Premium Formação de técnicos agroalimentares no topo das prioridades

João Lourenço visita o INIAV ao final da tarde de hoje

O Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária recebe hoje João Lourenço, uma visita que se surge no seguimento do protocolo de cooperação na área agroalimentar e florestal estabelecido entre os dois países.

São já sete os angolanos que estão em formação no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), ao abrigo do programa de cooperação na área agroalimentar e florestal entre Portugal e Angola, assinado há dois meses em Luanda.

O Instituto recebe hoje ao final da tarde, às 17h15 (hora de Lisboa), o presidente de Angola, João Lourenço, numa visita em que será acompanhado pelo primeiro-ministro, António Costa, e pelo ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos.

"É uma visita curta. No fundo vamos fazer uma síntese do ponto de situação da cooperação entre Portugal e Angola na área da segurança alimentar, explicar a formação que os sete angolanos já estão a fazer [no INIAV] e depois visitamos uma parte do laboratório nacional de referência de saúde animal", antecipa ao Plataforma o presidente da instituição, Nuno Canada.

Apesar de esta ser uma visita pouco mediática, Augusto Santos Silva, ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal, não teve dúvidas em eleger este momento como o mais alto da visita de três dias do chefe de estado angolano a Portugal.

"Para mim, na parte económica, o momento mais alto é a visita hoje mesmo do presidente de Angola ao nosso Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária, porque isso sinaliza bem a importância que Angola dá à substituição de importações no domínio alimentar e aquilo que Portugal pode oferecer", afirmou esta manhã à TSF.

"Um dos problemas que Angola tem é que importa quase todos os alimentos que consome. Ora, isso coloca até problemas de soberania e Angola tem-nos pedido insistentemente cooperação nessa área", adiantou o governante.

Uma situação já várias vezes reconhecida por João Lourenço, tanto a nível externo como interno. "Um país é independente quando come aquilo que produz. A maior dependência é importar comida", afirmou o chefe de estado angolano em Toulouse, durante a deslocação oficial a França, em maio, onde visitou a cooperativa agrícola de Aterris e o Liceu Agrícola de Auzeville.

A nível interno, não deixa de ser emblemático que a primeira deslocação dentro do país, logo a 11 de outubro de 2017, escassas duas semanas após assumir a presidência de Angola, tenha sido à vila da Catchiungo, no Huambo, para a abertura do ano agrícola. Um momento em que, de improviso, falou aos muitos agricultores que o esperavam, falando num futuro em que a agricultura tem de ter um papel essencial no desenvolvimento do país.

"Vamos todos para o campo arregaçar as mangas e produzir comida. Vamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para não importar alimentos. Temos de ser nós a produzir a comida que precisamos para nós e para exportar para ganhar dinheiro, para ganhar divisas", afirmou na altura João Lourenço.

E se já em França o presidente angolano estabeleceu acordos nesta área, Portugal também tem um papel em que "acrescentamos valor", disse ainda Augusto Santos Silva em declarações à TSF. "Angola tem um potencial enorme, precisa de cooperação técnica e Portugal é o país mais bem posicionado para oferecer essa ajuda técnica", defendeu o titular da pasta da diplomacia portuguesa.

Uma cooperação em que o INIAV, instituto de investigação do Ministério da Agricultura que desenvolve atividades de investigação e inovação na área agro-alimentar e florestal e também aconselhamento técnico e científico ao governo e às empresas, é um dos protagonistas, na vertente institucional.

O protocolo de cooperação na área agroalimentar e florestal entre os dois países, assinado em fevereiro de 2017, materializou-se num plano de ação para os anos de 2019 a 2021, há dois meses, em Luanda, durante a visita de António Costa.

"Este plano de ação, por três anos, que depois será renovável de três em três anos, envolve todo o território angolano e todas as áreas agroalimentares e florestais. Neste momento estamos já a pôr no terreno o primeiro ano de atividades e nesse sentido foi priorizado, dentro das várias atividades, a formação de técnicos", explica ao Plataforma, Nuno Canada, presidente do INIAV.

Por isso, já estão no INIAV sete angolanos em formação, visando "a capacitação dos laboratórios de referência angolanos". Ao longo de três meses, três angolanos, "estão a fazer formação nos laboratórios nacionais de referência de doenças e pragas das plantas, outros dois estão em formação no laboratório nacional de referência de sanidade animal e há mais dois a fazerem doutoramento, um na área de diagnóstico de doenças dos animais e outra na área da indústria agroalimentar", revela Nuno Canada.

As prioridades foram estabelecidas pelas autoridades angolanas em conjunto com três técnicos do instituto que entre 30 de setembro e 12 de outubro fizeram uma visita técnica a Angola.

Prioridades que Nuno Canada elenca: "Capacitação das instituições de investigação agrária e veterinária e dos laboratórios de referência e de análises de Angola; incremento da cooperação científica e técnica na área das doenças e pragas das plantas e também na área das doenças dos animais; conservação e valorização dos recursos genéticos destinados à alimentação; valorização das florestas e dos produtos subprodutos de origem florestal; promoção e implementação de boas práticas ao nível da gestão dos solos, da água, do regadio".

Atualização do acervo científico

Por outro lado, o presidente do INIAV destaca outra questão, que considera "muito relevante": "No passado havia um acervo técnico e científico relacionado com esta área agrícola e agroalimentar muito grande, por isso outro eixo a desenvolver é a recuperação essa informação técnica e científica, atualizá-la e pô-la à disposição dos agricultores angolanos".

"Um dos primeiros trabalhos que vamos fazer, aliás já está em curso, é o levantamento de tudo o que existe, e depois vamos atualizar, em vez de estarmos a fazer tudo do zero", explica.

Exemplo concreto são as cartas dos solos do Angola, feitas há 20 ou 30 anos, o levantamento de raças, recursos genéticos, variedade de plantas e melhoramento vegetal e de florestas. "Todo um conjunto de informação que não se altera com muita facilidade mas que tem de ser atualizada não só para ter adesão à realidade mas também porque os desafios hoje em dia são diferentes decorrentes das alterações climáticas, que trazem exigências diferentes em termos técnicos e científicos, da maior incidência de doenças emergentes nos animais e nas plantas e também da muito maior pressão que existe para se produzir muitos mais alimentos uma vez que a procura de alimentos, de acordo com a FAO, até 2050, vai aumentar na ordem dos 70%", contextualiza Nuno Canada.

100 milhões de financiamento europeu

A União Europeia, reconhecendo o papel que Portugal pode desempenhar neste objetivo estratégico angolano de aposta no desenvolvimento da agricultura, nomeadamente na transferência de conhecimento e tecnologia e formação de recursos humanos, delegou em Portugal a gestão do programa para a segurança alimentar e promoção da pequena agricultura familiar.

Coordenado pelo Instituto Camões, no valor de 48 milhões de euros, o INIAV assume papel de destaque, a par de outras instituições nacionais envolvidas - Direção Geral de Saúde e a Universidade do Porto na área nutricional, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera na área da meteorologia, e a Proteção Civil.

"É um projeto que está muito orientado para a promoção da segurança alimentar e nutricional em três províncias concretas de Angola, no Sul, Huíla, Namibe e Cunene, que têm características muito especiais e em áreas de conhecimento muito concretas", explica Nuno Canada.

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