Premium Jornalismo de investigação silenciado por Xi Jinping

Banca de jornais em Pequim

Reportagem do The New York Times mostra como os jornalistas de investigação têm perdido influência na sociedade chinesa. "Estamos em vias de extinção", dizem.

O jornalismo de investigação está pelas ruas da amargura na China. A revelação foi feita numa reportagem do jornal The New York Times por estes dias. Diversos jornalistas independentes derão a cara para revelar como "o espaço para a liberdade de expressão tornou-se muito limitado".

Zhang Wenmin, por exemplo, já foi uma das jornalistas mais temidas na China. Percorreu o país a relatar histórias de abuso de autoridade policial, condenações ilegais ou desastres ambientais. Hoje, luta para ver um trabalho seu publicado dentro do seu próprio país. Ao jornal nova-iorquino, Zhang acusa a polícia de intimidar as suas fontes, ao mesmo tempo que encerra as suas contas nas redes sociais que são permitidas pelo regime de Xi Jinping.

Aos 45 anos, Zhang admite que o seu trabalho é neste momento "muito perigoso". O jornalismo independente está completamente controlado pelo Partido Comunista. Se outrora desmascarou os escândalos do leite em pó contaminado ou dos esquemas de venda de sangue, hoje pouco ou nada acrescenta à sociedade chinesa. Ninguém o ouve, ninguém o lê. Porque Pequim não deixa, não dá hipótese, explica a jornalista.

Desde que Xi Jinping assumiu o poder na China, os jornalistas de investigação praticamente desapareceram, já que as autoridades perseguiram e prenderam dezenas de repórteres e as agências de notícias reduziram as reportagens de fundo. Aliás, uma das consequências mais gritantes da revitalização da política Xi Jinping é que a imprensa chinesa está quase totalmente desprovida de reportagens críticas, substituídas por retratos otimistas da vida quotidiana chinesa sob o comando harmonioso e auspicioso de Xi.

O início da "era da censura total"

Outro dos jornalistas que resolveu dar a cara foi Liu Hu. "Estamos quase extintos", afirmou o repórter da província de Sichuan, no sudoeste do país, que foi detido por investigar políticos corruptos. "Ninguém está autorizado a revelar a verdade", acrescentou.

Desde a ascensão ao poder em 2012, Xi Jinping transformou radicalmente o panorama da comunicação social chinesa, dando total primazia aos meios de comunicação oficiais, controlados pelo partido, e silenciando as vozes independentes. Para Xi Jinping, a missão da comunicação social deve ser, exclusivamente, a de espalhar "energia positiva", "servindo o partido e amando a pátria".

A repressão de Xi aos jornalistas deixou os mais de 1,4 mil milhões de chineses sedentos de informação. Enquanto que a China se abre ao mundo, internamente a sociedade está cada vez mais fechada. "O governo está a deixar os cidadãos completamente ignorantes", referiu Liu.

Para se ter uma noção de como tudo funciona. Quando o presidente norte-americano Donald Trump critica a China, as suas palavras raramente aparecem na imprensa tradicional chinesa. Questões tão atuais como a guerra comercial com os Estados Unidos, o movimento #MeToo, bebés criados geneticamente ou a disseminação da peste suína africana são temas tabu para a sociedade chinesa.

A liberdade de expressão está decadente. Xue Lei, outro dos jornalistas ouvidos, deixou o jornal Beijing Youth Daily para exercer relações públicas numa empresa de tecnologias. Xue cansou-se da censura e da pressão que lhe exerciam nas suas investigações jornalísticas. "Questões que costumavam ser naturalmente acompanhadas pelos jornalistas, de repente ficaram restritas", disse ele, apontando como exmplo histórias relacionadas com corrupção.

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