Do "rumor" à candidatura de Ho Iat Seng a Chefe do Governo de Macau

Ho Iat Seng, presidente da Assembleia Legislativa de Macau

Ho Iat Seng, presidente da Assembleia Legislativa de Macau

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O presidente da Assembleia Legislativa de Macau Ho Iat Seng quer mudar-se do hemiciclo para o Palácio da Praia Grande.O homem que dizia não ter feitio para o cargo era visto como um candidato natural há mais de uma década.

Em março de 2007, quando descia as escadas da entrada no Grande Palácio do Povo em Pequim, após a abertura da sessão anual da Assembleia Popular Nacional, Ho Iat Seng exercia um notório magnetismo entre os jornalistas de Macau. Não era por acaso. Afinal tratava-se do único deputado de Macau com assento entre o restrito grupo de 175 membros do Comité Permanente da APN, tendo substituído Edmund Ho no lugar após este ter iniciado as funções de primeiro Chefe do Executivo (CE) da Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Estávamos, na altura a pouco mais que dois anos e meio da primeira mudança de CE e à questão quem iria suceder a Edmund Ho, alguns arriscavam o nome de Ho Iat Seng. Era o caso de uma jornalista veterana de Macau que, orgulhosamente, lembrava que tinha escrito dois anos antes, numa coluna de opinião que era aquele o homem para conduzir os destinos da RAEM após 2009. Essa previsão, partilhada por vários outros observadores, começou a perder força no final desse mesmo ano de 2007, quando na eleição para os doze deputados de Macau à APN, Ho Iat Seng - tendo sido naturalmente eleito - ficou atrás de Lionel Leong, que se estreava na eleição e que, de forma algo surpreendente aos olhos de analistas, foi o favorito entre os membros do comité eleitoral. Em 2008 começou a emergir com mais força a hipótese Chui Sai On, então Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura que a partir de meados do ano assumia a coordenação dos esforços da parte de Macau de apoio à reconstrução das zonas afetadas pelo terramoto de Sichuan. Na pré-corrida para a chefia do governo chegou a estar o então Procurador-Geral Ho Chio Meng, mas acabou por estar apenas o nome de Chui no boletim de voto, em julho de 2009.

Ho Iat Seng, que tinha sido nomeado por Edmund Ho para o influente Conselho Executivo em 2004, foi nesse mesmo ano de 2009 eleito para a Assembleia Legislativa pela via indireta, através dos interesses empresariais, tendo-se tornado, desde logo, vice-presidente do hemiciclo. Quatro anos depois, ascende à presidência e, desde então -sobretudo após Chui Sai On ter iniciado o seu segundo e último mandato como CE, que o seu nome volta a estar em cima da mesa. Em 2014, Ho Iat Seng afirmava que o cargo de Chefe do Executivo implicava muitas tarefas difíceis, antes de concluir que as suas capacidades não eram adequadas para a função. Em agosto de 2016, num encontro com jornalistas a propósito do balanço do ano legislativo ia mais longe: "Já oiço esse rumor há dez anos. Há uns anos disse que não ia ser Chefe do Executivo, não tenho postura nem feitio para ser Chefe do Executivo. Com a minha idade a maioria das pessoas já se aposentou, porque é que tenho de continuar? Há muitos talentos em Macau".

Todavia isso não foi suficiente para que deixasse de ser visto como candidato. Ho mudou completamente de tom no dia 13 de fevereiro deste ano quando se colocou em campo, revelando que iria considerar "ativa e prudentemente" a possibilidade de concorrer ao cargo. Em resultado desse processo, Ho anunciou no dia 18 deste mês que ia mesmo dar o passo de se candidatar ao cargo de Chefe do Executivo, na medida em que o Comité Permanente da APN aceitasse o seu pedido de demissão - o que se confirmou esta semana - condição sine qua non para ser candidato. Os próximos passos deverão ser dados após a eleição dos 400 membros do comité de eleição do Chefe Executivo, marcada para 16 de junho. Desde essa data até meados de agosto tem lugar o período de nomeação. Ho Iat Seng terá que assegurar o apoio de pelo menos um sexto do colégio eleitoral - ou seja 66 membros - para ser efetivamente candidato no ato eleitoral que terá lugar num domingo entre 18 de agosto e 20 de outubro. Falta saber se será o único nome no boletim de voto.

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