Premium Com Portugal a China tem "um pézinho na UE" mas investimento "não é o mais desejado"

Carlos Melancia

Carlos Melancia

  |  Nuno Veiga/LUSA

Após a assinatura da declaração conjunta entre Portugal e a China para a transferência de Macau deu-se "o pontapé de saída" para 300 milhões de euros de investimentos no território, disse à Lusa aquele que foi o governador do território naquele período.

"O que posso dizer é que são mais de 300 milhões de euros, mas não são só do meu tempo. Estou a falar que, na altura, se deu o pontapé de saída", disse em entrevista à Lusa Carlos Melancia, agora com 92 anos.

A Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau foi assinada a 13 de abril de 1987, há exatamente 32 anos, e Carlos Melancia tomou posse como governador do território em julho desse ano, já para fazer cumprir o projeto de transferência da administração do enclave, que se concretizou em 1999, há 20 anos.

Segundo o antigo Governador, o que pretendia tanto a China como Portugal era que o território tivesse e caminhasse para a autonomia financeira.

E "caminhou o suficiente", afirmou o antigo governador de Macau, Carlos Melancia, em entrevista à Lusa, 32 anos após a assinatura da declaração.

Exemplos dessa aposta na autonomia foi a construção do aeroporto para combater o estrangulamento dos transportes e a conclusão dos hospitais Chinês e de São Januário.

"Eu negociei isto tudo, mas quem acabou por os concluir [os projetos] foi o Rocha Vieira", disse Melancia, referindo-se ao governador que o substituiu no cargo.

"Não fui eu que inaugurei o aeroporto, mas a negociação do aeroporto com Hong Kong e com Pequim foi comigo", sublinhou.

"Isso levanta sempre dificuldades. O projeto do aeroporto era considerado uma peça vital. E eu falei duas vezes com a TAP a propósito do aeroporto, porque este era um sinal de que a autonomia do território existia: tinha um aeroporto próprio", relatou.

O projeto original visava completar a oferta aeroportuária de Hong Kong, então com o seu aeroporto "praticamente saturado".

"Ora não havia razão para fazer o segundo aeroporto em Hong Kong, devia-se fazer em Macau, como se fez. Mas Hong Kong passado um ano de termos conseguido a autorização, agarrou nisso e construiu um segundo aeroporto", recordou.

A grande questão foi assegurar verbas para financiar esses grandes projetos.

"Na Declaração Conjunta estava previsto que nós tínhamos de tratar do problema da venda das terras [conquistadas ao mar]. Ora a terra em Macau, em termos formais, vale milhões. E na prática era uma das fontes de receita mais importantes logo a seguir ao jogo", referiu.

"Nós vendemos as terras, mas não utilizámos um tostão dessa receita, para que houvesse a noção de que não estávamos a utilizar património chinês em benefício das coisas que estávamos a fazer", contou.

Quanto ao seu sucessor, Melancia faz elogios: "é importante sublinhar que o general Rocha Vieira, que foi quem continuou os objetivos, seguiu rigorosamente o plano de investimentos em termos de execução".

"Isso em termos nacionais não é muito corrente. De uma maneira geral, a atitude, quando há alterações de chefias do Estado (...) é de não continuar aquilo que vem de trás. É começar de novo e transformar", considerou.

Relacionadas

Exclusivos