Diplomatas da América Latina surpreendidos pela oferta empresarial do Dão

Delegação de embaixadores e representantes dos países da América Latina estiveram em Viseu à região do

Delegação de embaixadores e representantes dos países da América Latina estiveram em Viseu à região do Dão, no centro de Portugal

  |  Maria João Gala /Global Imagens

A falta de conhecimento sobre o que se faz em Portugal a juntar à falta de conhecimento sobre as reais oportunidades de negócio para as empresas portuguesas no universo ibero-americano, pode justificar o fraco peso das vendas ao exterior para os países da América Latina, apesar do crescente interesse em investimento direto em alguns desses países, que juntos representas apenas 3% do total das exportações portuguesas.

Esta realidade tem levado à dinamização de várias visitas de diplomatas às diferentes regiões do país e depois da Bairrada, Beiras e Alentejo, agora, foi a vez do Dão. A visita organizada pela Casa da América Latina e pela Câmara Municipal de Viseu, juntou os embaixadores da América do sul e central com representação em Lisboa e que manifestaram vontade de conhecer a região, desde o Chile, à Colômbia, Cuba, Panamá, Peru, Paraguai, Argentina, República Dominicana e Brasil.

Faltaram à chamada, alguns representantes oriundos de países como Uruguai e Venezuela, mas por motivos diferentes. Nesta altura do ano, há pessoal de férias, impedimentos de agenda diplomática e outros constrangimentos, como o facto de, alguns países não terem representações diplomáticas residentes no nosso país.

O programa de dois dias incluiu uma ida ao laboratório SalivaTec - Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Saúde do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica, o Grupo Visabeira, o Museu Grão Vasco, a Incubadora VISSAIUM XXI e uma ida da comitiva a Oliveira de Frades para visitar a Martifer, grupo multinacional com atividade centrada no setor de construção metálica e das energias renováveis, nomeadamente no desenvolvimento de parques eólicos e solares fotovoltaicos.

Para Alberto Laplaine Guimarães, presidente da comissão executiva da Casa da América Latina, praticamente todo o corpo diplomático dos países da América Latina respondeu ao convite, que se insere na estratégia desta organização que passa pelo desenvolvimento de ações culturais e empresariais, reforçando há oito anos a aposta na área económica, pelo papel crescente que a diplomacia tem tido neste domínio.

Quanto à ausência de um representante venezuelano na comitiva, foi justificada por este responsável, por ser "uma questão diferente, porque Portugal é um país que reconheceu um presidente, mas que de facto, não exerce o poder." Acrescentando que, a representação da Venezuela, através do embaixador Ricon, (que aliás, está em Portugal há largos anos) "reflete um regime com o qual Portugal mantém pontes e diálogo, porque é necessário, nomeadamente pela comunidade portuguesa na Venezuela, mas que Portugal não reconhece como o representante do estado venezuelano e portanto é uma situação dúbia. Foi convidado para esta missão. Pura e simplesmente existe um divórcio claro com os restantes embaixadores que não o reconhecem como representante da Venezuela e ele próprio não se sente bem com os seus colegas, porque sabe que não é querido no meio do grupo. É mais um problema interno, do que da própria Casa da América latina, na qual o embaixador Ricon foi já vice-presidente. Neste tipo de viagens ele preferiu não participar porque provavelmente implicaria que alguns destes embaixadores aqui presentes não viessem e o clima não seria bom".

Para este responsável há que olhar para o futuro e esperar mais e melhor cooperação nas novas linhas estratégicas que os chefes de estado vão definir na próxima Cimeira Ibero-Americana marcada para o final deste ano, em Andorra.

Quanto à visita a Viseu, para Alberto Laplaine Guimarães foi uma agradável surpresa pelo nível de desenvolvimento da região de Viseu, esperando-se agora que "dê frutos" e se traduza na aproximação bilateral.

Para Alberto Guimarães é uma espécie de ponte transatlântica em que Portugal pode-se destacar em domínios como soluções ambientais sustentáveis e a eficiência energética pelo nível de desenvolvimento em segmentos como as renováveis.

O secretário de estado da Internacionalização também integrou esta visita considerado que ela "é uma autêntica ação de internacionalização cá dentro, por juntar o corpo diplomático residente em Portugal, que no fundo, é uma janela que os diferentes países têm para Portugal e a vários níveis, desde o cultural, económico ou politico".

Para Eurico Brilhante Dias trazer esse corpo diplomático da América Latina para fora das áreas metropolitanas de grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, é uma forma de mostrar a realidade e de fazer com que o processo e todo este movimento de internacionalização que temos vivido e que continuamos a procurar desenvolver, seja estendido a todo o território nacional. Por outro lado permite uma aproximação com o poder autárquico e às associações empresarias locais criando um laço que posteriormente vai permitir a estes diplomatas trazer empresários e outros agentes de dinamização económica dos respetivos países a estas regiões e a partir daí criar oportunidades e confiança para concretização de projetos conjuntos.

O secretário de estado sublinha que tem acompanhado este movimento no terreno nesta e noutras visitas, dizendo que "nós na secretaria de estado da internacionalização temos procurado incentivar essa proximidade e eu próprio faço visitas ao território, fora de Lisboa, conhecendo outras realidades diferentes e queremos continuar a apoiar esta vinda do corpo diplomático para fora de Lisboa para conhecer outros territórios e daqui surgirão mais oportunidades de exportação de empresas e territórios cuja sua intensidade exportadora ainda é mais baixa do que o litoral do país."

A acompanhar esta visita esteve ainda o Gestor de mercados da AICEP, Fernando Quintas que sublinhou a necessidade de reforço das relações bilaterais, numa altura que no total os mercados da América Latina representam apenas 3% em termos de exportações e importações. Dados ainda de 2018, que para este responsável revelam "mercados enormes e que mesmo assim, desses 3% a grande maioria, seja em percentagem, seja em valor bruto, cerca de 50% refere-se só ao Brasil e portanto, há aqui uma janela de oportunidades para mercados muito grandes e para os quais, estas e outras iniciativas, assumem importância para a lógica de fazer aumentar a capacidade exportadora e também para diversificar mercados, para evitar dependência de um ou dois mercados ao sabor das mudanças conjunturais desses destinos. "

No caso deste grupo representativo da América Latina, este responsável da AICEP considera que os sectores dos serviços, construção, engenharia, transportes, etc. são chave para apostar, pela dinâmica da sua própria natureza.

Quanto à realidade de destinos como a Argentina e o Brasil, Fernando Quintas, considera que em certa medida, são mercados um pouco protecionistas mas com o Mercosul isso poderá vir a melhorar, mas tem que ser uma relação país a país e na realidade até tem havido um incremento das relações comerciais.

O anfitrião António Almeida Henriques, presidente da câmara municipal de Viseu apresentou a região como um "farol do interior", por ter tido a capacidade de fixar cerca de 5 mil estrangeiros, nos últimos 3 anos, ( cerca de 3 mil são brasileiros) além de atração de industrias nas áreas da saúde, ambiental e tecnológica que no conjunto captaram cerca de 2 mil quadros para a região. Para o autarca, estes factos revelam que Viseu é atrativo pela qualidade de vida, que tem conseguido fixar investimento local e vindo de fora, pela aposta nos sistemas educativo, desportivo, cultural e social, que tem sido fundamental para criar um ambiente de qualidade de uma cidade, que sendo do interior se tem vindo a afirmar.


De Viseu a Lafões, esta região criou um ecossistema responsável por 2 mil milhões de euros de exportações nacionais, que inclui diferentes tipos de sectores, desde as novas tecnologias, aos têxteis, à metalomecânica ligeira, à indústria automóvel, indústria farmacêutica e agroalimentar.


Para o autarca ainda há espaço para captar mais investimento direto estrangeiro, sublinhando que o município tem feito muito trabalho de promoção. Desde que iniciou o projeto "ViseuInvest" conseguiu instalar 90 projetos e sentiu que se criaram boas sinergias com os embaixadores da América latina que visitaram a região, pela surpresa causada e procura de mais informação sobre alguns sectores específicos, como as smart cities e energias renováveis.

Relacionadas

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG