Premium Mercado de dívida mais internacional

Portugal e Paquistão avançam em 2019 para a emissão de "panda bonds". BNP Paribas tem autorização para investir no mercado.

O mercado de ações chinês foi o pior a nível mundial no último ano, com os principais títulos da bolsa de Xangai a perderem em conjunto mais de 25% da capitalização. Mas, para quem investiu em obrigações as notícias não foram, nalguns casos, melhores.

Em 2018, o número de empresas incapazes de pagar o dinheiro pedido emprestado a investidores triplicou. Falharam 119 obrigações com os valores em incumprimento a superarem os 116 mil milhões de yuans, de acordo com dados da agência de informação financeira chinesa Wind Information, citados no início deste ano pela imprensa internacional.

Com a economia a abrandar, a guerra comercial com os EUA a pesar nas expetativas, e falta de liquidez para refinanciamento no setor privado, o imobiliário e o setor industrial lideraram os incumprimentos, mas destacaram-se as situações de grandes conglomerados com ação internacional. O grupo HNA, investido em Portugal nos capitais da transportadora TAP, viu-se incapaz de pagar 300 milhões de yuans a um veículo de investimento da província de Hunan. Também o grupo CEFC Energy, à procura de entrar em Portugal através dos ativos petrolíferos da Fundação Calouste Gulbenkian, falhou o pagamento de obrigações no valor de dois mil milhões de yuans.

Em 2019, a situação pode ainda piorar. A agência de rating Fitch previu em outubro uma aceleração do ritmo de incumprimento de obrigações por parte das empresas privadas chinesas. O novo ano, porém, vai ser marcado pela entrada de novos atores. Espera-se uma maior abertura do mercado chinês de dívida, com novas regras para enquadrar emissões de instituições e países estrangeiros e com a promessa de aumentar licenças de entrada para investidores internacionais.

O mercado de dívida chinês é o terceiro maior do mundo, atrás dos de Estados Unidos e Japão, com um total de emissões no valor de 11,9 biliões até junho de 2018, segundo dados da KPMG. No entanto, é um mercado altamente fechado, que só recentemente começou a abrir a porta ao exterior.

A emissão de chamadas "panda bonds", dívida em renmbinbi emitida na China e sobretudo relevante para empresas internacionais com atividade no país, começou a ganhar fôlego em 2015, ao mesmo tempo que as autoridades relaxavam as vias para que os investidores internacionais pudessem entrar também nos mercados de ações e dívida. Por exemplo, com a "bond connect" de Hong Kong, desde 2017, e com sucessivas revisões ao estatuto de investidor qualificado.

À conquista de "uma grande reserva de poupanças"

O quadro das relações internacionais tem entretanto ditado algumas emissões soberanas. O Paquistão, em apuros financeiros e envolvido na iniciativa Faixa e Rota com o projeto do porto de Gwadar, anunciou no final do ano a intenção de colocar dívida na China, ao mesmo tempo que procura ajuda do país. E Portugal, que em dezembro recebeu a visita do Presidente Xi Jinping, reafirmou a intenção de ir buscar financiamento público com obrigações colocadas no mercado chinês.

Portugal será o primeiro país da zona euro a emitir "panda bonds", depois de ter obtido a aprovação do Banco Popular da China - que controla as emissões no mercado interbancário de dívida e que em setembro passado promoveu novas regras para estas obrigações como forma de atrair maior liquidez para a moeda e economia chinesas. A emissão portuguesa, justificada pelo Governo com a necessidade de diversificar a base de investidores na dívida pública do país, está a ser assessorada pelo Banco da China e pela Caixa Geral de Depósitos.

Também em dezembro, foi a vez do BNP Paribas receber licença dos reguladores, mas para investir. O banco francês vai poder subscrever dívida de empresas estrangeiras denominada em renminbi e emitida na China. É o terceiro banco internacional a ter esta autorização, depois do HSBC e do Standard Chartered.

Já em abril próximo, as obrigações emitidas pelo Governo chinês e por instituições como o Banco de Desenvolvimento da China vão passar a estar incluídas no Índice Global Agregado Bloomberg-Barclays, num desenvolvimento que reflete o maior acesso das instituições internacionais ao mercado doméstico chinês. Segundo a Bloomberg, entidades estrangeiras detinham 155 mil milhões de dólares em dívida pública chinesa até outubro passado.

Para os economistas do Fundo Monetário Internacional, a liberalização do mercado de capitais da China, e do mercado de dívida em particular, surge como apresentando vantagens para todos - ainda que possa expor mais o país aos ciclos financeiros globais, dos quais tem permanecido relativamente escudado.

Para a China, "o influxo de capital estrangeiro ajudaria a diversificar o financiamento e melhoraria a liquidez, maturidades e a transparência dos mercados locais de obrigações", escreveram em dezembro Maurice Obstfled e Eugenio Cerutti.

Já para o resto do mundo, o mercado chinês oferece "uma grande reserva de poupanças" por conquistar, segundo os mesmos economistas. Mesmo que a preços mais altos: os juros de um mercado de investidores ainda concentrado nos bancos comerciais chineses oscilam em média entre os 3% e os 4,9%, segundo os dados da KPMG.

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