A China "é o elefante na sala" na relação União Europeia/África

O eurodeputado lidera a delegação do Parlamento Europeu que foi ao Ruanda negociar um novo acordo de parceria entre a União Europeia e os países de África, Caraíbas e Pacífico.

A União Europeia quer urgência num novo acordo de parceria com os países de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e para isso enviou uma delegação a Kigali, Ruanda, onde decorreu, há uma semana, a Assembleia Parlamentar Paritária ACP/UE. O eurodeputado português Carlos Zorrinho (PS), que chefiou a delegação europeia, veio da missão com uma certeza absoluta: "Há dois elefantes na sala. Um deles é a China. Os líderes africanos não o dizem de uma forma muito direta, mas questionam porque vão fazer acordos com a UE que lhes impõe condições de direitos humanos, de terem Estados de Direito e respeito pelas minorias, quando a China não lhes impõe condições nenhumas para lhes dar financiamento".

Essa "condicionalidade" que a União Europeia apresenta nas negociações com os líderes africanos não tem paralelo no concorrente gigante, a China. "Por isso entendemos que as condições devem ser cada vez mais duplas. Ou seja, os termos da UE já mostraram ser eficazes para ajudar estes países no seu desenvolvimento. Mas também temos de aceitar que os países africanos nos imponham condições a nós, como por exemplo, mais investimentos europeus nas pequenas e médias empresas, nas economias", afirma Carlos Zorrinho em declarações ao Plataforma.

O facto de a China ser credora de muitos destes países levanta algumas questões. "A dependência financeira destes países em relação à China é um exemplo. Será que tal permite que os países africanos possam impor condições à China?", questiona.

O outro "elefante na sala" é "a questão colocada por alguns países europeus: 'Será que o acordo com os ACP vai atrasar o acordo de parceria União Europeia/África?'.

No enorme tabuleiro africano há vários peões em jogo como os Estados Unidos e o Japão. "Cada vez mais os africanos têm condições para negociar. Não só com a União Europeia mas também com a China, Os Estados Unidos e o Japão", enfatiza o eurodeputado.

Carlos Zorrinho explica que a UE quer "um acordo entre iguais" com os países do ACP numa perspetiva "win win", em que todos ganham, e que seja possível, em simultâneo, avançar com o acordo União Europeia/África. O eurodeputado recorda a "dimensão parlamentar e de participação cívica destes acordos, que serão sempre ratificados pelos Parlamentos dos respetivos países e também pelo Parlamento Europeu".

O prazo para fechar o novo acordo entre a UE e os países ACP foi derrogado de fevereiro de 2020 para novembro do próximo ano. A sua entrada em vigor poderá acontecer durante a presidência alemã do Conselho Europeu (de 1 de julho a 31 de dezembro de 2020) ou durante a presidência portuguesa (de 1 de janeiro a 30 de junho de 2021), lembra o eurodeputado.

Financiar o emprego para jovens

Um dos pontos em que a União Europeia pode fazer a diferença em África é ajudar a dirimir o problema do desemprego jovem, uma realidade preocupante em países como Angola ou Moçambique. "Há um diferencial total em África entre o número de jovens e o número de empregos criados. Chegam cinco vezes mais jovens ao mercado de trabalho do que há empregos", salienta Carlos Zorrinho. "Nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) o único que não tem problemas tão graves a esse nível é Cabo Verde".

O acordo entre UE e os países do ACP tem a participação do Banco Europeu de Investimento e é financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento. "As parcerias podem funcionar ao nível do fomento de microempresas que criem emprego para jovens".

Ainda não foram divulgados valores dos montantes envolvidos neste acordo União Europeia e países do ACP e no futuro acordo UE/África.

"O continente mais jovem e com muito para explorar"

O novo foco geoestratégico do mundo desenvolvido em África tem, para Carlos Zorrinho, uma explicação relativamente simples: "É o continente mais jovem e onde ainda há muito por explorar". Os entraves esbarram sempre na mesma causa: a instabilidade política em alguns Estados africanos. "Existe um problema no fluxo de governança e de capacidade soberana em África".

Mas o que pode distinguir no terreno a posição da UE da de outros competidores, como os EUA ou o Japão, é "a nossa capacidade de dizer que estamos dispostos a fazer uma parceria de longo prazo, sustentável".

O papel de Portugal devido à sua relação privilegiada com os PALOP "tem sido muito importante". Aliás, "a parceria com África é uma das prioridades da presidência portuguesa do Conselho Europeu" em 2021.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.

Relacionadas

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG