Premium Bolsonaro em baixo

Poder Ideias - Almoço com o pré -candiadato a Presidência da República, Dep. Jair Bolsonaro, no rastuatente Piantella. Brasília, 08-05-2108. Foto: Sérgio Lima/Poder 360

Investigações de corrupção que envolvem família e aliados de Bolsonaro, a defesa pública de uma agenda conservadora na área dos costumes, falta de alterações da política macroeconómica, favores políticos e os constantes ataques a adversários e partidos de esquerda são algumas das acusações feitas por analistas, parceiros e opositores do presidente do Brasil, que tomou posse em janeiro.

A mais recente envolve uma eventual promessa de promoção para o Supremo Tribunal Federal (STF) do juiz Sérgio Moro, principal protagonista no processo que condenou o ex-presidente Lula da Silva e atual ministro da Justiça. Bolsonaro deu a entender, numa entrevista, que existia um compromisso prévio. "A primeira vaga que tiver, tenho esse compromisso com o Moro e, se Deus quiser, cumpriremos esse compromisso", afirmou o presidente do Brasil em entrevista à Rádio Bandeirantes. Em resposta, o ministro negou qualquer compromisso entre os dois: "Ele [Bolsonaro] foi eleito, fez o convite [para o Ministério da Justiça] publicamente, fui à casa dele no Rio de Janeiro (...).

Não vou receber convite para ser ministro e estabelecer condições sobre circunstâncias do futuro que não se pode controlar", reagiu Sérgio Moro.O juiz assumiu em janeiro o "superministério" da Justiça, na governação de Jair Bolsonaro, que inclui a Segurança, a Controladoria-Geral da União e uma parte do Conselho de Controlo de Atividades Financeiras. Há uma semana, o político sofreu uma grande derrota política quando os deputados lhe retiraram o comando do Conselho de Controlo de Atividades Financeiras.

Nas últimas semanas, transações suspeitas de dinheiro envolvendo um ex-funcionário chamado Fabrício Queiróz, que trabalhava para o filho do presidente e também senador (membro da câmara alta do Parlamento), Flavio Bolsonaro, tornaram-se o primeiro escândalo de corrupção do Governo.

O caso investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro lançou dúvidas sobre aquisição de património do filho do presidente brasileiro e funcionários, contradizendo o próprio Bolsonaro que elegeu o combate à corrupção um dos temas centrais do Governo.

Uma série de denúncias sobre candidaturas fantasma promovidas por aliados e membros do Partido Social Liberal (PSL), sigla de Bolsonaro, também perturbaram a imagem da nova gestão, causando a demissão do antigo ministro da Secretária-geral da Presidência da República Gustavo Bebianno.

Perda de popularidade

Nos primeiros quatro meses de legislatura, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, perdeu popularidade após vencer as eleições com 57,7 milhões de votos, frustrando as expectativas da elite económica que apostava em reformas estruturais para reanimar a economia.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha indica que quase metade da população considera Bolsonaro um mau presidente. Trata-se da pior avaliação de um presidente nos primeiros meses do mandato desde 1990, no início do processo eleitoral.

Para Humberto Dantas, investigador em Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a queda da popularidade de Bolsonaro está diretamente ligada ao facto de o Governo ter assumido uma "lógica muito polarizada" que tenta impor uma agenda que não combina com a complexidade do momento que vive o país.

"O Governo não conseguiu corresponder às expectativas que se criaram sobre ele", explicou, dando exemplos: "No campo económico, vai mal porque demonstra uma fragilidade enorme ao rechaçar os partidos políticos. No campo dos costumes, tem adensado muito o discurso ao adotar a retórica de campanha alinhada a valores conservadores e não um discurso de conciliação que é mais adequado para um Governo".

"Os dados do Datafolha mostram que além do Bolsonaro não ser bem avaliado, 61 por cento dos entrevistados disseram que ele dececiona (...) Outra pesquisa do [Instituto] Ibope mostrou que perdeu 14 pontos de aprovação em três meses. Isto é algo pouco comum. Esta perda de capital político acontece em um instante em que, em tese, nada deveria abalar seu capital político", acrescentou.

Para o investigador, esse discurso polarizador condiciona os apoios dos partidos que apoiam o Governo. Humberto Dantas salientou que a direção política escolhida pelo chefe de Estado brasileiro apostava no apoio de frentes compostas por parlamentares que defendem setores específicos como os evangélicos e o agronegócio e teve de dar prioridade a essas propostas.

Desemprego da economia

Para a analista de macroeconomia Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, as primeiras ações de Bolsonaro ficaram aquém das expectativas do mercado financeiro e de empresários no que se refere aos ajustes e programas económicos.

"A palavra que descreve a performance do Governo na esfera económica é frustração. Há uma grande frustração em relação à economia e os indicadores apontam um desempenho enfraquecido. Até mesmo os indicadores de confiança que estavam positivos inverteram a mão".

No entender da analista, "isto é reflexo do ambiente político: há uma desorganização do Governo que mostrou um total desentendimento de como funciona a política no Congresso". Uma projeção divulgada pelo Banco Central brasileiro com a opinião de 100 analistas de mercado divulgada na segunda semana de abril apresentou uma projeção de subida do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil de cerca de 1,97 por cento neste ano. Embora este cenário seja melhor do que o crescimento registado no país em 2018, de 1,1 por cento, as expectativas que os agentes do mercado têm não são favoráveis.

No início de março, os mesmos analistas ouvidos pelo Banco Central esperavam um desempenho bem melhor da economia brasileira em 2019, ou seja, um crescimento de 2,28 por cento. No início do ano, a expectativa era de uma subida de 2,53 por cento do PIB brasileiro em 2019.

Bolsonaro prometeu aprovar um duro projeto de mudanças no sistema de pagamento de pensões por reforma no início de seu Governo. O projeto já foi apresentado ao Congresso, mas tem mostrado dificuldades de articulação política.

Considerada fundamental para acelerar a economia brasileira, a reforma no sistema de pagamento de pensões não está perto de ter apoio suficiente para ser aprovada no Congresso, uma proposta que está a gerar críticas.

"O Presidente e o Governo devem entender que é preciso apoio para aprovar as mudanças que o país precisa, em especial no sistema de pagamentos de pensões por reforma", alertou Alessandra Ribeiro. "Sem a aprovação deste projeto, o mercado deverá aumentar a perceção de risco sobre o Brasil o que poderá, por sua vez, impactar os juros, impactar o câmbio e limitar a atividade económica", destacou a analista.

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