Premium O que é a Huawei e por que foi presa a sua principal executiva?

A prisão no Canadá de Meng Wanzhou, principal executiva da Huawei Technologies Co Ltd e filha do fundador e presidente desta empresa de telecomunicações chinesa, abalou os mercados nesta quinta-feira e aumentou o receio de que a trégua na guerra comercial EUA-China esteja em risco.

A detenção de Meng sucedeu a pedido de autoridades americanas em relação com possíveis violações de sanções comerciais dos EUA, segundo uma fonte ligada à investigação citada pela Reuters. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirma que nem os Estados Unidos nem o Canadá explicaram as razões da prisão.

O que é a Huawei?

A Huawei é o maior fornecedor mundial de equipamentos de telecomunicações e o segundo maior fabricante de smartphones, com um volume de negócios de 92 mil milhões de dólares em 2017. Ao contrário de outras importantes empresas chinesas de tecnologia, a Huawei está presente principalmente nos mercados externos e é líder de mercado em muitos países da Europa, Ásia e África.

A empresa foi fundada em 1987 por Ren Zhengfei, ex-major do Exército Popular de Libertação. A Huawei permanece de capital fechado detido pelos seus funcionários. De facto, a sua estrutura acionista é desconhecida.

A Huawei tem sede na cidade de Shenzhen, o grande centro tecnológico do sul da China. Emprega cerca, em Shenzhen, e emprega cerca de 180 mil pessoas.

A que se deve o sucesso da Huawei?

A empresa foi pioneira na venda de equipamentos de telecomunicações num momento em que a China atualizava suas redes, importando ainda grande parte destes equipamentos.

A Huawei começou a estar presente nos mercados internacionais nos anos 90 e tornou-se conhecida por comercializar produtos a preços abaixo dos praticados pela concorrência. Inicialmente, as outras empresas acusaram a Huawei de copiar os seus equipamentos e entidades como a Cisco Systems e a Motorola e processaram aquela por roubo de propriedade tecnológica e comercial. Posteriormente, a Huawei começou a investir fortemente na investigação e desenvolvimento tecnológico e hoje é considerada um dos líderes globais em tecnologias de telecomunicações e smartphones de última geração.

A empresa chinesa está hoje a expandir-se para novas áreas, como a indústria de chips, inteligência artificial e cloud computing.

Sede da Huawei em Shenzhen

Por que alguns governos baniram os equipamentos da Huawei?

Os serviços de informações dos EUA alegam que a Huawei está dependente do governo de Pequim e que os seus equipamentos contêm "alçapões" pelos quais seria possível piratas informáticos chineses recolherem informações dos utilizadores. Até agora não foi divulgada nenhuma evidência destas acusações e a empresa sempre as negou. Contudo, as suspeitas persistem.

O governo dos EUA tomou uma série de medidas para impedir a atuação da Huawei no mercado interno

A preocupação maior relaciona-se com as redes móveis de quinta geração (5G), onde a Huawei está na vanguarda do seu desenvolvimento. O facto de ter sido aprovada recentemente na China uma lei que obriga as empresas deste país a prestarem apoio ao governo, caso isto lhes seja solicitado, veio aumentar as preocupações com as questões de segurança.

O governo dos EUA tomou uma série de medidas para impedir a atuação da Huawei no mercado interno como proibir aquisições por organismos oficiais de equipamentos da empresa chinesa e a não concessão de apoios financeiros, fiscais ou outros a operadoras que comercializam equipamentos daquela. Os principais operadoras no mercado americano, como a Verizon Communications e a AT & T, desistiram de acordos para distribuir os smartphones Huawei no início de 2018.

Por agora, a maioria dos países não tomou qualquer ação contra a Huawei, argumentando possuírem tecnologia suficiente para testar a segurança dos equipamentos. No entanto, a Austrália e a Nova Zelândia proibiram recentemente a Huawei de construir redes 5G e há indícios de que países como a Alemanha estão a reavaliar a questão.

Meng Wanzhou é saudada pelo presidente Vladimir Putin num fórum sobre investimento na Rússia em Moscovo, em outubro de 2014

A detenção de Meng Wanzhou está relacionada com as questões de segurança?

As autoridades dos EUA não divulgaram as razões para a prisão de Meng, mas fonte conhecedora da questão informou a Reuters de estar em causa a violações das sanções comerciais decretadas por Washington. Há cerca de seis anos, esta agência divulgou uma investigação sobre as relações de Meng Wanzhou e da Huawei com uma empresa chamada Skycom, que tentou vender equipamentos informáticos da Hewlett-Packard a uma operadora de telemóveis no Irão, em violação das sanções então em vigor a este país.

A Huawei é a única empresa chinesa acusada de violar as sanções ao Irão?

Uma outra empresa de menor dimensão, a ZTE, admitiu em 2017 ter procurado contornar o embargo dos EUA, vendendo equipamentos ao Irão. No início de 2018, o Departamento de Comércio dos EUA considerou que a ZTE violou as sanções e interditou a aquisição de componentes americanos, o que comprometeu muitas das operações da ZTE.

Posteriormente, um acordo foi alcançado entre a empresa chinesa e as autoridades americanas, com aquela proibição a ser suspensa a pedido do presidente Donald Trump, uma concessão presidente chinês Xi Jinping, que surpreendeu e enfureceu várias personalidades no governo em Washington.

Não há nada a sugerir estar-se perante uma provocação deliberada dos EUA

Estas questões estão relacionadas com a guerra comercial EUA-China?

A investigação à violação das sanções é anterior ao conflito comercial. Mas o momento da detenção acaba por aproximar os dois temas ao suceder quase em simultâneo com o acordo temporário estabelecido por Donald Trump e Xi Jinping no conflito aduaneiro. Os mercados financeiros reagiram negativamente à notícia da prisão, por temerem que o facto ponha em causa a trégua EUA-China. Todavia, não há nada a sugerir estar-se perante uma provocação deliberada dos EUA e não apenas uma inesperada coincidência.

Anúncio ao mais recente modelo da Huawei, o Mate 20, diante de uma loja da Apple em Xangai

O que vai suceder à Huawei?

A proibição de aquisição de componentes dos EUA, como sucedeu temporariamente com a ZTE, teria efeitos catastróficos para a Huawei. No imediato, essa interdição não é previsível. No entanto, se a situação evoluir de forma que leve os principais países europeus a terem de atuar contra a empresa chinesa, isto não deixará de ter repercussões no seu crescimento e influência.

Ainda assim, o estatuto da Huawei como líder das indústrias de tecnologia de ponta na China, numa época em que o país procura alcançar os EUA em áreas como o desenvolvimento de chips, significa que continuará a deter a posição central que hoje ocupa.

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