Premium Melhora em números da economia chinesa mascara problemas mais profundos

Os chineses ainda têm dificuldades para abandonar sua dependência de empréstimos

As fábricas da China estão começando a acelerar de novo. Os consumidores do país estão abrindo as carteiras. As tensões comerciais com os Estados Unidos começam a se reduzir.

Nesta sexta-feira (17) a China anunciou nesta sexta seu crescimento anual mais fraco em 29 anos.

A economia da China, um dos grandes propulsores do crescimento mundial, continua a encarar alguns dos maiores desafios que já encontrou desde que se começou a se abrir ao exterior, quatro décadas atrás.

Alguns dos números da economia chinesa parecem melhores porque um ano atrás os indicadores estavam excepcionalmente fracos. O acordo inicial de comércio com os Estados Unidos, assinado na quarta-feira (15) em Washington, ainda mantém inalteradas as tarifas americanas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses.

E ainda mais importante é o fato de que a economia chinesa continua a encontrar dificuldades para abandonar sua dependência de empréstimos, o que sobrecarregou o país com trilhões de dólares em dívidas.

"No momento, todo mundo decidiu ver o copo como meio cheio. Os mercados estão extremamente otimistas, e por isso se inclinam a ver o lado positivo", disse Hao Zhou, economista sênior do Commerzbank. Ele acrescentou que "precisamos manter em mente que o copo também está meio vazio".

Depois da assinatura de uma trégua parcial no comércio, a expectativa é de os números pintem um quadro positivo para os líderes da China. Um desempenho econômico forte ajuda o Partido Comunista chinês a manter seu controle férreo sobre o sistema político do país.

Números fortes quanto ao crescimento se tornaram mais difíceis de atingir com o amadurecimento da economia -o país, no passado pobre, agora se tornou o maior produtor industrial do planeta e seu PIB (Produto Interno Bruto) é de mais de US$ 13 bilhões anuais.

Mas o impulso oferecido pelo acordo comercial não deve ser forte. O acordo mantém a maior parte das tarifas de US$ 360 bilhões anuais impostas pelo presidente Trump a produtos fabricados na China, o que continuará a exercer pressão sobre as fábricas do país em longo prazo. Em curto prazo, o impacto da guerra comercial sobre a economia da China foi menor do que muita gente antecipava, reduzindo em cerca de meio ponto percentual o PIB do país em 2019, de acordo com estimativas do grupo de pesquisa S&P Global.

"O acordo comercial tira da mesa a probabilidade de uma queda", disse Shaun Roache, economista chefe da S&P Global. "Mas isso não será suficiente para mudar a dinâmica que prevalece na China", ele disse.
O maior ponto de pressão sobre a economia pode ser causado por Pequim. Anos de medidas de estímulo ao crescimento por meio de empréstimos e de gastos públicos sobrecarregaram as companhias e os governos locais chineses de dívidas, em valores elevados. A China tomou medidas para reduzir o crédito excessivo e para permitir que os devedores imprudentes quebrem, o que prejudica o crescimento em curto prazo.

Os líderes chineses pareciam estar abertos a aceitarem esse risco. A mídia noticiosa estatal sinalizou a disposição das autoridades de permitir que o crescimento deste ano caia a menos de 6%, pela primeira desde 1990. Os economistas vêm cortando suas projeções quanto ao crescimento do país. Zhou, do Commerzbank, estimou que o crescimento chinês cairá a 5,8% este ano. A S&P estima que o crescimento cairá a 5,7%.

A redução das expectativas reflete outras tendências adversas prementes. Uma das maiores é a deterioração na saúde do setor empresarial chinês. Empresas de todo o país, de fabricantes de brinquedos a montadoras de automóveis e startups, enfrentam dificuldades de caixa e não estão conseguindo pagar suas contas.

Nos últimos três meses de 2019, o volume de pagamentos atrasados das empresas a seus clientes, empregados e credores chegou a um recorde, de acordo com a consultoria econômica China Beige Book.

Alguns setores foram atingidos com intensidade especial. Na indústria automobilística da China, a maior do planeta, as vendas caíram em mais de 8% no ano passado, ante 2018, de acordo com uma organização setorial controlada pelo Estado. O setor imobiliário, um propulsor fundamental da economia em um país no qual os domicílios acumulam boa parte de seu patrimônio em imóveis, também vem mostrando sinais de dificuldade.

Por estarem sofrendo de falta de caixa em 2019, mais e mais companhias chinesas passaram a pagar com vales, conhecidos como letras comerciais, em lugar de pagarem suas contas em dinheiro. Pela metade do ano, havia cerca de US$ 200 bilhões dessas letras em circulação.

Isso resultou no desenvolvimento de um mercado para esses títulos. Algumas empresas que recebem pagamentos em letras comerciais as vendem abaixo de seu valor de face, quando encontram problemas financeiros, o que distribui o risco a outras áreas da economia caso o devedor termine por não pagar.
Outros sinais indicam que companhias chinesas estão enfrentando dificuldades para pagar suas contas.

Em 2019, o número de empresas chinesas que deixaram de pagar títulos de dívida detidos por investidores locais e estrangeiros chegou a um recorde, e entre elas há algumas companhias importantes como uma gigantesca estatal do ramo de commodities e um conglomerado que tem participação da mais prestigiosa universidade do país.

Pelos próximos dois anos, essas empresas deverão centenas de bilhões de dólares a credores e investidores de todo o mundo. Caso não sejam capazes de pagar, as companhias chinesas podem enfrentar custos mais altos de captação no futuro.

As novas restrições chinesas a empréstimos impediram o governo de injetar grandes quantias no sistema financeiro e de lançar projetos de infraestrutura de custo elevado, a fim de manter as engrenagens da economia em funcionamento. Ao mesmo tempo, as autoridades continuam liberando dinheiro para que as companhias tomem emprestado, por meio de medidas como a redução nos requisitos de reserva que os bancos chineses são obrigados a manter em caso de emergências inesperadas.

Essas medidas não ajudaram muito a economia, e essa é uma tendência perturbadora, disse Leland Miller, presidente-executivo da China Beige Book. Muito dinheiro chegou às mãos das 3,3 mil companhias que sua empresa acompanha, mas o desempenho delas não melhorou muito.

"O fato de que não estejamos vendo grande efeito é preocupante", disse Miller. E além disso, ele acrescentou, muitas dessas empresas continuam afogadas em dívidas.

A despeito dos sinais de alerta econômicos, alguns observadores da situação chinesa apontaram para os números recentes do varejo e da produção industrial como potenciais fatores positivos. A produção industrial cresceu em 6,2% em termos de valor adicionado, em comparação com o período em 2018, de acordo com estatísticas do governo, o que indica que a produção industrial se recuperou no final do ano.

Isso é parte de uma tendência regional, já que exportadores asiáticos reduziram sua produção no começo quanto a acumular estoques de produtos não vendidos. Muitas dessas empresas haviam esgotado seus estoques, pelo final do ano, e tiveram de acelerar a produção a fim de atender a novos pedidos. Na Coreia do Sul, as empresas de eletrônicos foram especialmente afetadas, e os dados refletem salto semelhante, lá.

Alguns economistas disseram que os números positivos do varejo foram beneficiados por desempenho mais forte que o normal no Dia dos Solteiros, o dia mais forte do ano para o comércio chinês, em 11 de novembro.

"Eu não extrapolaria uma recuperação com base nos dados sobre o quarto trimestre", disse Larry Hu, economista chefe do banco de investimento Macquarie Group.
"Esse crescimento não é sustentável", ele acrescentou.

Tradução de Paulo Migliacci

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