Paz ou apenas armistício no duelo comercial entre a China e os EUA?

As delegações americana, à esquerda na foto, e chinesa numa sessão das negociações em Washington, a 21 de fevereiro

Negociadores americanos e chineses têm-se atarefado para chegar a um acordo que ponha fim a um conflito de oito meses entre as duas maiores economias mundiais. O consenso parece possível mas a paz pode não ser de longa duração.

A China e os Estados Unidos estão envolvidos num conflito de oito meses em que têm aplicado mutuamente taxas às importações da outra parte numa tentativa de obter concessões do adversário. Após a escalada iniciada em julho de 2018, o anúncio de Donald Trump no início da semana que seria possível um acordo com a China foi recebido como uma boa notícia pelos mercados - mas a suspensão das hostilidades não equivale, automaticamente, à assinatura de um "tratado de paz".

O que está em jogo para a China e para os EUA é demasiado importante para que seja um dado adquirido um acordo e a realização de uma cimeira entre os presidentes americano e chinês, como Trump sugeriu na passada segunda-feira.

O conflito foi desencadeado pelos EUA, primeira economia mundial, para pôr fim ao que classificam como práticas comerciais desonestas de Pequim, reduzir um défice comercial de mais de 400 mil milhões de dólares e travar transferências forçadas de tecnologia, condição de que a China, segunda economia mundial, faz depender a realização de investimentos americanos no país, entre outras questões.

Se Pequim tem, aparentemente, mostrado alguma flexibilidade e as palavras do presidente americano refletem algum otimismo, muito mais circunspecto se tem mostrado o principal negociador de Washington, o representante para o comércio internacional, Robert Lighthizer. Numa intervenção perante a Câmara dos Representantes nesta quarta-feira, Lighthizer afirmou que o diferendo sino-americano não será resolvido "com a promessa de compras adicionais" de soja e outros produtos agro-alimentares pela China.

O que está em causa é "demasiado sério" para meias medidas; é indispensável "novas regras" nas relações bilaterais e a China "representa o maior desafio" alguma vez colocado à estratégia comercial americana, enfatizou Lighthizer que falava numa audição sobre o curso das negociações bilaterais.

As declarações de Lighthizer reflectem a dimensão do diferendo e introduzem uma nota de realismo no comentário de Trump no Twitter sobre o curso das negociações: "[houve] importantes avanços em questões estruturais, entre elas a proteção da propriedade intelectual, transferências de tecnologia, serviços, agricultura e no valor da moeda" chinesa, o yuan, que Pequim desvaloriza de forma artificial para ganhar vantagens comerciais, na perspectiva dos EUA.

Cimeira em Mar-a-Lago

A agência oficial Nova China divulgou um texto, pouco depois do comentário de Trump no Twitter, a mencionar as áreas destacadas pelo presidente americano mas sem referir a realização de uma cimeira, facto apenas admitido pelo principal negociador chinês, Liu He, no regresso a Pequim. "O presidente Xi tornou claro (...) que deseja vivamente encontrar-se de novo" com o seu homólogo americano.

Se esse encontro se realizar será na residência de férias de Trump em Mar-a-Lago, na Florida, onde já recebeu em 2017 Xi e sua mulher Peng Liyuan.

Pequim e Washington sabem que o conflito não se pode prolongar indefinidamente e a suspensão de hostilidades é o reconhecimento dessa realidade. Uma realidade em que a desaceleração da economia chinesa, por um lado, e os efeitos colaterais da aplicação das taxas para as empresas e consumidores nos EUA, por outro lado, não deixam de pesar nos cálculos negociais das duas partes.

Sinal de que os mercados reconhecem esses fatores, o índice da Bolsa de Xangai subiu 5,6% na segunda-feira, a maior subida desde o início do conflito em julho de 2018. Outro tanto sucedeu em Wall Street, com os dois principais índices, o Dow e o S&P500, a conhecerem uma valorização, ainda que neste caso também em resultado dos desenvolvimentos relacionados com o brexit.

A reação dos mercados não altera, todavia, as diferentes perceções de Pequim e Washington, que uma cimeira Trump-Xi pode não ser suficiente para alterar. Fontes ligadas ao lado americano, citadas nesta quarta-feira pelo South China Morning Post, explicavam que persistem importantes divergências em questões como os mecanismos de verificação do que for acordado nos diferentes capítulos, assim como persistem divergências no tema das transferências de tecnologias, na abertura do mercado chinês de serviços financeiros a empresas americanas e nas condições exigidas por Pequim para as empresas americanas estarem presentes no país. O que só é possível atualmente através de joint ventures.

Todos os problemas entre os EUA e a China não vão ficar resolvidos

Para o negociador americano, "todos os problemas entre os EUA e a China não vão ficar resolvidos" nestas negociações, disse Lighthizer na referida audição, insistindo na importância de existirem forma dos EUA atuarem unilateralmente se Pequim não cumprir o que ficar acordado.

Campainhas de alarme

Sintoma de desenvolvimentos futuros, assim como os mercados reagiram positivamente ao comentário de Trump no Twitter, também reagiram de forma sombria às declarações de Lighthizer, com os principais índices de Wall Street a fecharem em baixa nesta quarta-feira.
"Quando surgem notícias como esta, de que há ainda muito caminho por fazer, soam as campainhas de alarme e até os otimistas passam à defensiva", dizia à Reuters Ryan Nauman, analista de mercados, numa síntese do espírito do dia.

A China e os EUA (ou Trump, mais especificamente) podem estar interessados em pôr fim ao atual conflito e mostrarem convergências de posições em novo encontro em Mar-a-Lago. Segundo a Reuters, estão a ser elaborados seis memorandos de entendimentos nas seguintes áreas: transferências de tecnologia, pirataria informática, propriedade intelectual, indústria agroalimentar, serviços financeiros e valor da divisa chinesa.

Mas nem a China nem os EUA estão dispostos a abdicar da última palavra na definição dos critérios a cumprir. Os EUA insistem na necessidade do texto final conter referência a um mecanismo de fiscalização das medidas acordadas, com um calendário fixo de reuniões, defende Lighthizer; a China recusa qualquer modelo de controlo unilateral e modelo fixo de controlo - o acordo assinado em Mar-a-Lago, a suceder, pode não passar de um armistício antes da próxima ronda de hostilidades.

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