João Lourenço consegue curar Angola do "capitalismo de compadrio" ?

O Financial Times dedica hoje um extenso artigo à situação económica e política de Angola, questionando se as reformas implementadas pelo Presidente, João Lourenço, vão conseguir curar o país do que chama "capitalismo de compadrio".

Assinado por David Pilling, o editor de África do influente jornal britânico, o artigo recolhe declarações do analista Ricardo Soares de Oliveira, do ministro dos Transportes, Ricardo Viegas d'Abreu, do governador do banco central, José Lima Massano, e do jornalista e ativista Rafael Marques de Morais, não dando uma resposta ao título do artigo: "Africa: can João Lourenço cure Angola of its crony capitalism? (África: pode João Lourenço curar Angola do seu capitalismo de compadrio?)".

"Este é um momento histórico para o país", diz o ministro dos Transportes. "Chegámos a um estágio em que não podemos continuar o investimento público como o principal impulsionador do crescimento". Ricardo Viegas d'Abreu sabe da magnitude desta permissa, particularmente tendo em conta o que alega ser a escala maciça de corrupção nos últimos anos da administração dos Santos. E acrescenta: "Todas as pedras que viramos, não encontramos uma pérola, encontramos uma cobra".

"A luta contra a corrupção de João Lourenço é uma ótima notícia", diz o governador do Banco de Angola. O banco central delineou estratégias para resolver a escassez subjacente de dólares, uma ruína para os investidores que tentam fazer negócios em Angola, permitindo que o mercado determine uma taxa de câmbio mais realista. "A moeda foi fixada ao dólar dos EUA", diz ele. "Não foi sustentável e tivemos que fazer alguma coisa."

Defensores de Lourenço dizem que, dada a pequena dimensão da elite angolana, o presidente tem poucas opções,a não ser "reciclar os tecnocratas instruídos". Rafael Marques tem uma interpretação mais simples. "Se você se cercar de tubarões é porque gosta de tubarões", afirma. "Se eu tivesse que resumir o que está a acontecer no país, eu diria que o presidente chegou com boas intenções, uma boa vontade política sem precedentes, mas com uma total falta de visão sobre como proceder."

O artigo passa em revista as principais decisões de João Lourenço, lembrando episódios como a introdução de uma nova lei para o investimento privado, o afastamento de Isabel dos Santos da Sonangol, os maus indicadores socioeconómicos para um país que é a terceira maior economia africana, a discrepância de 32 mil milhões de dólares (28,5 mil milhões de euros) encontrada nas contas da Sonangol e as alterações nas leis que regulam a atividade petrolífera.

"Este país da África Austral tornou-se um dos mais corruptos do continente, um estado de compadrio capitalista em que a proximidade do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderado durante 38 anos pelo Presidente José Eduardo dos Santos, foi o maior fator de enriquecimento pessoal", escreve o editor para África do Financial Times.

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