"Queremos ser especialistas na Grande Baía"

Após a fusão entre a empresa de pagamentos eletrónicos Macau Pass e a empresa de media e marketing Mome, o diretor de ambas, Joe Liu, garante que está agora em melhores condições para enfrentar os novos desafios decorrentes do desenvolvimento da Grande Baía Guangdong Hong Kong Macau.
O objetivo é ser uma plataforma para gigantes tecnológicas da China continental.
Liu também pede ao governo que se inspire em boas práticas em vigor em Hong Kong e na China continental para ajudar a indústria de pagamentos eletrónicos e impulsionar o empreendedorismo na cidade.

- O que motivou a fusão entre a Macau Pass e a Mome?
Joe Liu - A fusão faz todo o sentido. Iniciei o Mome com o meu parceiro e a missão inicial da empresa era muito simples: tentar desenvolver a indústria de novos media de Macau e oferecer um serviço de marketing mais inovador com o objetivo de chegar mais eficazmente a residentes e visitantes
Após cinco anos, conseguimos uma base de clientes muito estável e leal e procuramos dar o passo seguinte de modo a criar soluções de negócios para os nossos clientes. O nosso projeto está agora solidificado como uma solução integrada após a fusão com a Macau Pass, uma vez que a Mome, como empresa, não tem um instrumento de pagamentos electrónicos por si, ao passo que esse é o negócio da Macau Pass. Foi assim que surgiu a fusão.
- O mercado de pagamentos electrónicos conheceu avanços claros recentemente, mas ainda está atrás de outras cidades na região. Em que ponto estamos?
J. L. - Se compararmos com a China continental, Macau ainda está numa fase inicial. O mercado de pagamento electrónico de Macau está cinco anos atrás da China continental. Naturalmente que o mercado na China cresceu exponencialmente, alcançando um notável nível de penetração e desenvolvimento, tornando-se parte integrante do modo de vida.
Em Macau ainda temos opção de escolha de pagamentos: dinheiro vivo, cartão de crédito ou pagamento electrónico. Mas comparando Macau com outros mercados no estrangeiro, Macau não está assim tão atrasada, nomeadamente no que diz respeito a serviços para turistas da China. Segundo um ranking da Alipay, Macau está posicionada logo atrás da Coreia do Sul e do Japão.
- Quem são os vossos competidores?
J. L. - Para dizer a verdade, não vejo que tenhamos competidores no mercado. Não quero posicionar-nos como estando em competição direta com ninguém. Quero trabalhar com todos.
- Qual é o nível de encaixe entre a Macau Pass e o sistema bancário local?
J. L. - Se olharmos para os produtos e serviços oferecidos aqui pode-se presumir que há um certo tipo de competição, uma vez que os bancos também prestam serviços semelhantes ao pagamento electrónico. Todavia, se comparar a Macau Pass com os vários bancos, não nos posicionamos em competição com eles. Na verdade, estamos a providenciar uma plataforma para os vários bancos utilizarem, de uma forma aberta. Todos os bancos já estão em competição uns com os outros. Cada um tem o seu terminal, onde as pessoas podem passar os cartões e prestam serviços relacionados com depósitos, empréstimos ou investimentos.
Nós não somos um banco. Nós não prestamos serviços bancários tradicionais. Nós focamo-nos no que sabemos fazer ao passo que o bancos tratam das transações de valores elevados.
- E relativamente a serviços em duas ou três moedas?
J. L. - Quando encaramos cooperação com empresas tecnológicas da China continental, centramo-nos no mercado local e na forma de ligação ao continente.
Por exemplo, no sistema de pagamento electrónico M-Pay, apostamos primeiramente na pataca. Relativamente aos visitantes da China , eles usam renminbi pelo que somos uma plataforma também para os sietmas da Alipay e Wechat Pay. Estamos a trabalhar também para ligar a nossa carteira electrónica com as da China continental. O objetivo é que as pessoas de Macau possam usufruir de serviços em duas ou até três moedas.
- Qual é a situação relativamente à interligação com a Octopus de Hong Kong?
J. L. - Estamos agora a desenvolver esse tipo de ligação com a Octopus. Eles concordaram com uma sistema que segundo o qual podemos vir a utilizar o Macau Pass nos terminais da Octopus em Hong Kong. Eles estão a desenvolver o sistema para que os nosso cartões sejam usados nas máquinas deles. Nós já fazemos isso aqui relativamente aos cartões da Octopus.
- A Macau Pass tem trabalhado com a Alipay (grupo Alibaba). Que outras parcerias estão na calha?
J. L. - Nós tivemos uma parceria exclusiva com a Alibaba, que nos permitiu fazer crescer o mercado local em conjunto. Macau está agora preparada para mais cooperação com outros gigantes da China continental. Muito do desenvolvimento do negócio deles passará por nós.
Nós também abriremos as portas a outras empresas chinesas, nós conhecemos bem o mercado local e sabemos formas de fazê-lo crescer, abrindo caminho para os produtos e tecnologias avançadas dessas empresas. Somos uma plataforma.
- Qual é a vossa abordagem ao mercado da Grande Baía?
J. L. - Em termos de pagamentos electrónicos, apostamos em sistemas envolvendo três moedas e esperamos que um dia possamos ter uma circulação dessas moedas na região da Grande Baía de uma forma controlada e segura, através da cooperação com empresas da China continental e com os decisores políticos. No que diz respeito às soluções para negócios da Mome, o nosso objetivo é ligar as empresas e os negócios. No futuro queremos especializar-nos na Grande Baía. Será semelhante ao que fazemos agora mas a numa escala bem maior.
- Que medidas deviam ser tomadas em Macau para criar uma ambiente de negócios mais favorável?
J. L. - Espero que o Governo continue a monitorizar bem as diferentes instituições financeiras de Macau. Queremos trabalhar em conjunto com os outros bancos e evitar competição direta. O mercado de Macau é pequeno e há o risco de termos demasiadas empresas a prestar basicamente o mesmo serviço. Poe exemplo, vemos vários terminais, cinco, atrás da caixa registadora - um por cada banco. Hong Kong tem uma sistema de pagamento rápido, estimulado pelo governo. Há um foco neste sector. Ou seja, o Governo pode intervir para ajudar o mercado e este sector.
- Como é que isso pode ser feito?
J. L. - Na China continental, temos o conceito de sandbox, que é semelhante a termos uma criança a brincar numa zona controlada em que pode fazer as experiências e brincadeiras que quiser sem perturbar o que está fora dessa caixa. Este conceito é muito bom. É fornecido um limite em termos geográficos, dentro do qual se pode fazer o que se entender, estando sujeito a avaliações periódicas. Após várias rondas de análise, decide-se que produtos estão prontos para ir para o mercado e quais deverão permanecer na caixa durante mais algum tempo.
- Poderíamos ter algo do género em Macau?
J. L. - Sim. Talvez um conceito como o de sandbox seja positivo para Macau. Dessa forma, as empresas poderiam avançar com novas ideias e produtos mais rapidamente. Neste momento, qualquer nova função que queiramos introduzir tem de passar pelo crivo das autoridades.
- Trata-se de um processo lento?
J. L. - Sim, porque eles apenas podem aprovar algo com base nas regras existentes. Mas a inovação é, em si, um motor para alterar as regras.

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