Premium Previsões para 2019 continuam positivas

Depois do início da guerra comercial sino-americana no ano passado, os líderes dos dois países chegaram pela primeira vez no passado mês de dezembro a um acordo de "cessar-fogo" de 90 dias. Porém, devido aos conflitos ainda existentes a nível político e comercial, a região de Macau, altamente dependente do consumo do Continente, poderá sofrer repercussões económicas. Mesmo assim, comerciantes e peritos locais mantêm-se otimistas em relação ao futuro económico de Macau.

Para o banco ICBC Macau, o atual conflito comercial entre a China e os Estados Unidos afetou a capacidade de aceitação de risco dos investidores, colocando pressão sobre a taxa de conversão da moeda chinesa e sobre o preço de ativos a nível mundial. No caso específico de Macau, até ao momento, esta guerra tem efetivamente tido algum impacto, embora limitado, nas quantias geradas a partir do jogo, consumo turístico e investimento. No entanto, se a situação se agravar as repercussões poderão certamente aumentar.

"Na eventualidade da situação de guerra se intensificar, a procura de empréstimos e investimentos, assim como outros negócios relacionados com os bancos de Macau, poderá ser afetada negativamente", disse ao PLATAFORMA um fonte do ICBC. Atualmente, de acordo com a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) o setor de empréstimos e adiantamentos a não-residentes aumentou em 14,7 por cento entre dezembro de 2017 e outubro de 2018, considerado um crescimento saudável.

Avaliando as tendências da economia de Macau, ao longo de 2018, houve um aumento em relação ao ano anterior. Registou-se apenas um desaceleramento no terceiro trimestre do ano, com a Direção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) a assinalar descidas em investimentos na área de construção e serviços de exportação. Para Paul Tse, presidente da Câmara de Comércio Americana de Macau, estes factos refletem o impacto inegável que a guerra comercial sino-americana está a ter em Macau.

"Durante o ano de 2019 deveremos ter em conta alguns fatores. Em primeiro lugar está a atual guerra comercial. Em segundo, o ajustamento da economia chinesa. O Governo central já o fez de várias formas, atenuando restrições financeiras e oferecendo alguns benefícios fiscais e capital necessário a pequenas e médias empresas privadas e estatais, aumentando infraestruturas para estimular e estabilizar a economia chinesa", comentou Paul Tse. O Banco Popular da China no passado dia 2 de janeiro publicou um guia para instituições financeiras sobre as necessidades de crédito de pequenas e microempresas. O Governo decidiu também, a partir deste ano, reduzir os limites de crédito para estas empresas, que passam agora a ter um teto de 10 milhões de RMB.

Economia estável em Macau

Embora não seja provável que a guerra comercial sino-americana seja totalmente resolvida em 2019, e embora o impacto da mesma em Macau seja ainda incerto, Paul Tse disse acreditar que não existe ainda razão para preocupação relativamente à economia de Macau durante o novo ano.

E acrescentou: "Recentemente aconteceram duas grandes mudanças - a estabilização da inflação e das taxas de juro. Mesmo que durante o corrente ano a Reserva Federal dos Estados Unidos volte a subir a taxa de juro, este aumento não será tão elevado como o que toda a gente previu em meados de 2018". Segundo Tse e Samuel Tong, presidente da direção da Associação de Estudo de Economia Política de Macau, a baixa taxa de desemprego e grandes reservas fiscais de Macau também contribuíram para esta estrutura económica estável.

"O setor de serviços é a indústria mais importante de Macau, onde se inclui o jogo, que tem como principal mercado alvo a China continental e Hong Kong. Desta forma, se a situação no Continente não sofrer grandes mudanças, podemos fazer previsões positivas para a indústria do jogo em Macau. O crescimento não será tão elevado como em 2018, mas não será uma descida grave", admitiu Samuel Tong ao PLATAFORMA.

"Macau não está muito envolvido no comércio de bens e produção, área onde se foca a guerra comercial, por isso a região não será diretamente afetada. Porém, poderá existir um impacto indireto, dependente da forma como a economia de Hong Kong for afetada. Desta forma poderá haver uma influência negativa sobre o número de visitantes de Hong Kong, tal como sobre o consumo de visitantes do Continente em áreas como o jogo", acrescentou Samuel Tong.

Taxa de conversão do RMB

A fonte do ICBC Macau partilhou que a pausa americana no seu constante aumento de taxas de juro faz com que o RMB venha a estabilizar este ano. Esta situação irá servir de apoio para o crescente número de negócios na região geridos por chineses do Continente, beneficiando também o consumo turístico e investimento em Macau.

O Continente é uma grande e importante fonte de visitantes para Macau. Segundo dados publicados pela DSEC, entre janeiro e novembro de 2018 a região contou com mais de 32 milhões de visitantes, 70 por cento dos quais, oriundos da China Continental.

"Tendo em conta a tendência desta moeda, não vou partir do princípio que o RMB irá enfraquecer, mas sim que irá passar por alguns altos e baixos (...) e esta desvalorização não trará benefícios para a internacionalização ou investimento estrangeiro", previu Samuel Tong.

Ricardo Siu, professor de Economia empresarial na Universidade de Macau, defendeu que durante a guerra comercial, pelo menos no setor de turismo e indústrias, a Área da Grande Baía e a inauguração da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau poderão ajudar a reduzir o impacto de eventuais fatores externos. "Neste contexto atual de tensão económica entre a China e os EUA, a China está claramente a procurar diversificar as relações com outros países. Desta forma, Macau poderá tirar ainda melhor partido do papel de plataforma comercial entre a China e países de língua portuguesa", admitiu Ricardo Siu.

Paul Tse e a fonte do banco ICBC vêem também na Área da Grande Baía um possível caminho de desenvolvimento económico para Macau. Como forma de dar resposta às atuais tensões comerciais entre os dois países, a mesma fonte do banco disse que irá continuar a desenvolver serviços em gestão de ativos, fintech (tecnologia financeira) e na Área da Grande Baía, diversificando as fontes de rendimento.

"A guerra comercial sino-americana terá um impacto a nível psicológico sobre todos nós, existindo ainda grande incerteza sobre a eventual instabilidade do mercado da bolsa. No entanto, ao mesmo tempo poderão ser oficialmente anunciadas no primeiro trimestre de 2019 as políticas para a Área da Grande Baía, que a longo prazo terão um impacto positivo sobre Macau", concluiu Paul Tse.

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