"Nós podemos ser importantes para a China e isso é uma sorte para nós"

A crescente importância e expansão da língua portuguesa em Macau e na China e o fortalecimento das relações económicas entre empresas portuguesas e chinesas dominou a manhã do colóquio "Portugal-China 20/20 - Identidade, quotidiano e economia", esta sexta-feira, em Lisboa, na Universidade Católica.

"A forma correta de entrar no mercado chinês é através de IDE [Investimento Direto Estrangeiro] e não através de exportações". Foi logo no início da sua intervenção, no segundo painel do dia dedicado a "Economia e Negócios", que Fernanda Ilhéu, ex-delegada do ICEP em Macau, deixou esta certeza. Um caminho que, segundo a agora docente do ISCTE, está a ser seguido pela China para entrar em Portugal (através de fusões e aquisições), enquanto o IDE português na China "é insignificante".

Pedro Reis, ex-presidente da AICEP, dá o passo seguinte no caminho indicado por Fernanda Ilhéu: "é preciso fazer o loop: trazer empresas chinesas para Portugal em parceria com empresas portuguesas, aproveitar as sinergias daí resultantes, sobretudo a capitalização das empresas, um problema crónico em Portugal, para ganhar escala e depois investir no mercado chinês".

O ex-presidente da AICEP defendeu que os investimentos chineses em Portugal têm funcionado como "um acelerador de I&D e da agenda externa" das empresas portuguesas que têm recebido esses investimentos.

Uma realidade reforçada por Rogério Campos Henriques, vice-presidente da Fidelidade, seguradora portuguesa adquirida em maio de 2014 pela chinesa Fosun, durante a sua intervenção no painel. O gestor destacou a aposta do investidor chinês no mercado português num momento difícil da economia nacional e a relação mutuamente benéfica do negócio. A Fosun trouxe à seguradora portuguesa uma estabilidade financeira que lhe permitiu consolidar uma estratégia própria de investimento em África e na América Latina, assinalou.

Vantagens também sublinhadas por Pedro Reis. "A China é extremamente importante para Portugal. A China dá-nos o que historicamente nos falta: escala". Já Portugal, para a China, é um parceiro que facilita a entrada em mercados altamente regulados, defendeu, falando na necessidade de Portugal atrair parte do investimento previsto para a iniciativa Uma Faixa Uma Rota. "Nós podemos ser importantes para a China e isso é uma sorte para nós".

"Cheguei a ter ordens para fechar o Instituto Português do Oriente", afirmou Ana Paula Laborinho, que estava em Macau durante a transição da administração portuguesa para a chinesa da Região Autónoma Especial de Macau (RAEM), em 1999. Uma revelação feita durante o primeiro painel da manhã, dedicado à "cultura, Comunicação e Línguas", que serviu para ilustrar os "muitos fantasmas" que, defendeu, se foram formando durante a época de transição.

Falando sobre o potencial económico da língua portuguesa, Ana Paula Laborinho destacou que, segundo as perspetivas de crescimento demográfico no mundo, "em 2100 o continente onde se vai falar mais português é África".

Desse tempo de negociações, Ana Paula Laborinho não tem dúvidas: "Temos de estar muito orgulhosos do que se fez, continua a fazer e estamos certos será o futuro de Macau", defende, porque, "achava-se que cinco ou seis anos depois da transição a língua portuguesa iria desaparecer. O que não aconteceu, as autoridades chinesas não quiseram que isso acontecesse".

Carlos André, que liderou o Instituto Politécnico de Macau entre 2013 e 2018, demonstrou a expansão do ensino da língua portuguesa em território chinês na última década: de seis universidades a lecionar cursos de português passou-se para as atuais 39, de 15 docentes passou-se para 178 (120 dos quais chineses) e de 300 estudantes atingiu-se já mais de 3400.

Destacando o papel de Macau na expansão do ensino do português, Carlos André refere a vontade política do governo da RAEM que se traduz no financiamento da formação de professores, na produção de materiais de apoio e na promoção de diálogo entre instituições.

José Carlos Matias, diretor do site Plataforma Media, salientou a importância da imprensa portuguesa em Macau, que "sempre teve um lado livre e independente que se mantém desde 1999", ou seja, do regresso do território à administração chinesa.

Segundo o jornalista, que há 16 anos está a trabalhar em Macau, esta realidade só é possível "porque houve boas bases": a lei de imprensa, de 1990, o sistema de incentivos à imprensa e a pujança económica da região nos últimos 20 anos, nomeadamente com a explosão do jogo.

"A imprensa mais livre e o jornalismo mais independente que se faz hoje em Macau é em português e isso é importante preservar", defendeu José Carlos Matias que reconheceu a dificuldade de acesso à informação e alguma falta de transparência das instituições.

O arquiteto Carlos Marreiros sublinhou a oportunidade que constitui a iniciativa Uma Faixa Uma Rota, tanto a nível interno como na política externa chinesa. Uma proposta de cooperação traçada pelo atual líder chinês, Xi Jiping, que Marreiros recusa ser um neo-imperialismo.

Para a afirmação de Portugal na China, o arquiteto indica um caminho: criação de centro de conhecimento que, utilizando as novas formas de comunicação, "mostrem coisas muito simples sobre Portugal e depois de criar esta simpatia pelas coisas portuguesas levar ao aprofundamento das relações".

No início do encontro, e para não se esquecer os mais de quatro séculos de ligação Portugal-China, o sinólogo Roderich Ptak destacou fatores demográficos, geográficos e as relações comerciais que ajudam a explicar o porquê de Portugal ter optado por estabelecer uma base em Macau em detrimento de outras possíveis localizações no território chinês.

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