang que logo se explica. "O Governo britânico fez de Hong Kong um centro anti-China. O problema de Hong Kong é um problema de séculos", argumenta. "Macau é diferente", insiste. Afirma que todas as pessoas têm insatisfações. "Não é fácil", desabafa. E remata: "Os problemas são como os nossos dedos: cada um tem a sua forma. Usar a mesma fórmula para resolver todos os problemas não vai funcionar."

Em campanha

A insatisfação da população, diz, tem origem na sua História. Agora, nas palavras de Lam, Macau já é igual. Também aqui há insatisfação mas as preocupações são outras, realça. "A insatisfação é um resultado do desenvolvimento. Mas um Governo não pode decidir quem tem menos e mais. Vai criar muitos problemas. Tem de criar oportunidades para todos. É por isso que é prioritário investir na saúde e educação", aponta, em alusão à velha máxima do corpo e mentes sãs.

Numa aparente crítica ao que tem vindo a ser feito, faz promessas: "O nosso alvo é que todas as pessoas possam viver em paz e harmonia em Macau". E inclusivo, alarga o discurso. "É uma cidade pequena mas vivem aqui pessoas de dezenas de países. O que temos de manter e salvaguardar em Macau é a coexistência. A nossa harmonia é única no mundo. Tudo o que representa a nossa cultura, como o património, tem de ser promovido", sublinha o homem que há dois anos defendia que os trabalhadores não-residentes potenciam o "aproveitamento da importação de mão-de-obra para conseguir lucros" e insistia que o Governo devia tomar medidas.

Apesar de ter dito que por agora não era oportuno falar do programa político de Ho Iat Seng, Lam ia marcando posições que o revelam. "Quando nos perguntam pelo que somos conhecidos, só podemos falar do Jogo. Não pode ser. O nosso foco está na proteção da nossa cultura. Somos conhecidos por ser uma cidade de património. Se outras cidades abrem casinos, não vamos ter possibilidade de concorrer", condena uma das figuras de proa do campo tradicional pró-Pequim na cidade.

Nova era

Inovar foi uma das palavras de Ho Iat Seng no discurso de apresentação da candidatura, a 18 de junho. Questionados sobre acham que o antigo presidente da Assembleia Legislativa (AL) é visto, tanto na cidade como por Pequim, como o homem certo para iniciar uma nova era e marcar o fim da hegemonia das três famílias poderosas da cidade - Chui, Ho e Ma -, Lam tomou a dianteira, como sempre, e respondeu. "Agora não estamos preocupados com o programa político. Concordo com um ponto. Se Ho Iat Seng for eleito vai iniciar uma nova era."

Aquando da apresentação da candidatura, à promessa de inovar, o candidato acrescentou mais duas: mudar e evoluir. Lam Heong Sang recusou explicar de que forma pretende Ho Iat Seng concretizar os objetivos, mas voltou a fazer promessas: "A seu tempo, o nosso programa político há de ser revelado. Queremos satisfazer as necessidades da população e esse é um trabalho muito difícil. Todas as pessoas têm necessidades e vontades diferentes, e o nosso trabalho é satisfazer a maioria. Não se pode governar só para uma minoria", diz, em jeito de recado. E reforça: "Espero que Ho Iat Seng possa preconizar essa nova era".

Se inovar é palavra de ordem, dúvidas se levantaram desde logo quando Ho Iat Seng anunciou o nome dos três homens que escolheu para liderar a candidatura. Iau não reagiu à aparente contradição de pertencerem à fação mais tradicional e a uma geração mais velha. Lam sim. "Na sede de candidatura estão mais de 20 pessoas e todos os outros são jovens", afirma, fazendo uma ressalva moralista - outro traço que marcou as respostas durante a entrevista. "É uma oportunidade única na vida. Há muitos que perguntam o que vão ganhar depois. Não é um bom princípio", avisa. E acrescenta: "Quando se trabalha com a pressão de se conseguir alguma coisa, cria-se um obstáculo. É como tentar subir uma montanha com muito peso. Não se vai longe".

Os homens e o homem

Lam diz não estar preocupado com o pós-eleições. "Primeiro e o mais importante é que Ho Iat Seng seja eleito. Agora que se candidatou, o que queremos é que ganhe", afirma.

Garantido está que nenhum dos três homens fortes terá lugar no Governo de Ho Iat Seng. Pelo menos foi o que assegurou na apresentação da candidatura. Lam e Iau escusaram-se a especular sobre que papel lhes está reservado caso Ho Iat Seng vença e garantem que voltarão à vida de antes. "Quando terminar o meu trabalho e ajudar Ho Iat Seng a ser eleito, vou voltar ao meu trabalho na Federação das Associações dos Operários. Nunca pensei como será caso seja eleito. Fico muito feliz que o meu amigo participe nesta eleição. É um cargo muito difícil e Ho Iat Seng teve a coragem de avançar. Precisa do apoio dos amigos", vinca Lam Heong Sang. Já Iau Teng Pio, coordenador do Curso de Licenciatura em Direito em língua chinesa da Universidade de Macau, deixa claro que quando Ho Iat Seng o convidou para se juntar à equipa não impôs qualquer condição. "Gosto muito de ensinar. Ainda estou a escrever livros jurídicos. Depois disto tudo, pretendo voltar à universidade", afirma o também deputado nomeado.

"Se for eleito, Ho Iat Seng tem de escolher as pessoas certas para o Governo para que consiga o que quer: inovar e mudar. E portanto têm de ser jovens. Temos de nos focar nos jovens", repete Lam.

Os dois dizem ter sido escolhidos por serem homens de confiança de Ho Iat Seng. Lam sustenta com o relacionamento que começou no Conselho Executivo - de 2004 a 2009 -, e da temporada na Assembleia Legislativa, onde foram presidente e vice-presidente, de 2013 a 2017. Deste período no plenário, Lam Heong Sang realça as mudanças que preconizaram como a aproximação aos países de língua portuguesa e orgulha-se de terem aberto mais o hemiciclo com a publicação de mais informação sobre as leis e a AL na internet. Uma palavra - abertura - que não casa com o último mandato de Ho Iat Seng, protagonista do braço de ferro com o deputado Sulu Sou, que propôs várias medidas para uma maior transparência das reuniões das comissões que foram rejeitadas pelo então presidente da assembleia.

Também foi na AL que Iau conquistou Ho Iat Seng, ainda que o primeiro contacto tenha sido décadas antes, quando frequentavam a mesma escola. "Percebi que era simpático e que era muito determinado", lembra. E hoje? "Hoje é um homem que ouve muito as pessoas, mas quando tem de tomar uma decisão também a toma, e por norma tem o apoio e a concordância de toda gente", sublinha.

Na personalidade, Lam elogia-lhe a dedicação ao trabalho. "Leva o trabalho muito a sério", frisa. "Os seus interesses pessoais e empresariais sempre estiveram depois dos assuntos mais importantes. Admiro-o por esse aspeto. Se não tivesse esta característica, não teria o meu apoio. Os próximos cinco anos vão ser um grande desafio mas estou confiante. Os problemas acumulados destes 20 anos não são um assunto fácil", analisa.

O humor só surgiu quando se falou da outra face do homem sério. "Hobbies? Isso também eu gostava de saber", brinca Lam. "É uma pessoa normal. Já é avô. Tem um neto. Descansar para Ho Iat Seng é ver o neto. Acho que gostava de ter mais tempo para o neto. É como eu: o descanso é quando volto a casa e cuido dos meus três netos. Quando atingimos esta idade começamos a preocuparmo-nos mais com a saúde. Como empresários, temos muitos jantares e encontros, e ele tem tentado diminuir os encontros e os jantares fora de casa. Voltar para casa a horas de jantar é o mais difícil", lamenta.

O que se segue

Agora mais difícil será. Segunda-feira entraram no que Lam diz ser a segunda fase para garantir que Ho Iat Seng é o escolhido. Chegou a altura dos encontros com as associações que lhe podem garantir a eleição na votação indireta no Colégio Eleitoral com 400 membros representativos dos diferentes setores. "Queremos saber como podemos resolver os problemas que Macau enfrentará no futuro", refere Lam. O antigo deputado realça dois: muita gente para pouca terra. "Temos esta restrição. É um problema muito difícil de resolver. Mas agora temos a política nacional da Grande Baía", afirma. E o segundo: a falta de perspectiva. "Não conseguimos construir uma economia diversificada. As expectativas de vida da população não estão a ser correspondidas, sendo que as mais preocupantes são a dificuldade dos jovens conseguirem habitação e trabalho depois de terminarem a licenciatura quando estão a estudar fora e decidem voltar", enumera. "Depois de 20 anos de desenvolvimento, as pessoas querem mudanças. Querem medidas que lhes garanta uma vida melhor e essa vai ser uma pressão muito grande para o novo Chefe do Executivo." Uma coisa garante sobre o homem que se segue: "A preocupação de Ho Iat Seng é que o desenvolvimento e futuro de Macau sejam um trabalho conjunto e não apenas do Chefe do Executivo, daí que as suas orientações sejam inovar e mudar"

Relacionadas

Exclusivos