Bolívia: El Alto, a tensão entre os leais a Evo Morales e a extorsão sobre os que pedem paz

Bolívia: El Alto, a tensão entre os leais a Evo Morales e a extorsão sobre os que pedem paz

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O maior reduto leal a Evo Morales, ponto nevrálgico dos protestos contra a atual presidente Jeanine Áñez, convive com crescentes manifestações opostas daqueles que se rebelam contra as extorsões e que só querem a paz.

Os bloqueios que procuram asfixiar La Paz para desgastar o atual governo transitório começam a ceder em El Alto enquanto moradores, cansados de protestos, começam a ganhar coragem para se oporem aos que os obrigam a marchar em defesa do ex-presidente Evo Morales.

O enfermeiro Ricardo Lazarte, de 33 anos, vive no bairro 5 de El Alto. É um dos que se rebelou contra os grupos comandados por dirigentes do Movimento Ao Socialismo, o partido de Evo Morales, que extorquem moradores sob coação.

"Esses grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales atemorizam aqueles que não querem bloquear avenidas nem marchar. Quem não cumprir, recebe mensagens de áudio com ameaças, multas ou tem a porta da casa pichada para que depois vândalos saqueiem e destruam essa casa. É uma situação violenta", descreveu Ricardo à Lusa, indicando que "o objetivo é destruir o património e as instituições públicas para instaurar o caos".

"Como cidadão comum, eu tenho a necessidade de sair para trabalhar e tenho saído duas ou três horas antes para poder fintar os bloqueios. Os moradores estão cansados e começam a reagir", apontou.

Além da ameaça de saques, os dirigentes de Morales desinformam os moradores ao avisarem que, se não marcharem, perderão benefícios sociais ou mesmo que terão os serviços básicos da casa interrompidos. A polícia tem uma linha gratuita e confidencial para receber denúncias contra os que obrigam a população a participar das marchas.

Como reação, neste fim de semana, centenas de moradores marcharam, com roupas e com bandeiras brancas, para repudiarem a violência. "Não à violência. Paz para a Bolívia. Queremos trabalhar", diziam as palavras de ordem.

As marchas têm acontecido em quatro dos 14 bairros de El Alto que se rebelaram. A convocação é através das redes sociais. O número de participantes ainda é tímido porque muitos têm medo.

Nesses bairros, o Cidade Satélite, a reportagem da Lusa encontrou Franklin Cama a coordenar com outros vizinhos a proteção da zona.

"Ainda temos medo. À noite, ficamos em vigília atentos aos alarmes das casas. De repente, às duas da manhã, podemos escutar que alguém entrou numa casa para roubar. E todos nós da vizinhança saímos com paus para defender esse vizinho", contou Franklin, de 25 anos.

"Os delinquentes não querem saber de qual classe a vítima é. Entram tanto nas lojas quanto nas casas humildes. Os bandidos têm carta branca para roubar. Nós é que nos temos de defender", afirmou este estudante de Mecânica Automotiva, há um mês sem aulas, assim como a maioria das escolas do país.

Na dia 10 de novembro, quando Evo Morales renunciou, polícias recortaram do seu uniforme a bandeira Wiphala costurada ao lado da bandeira boliviana. Depois queimaram a bandeira que representa os povos indígenas. As imagens provocaram indignação nas redes sociais. Esquadras e postos da polícia foram saqueados e incendiados. El Alto é hoje uma cidade sem policiamento.

Os saqueadores aproveitam a ausência da olícia e conivência dos dirigentes que apostam no caos para desestabilizar o governo de transição de Jeanine Áñez.

Aqui no bairro Cidade Satélite as barricadas começam a ser retiradas pelos próprios moradores, mas ainda se veem muitos escombros e restos de fogueiras em cada esquina. São vestígios de uma guerra que ainda não acabou.

Quase todas as casas exibem a bandeira multicor Wiphala, ícone da identidade dos povos indígenas. El Alto fica a 4.140 metros de altura, 500 metros de altitude a mais do que La Paz. Um dos segredos para se subir os 11 Km que separam as duas cidades e para circular com menos riscos é adquirir uma Wiphala, transformada numa espécie de salvo conduto. Quem tem uma bandeira declara de qual lado está nessa luta que divide a Bolívia indígena da branca. Em El Alto, isso pode significar proteção.

A maioria das casas são de tijolo exposto sem revestimento nem pintura. Em alguns comércios, podem-se ver as marcas dos incêndios contra aqueles que insistiram em abrir as portas.

Daniela Quisbert, de 23 anos, é comerciante na Cidade Satélite. Só aceita falar com a Lusa porque "a notícia vai para o exterior".

"Tenho vivido esses últimos dias com susto porque não pude abrir o comércio. Dão ordem para fechar ou vão saquear. Tive de guardar a mercadoria por medo. Depois de dias de comércio fechado, comecei a abrir duas horas porque preciso de viver, mas abro com muito medo", revelou.

"Não fui saqueada porque fechei o comércio. Os clientes tinham medo de sair das suas casas. Na rua 12, não fecharam e foram saqueados e queimados", comparou Daniela.

Um cliente entra na pequena loja de Daniela. "Tem leite e ovos?", pergunta o senhor. "Nada de nada", respondeu Daniela, que oferece, em lugar de leite, uma garrafa de iogurte. Sem opções, o cliente aceita.

"Mesmo quando abro, os camiões não podem chegar com mercadorias porque há barricadas com pedras, madeiras e fogo", lamentou Daniela.

Nesta semana, o governo apresentou um vídeo filmado em 15 de novembro, capturado do telemóvel de um manifestante preso. No vídeo, um dirigente em El Alto dialoga com Evo Morales do México, onde está exilado. Durante o diálogo, Morales dá instruções sobre o cerco a La Paz para que "não entre comida nas cidades". O governo fez uma denúncia contra Morales por sedição e terrorismo.

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