"Guerra comercial vai transmutar-se em guerra tecnológica"

A disputa comercial sino-americana paira sobre este início de 2019. Para David Zweig, professor na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, a "guerra" tecnológica deverá acentuar-se. Para Zweig, canadiano a viver em Hong Kong há mais de duas décadas e com ligações a universidades na China, a prisão de canadianos no continente na sequência do caso Huawei gera uma grande preocupação. O especialista em relações internacionais mostra céptico face à evolução das relações sino-americanas dado o clima de elevada desconfiança mútua.

- Estamos em plena trégua na chamada guerra comercial entre a China e os estados Unidos. Será expectável que a situação piore antes de melhorar?

David Zweig - Julgo que no curto prazo não deverá piorar, mas considero que no médio prazo vai deteriorar-se.

- Porquê?

Porque penso que no médio prazo a guerra tecnológica tornar-se-á num assunto mais determinante. Estamos a começar a ver a guerra comercial a transmutar-se em guerra tecnológica, que será um problema mais de longo prazo, ao passo que que guerra comercial, havendo vontade para isso, é solucionável. A China pode importar mais produtos e abrir o seu mercado a mais investimento estrangeiro e mais joint-ventures e pode colocar pressão aos governos locais para deixarem de forçar transferência de tecnologia para joint ventures. Isso não é assim tão difícil. O mesmo não é possível no que diz respeito à guerra tecnológica.

- Xi Jinping tem falado cada vez mais em auto-suficiência, mas há um nível extraordinário de interdependência económica com o exterior. Será essa uma via possível?

D.Z - Demorará tempo. Gigantes das telecomunicações como a ZTE e Huawei estão dependentes do exterior. A ZTE por exemplo teria ido à falência se a proibição temporária de venda de tecnologia imposta por Washington não tivesse sido levantada.

Trump acabou por intervir de forma a evitar esse estrangulamento. Mas Trump parece ter esse problema sempre: falha na implementação consistente de decisões cruciais.

- Quão diferente é o caso Huawei do que assistimos até aqui?

D.Z - Meng Wanzhou violou a lei, se o que a autoridades americanas dizem é verdade. Ela terá mentido num depoimento ao HSBC, quando afirmou que a Huawei não detinha uma empresa que estava a vender equipamento norte-americano ao Irão.

Nesse sentido ela pode ser considerada culpada por fraude bancária. E o facto de ter, ao que tudo indica, mentido, torna este caso diferente.

- E o Canadá entra neste filme dos acontecimentos.

D.Z - Foi-lhes feito o pedido e as autoridades avançaram com a detenção. Ela provavelmente devia ter evitado ir a Vancouver. Ninguém lhe terá dito: mas que coisa mais estúpida essa de ir ao Canadá, depois de, em Agosto, ela ter sido acusada em tribunal, tendo em conta que os Estados Unidos e o Canadá têm um acordo de extradição.

- Após a onda de detenções de canadianos na China continental, como canadiano a viver em Hong Kong, como está a viver este momento?

D.Z - Não irei à China continental nestes dias. Um amigo, também canadiano e ex-diplomata, perguntou a alguém no Ministério dos Negócios Estrangeiros se havia garantias que, visitando o continente, nada lhe aconteceria. E a resposta foi: "não há garantias".

- Como encara a detenção do analista e ex-diplomata canadiano Michael Kovrig?

D.Z - Para nós, "China Watchers", que vamos à China regulamente, falamos com os chineses para perceber melhor a situação em termos das políticas públicas, pontos de vista. É muito importante podermos falar com colegas chineses para percebermos a sua perspectiva. Era isso que Michael Kovrig fazia. É algo de terrível.

- Porque é que acha que as autoridades chinesas fizeram isto, ir a este ponto?

D.Z - O professor de direito norte-americano Donald Clarke refletiu sobre isso num artigo no Washington Post. A China podia ter adoptado sanções, algum tipo de boicote económico, mas prender pessoas assim é inaceitável, criando um precedente terrível que prejudica relações pessoais. Costumo dizer, meio a brincar, que as autoridades chinesas magoaram os sentimentos de 35 milhões de canadianos. Estes canadianos estão na prisão, sem qualquer acusação sólida e são reféns. As próprias autoridades chinesas de certo modo admitem que eles são reféns.

- Esta abordagem surge em contradição face a todo um discurso da China de "bom cidadão" da globalização e das instituições multilaterais.

D.Z - Sabe, assim que alguém insulta a China, há um reação imediata forte. Há uma natureza dual das autoridades: por um lado uma auto-confiança excessiva, por outro uma grande insegurança a vitimização. Este caso é um exemplo da mentalidade de vitimização, de percepção que a China não é respeitada. De uma certa forma a China está a comportar-se como os Estados Unidos.

- Como é que ficam, no meio disto tudo, as relações China-Canadá?

D.Z - As relações económicas, culturais, educacionais e pessoas são muito profundas. Os imigrantes chineses são bem recebidos no Canadá. As relações políticas também têm sido positivas. Mas é verdade que a diplomacia canadiana tem estado ativa em certas matérias como, por exemplo, o caso do tratamento dos Uigures pelas autoridades chinesas.

-Quanto às relações China-Estados Unidos, num artigo publicado recentemente, fala de "disengagement" após quatro décadas de aproximação basicamente a todos os níveis.

D.Z - Sim, estamos perante um cenário bastante possível de um ciclo de tarifas, disputas tecnológicas, fim de programas de intercâmbio académico. E os "Five Eyes", os serviços de informações dos EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, estão a trabalhar em conjunto face à China. Há um nível incrível de desconfiança mútua.

- Temos a guerra comercial, guerra tecnológica, mas não se fala ainda de um conflito armado real. Quão longe estamos desse cenário?

D.Z - Um dos problemas deste processo de afastamento é que as forças armadas dos dois lados não estão dialogar. E isso é bastante preocupante. Penso que os EUA ainda têm um claro domínio militar no Mar do Sul da China, pelo que a China não irá provocar um confronto. Os EUA têm dois porta-aviões no Mar do Sul da China.

Considero que foi um erro a China ocupar as ilhas no Mar do Sul da China, embora alguns especialistas tenham salientado que os chineses esperaram bastante tempo até darem esse passo, uma vez que os vietnamitas já o tinham feito.

- Ao longo destes 40 anos do processo de reformas e abertura, a política externa chinesa foi marcada pelo desenvolvimento pacífico, mas nesta última década Pequim tornou-se bem mais assertiva. Porquê?

D.Z - Uma das explicações é que a China convenceu-se em 2008/2009, na altura da crise financeira, que o Ocidente estava em declínio que por isso estava na hora de avançar. As elites e conselheiros ao nível da política externa e do sector militar entenderam que estava de hora de abandonar o princípio de Deng Xiaoping de perfil mais baixo nas relações internacionais e esconder o poderio do país.

A China entendeu que ultrapassou bem a crise, embora a forma como o fez criou uma crise da dívida que está a bater à porta.

- E agora temos a Iniciativa Faixa e Rota como eixo da política externa e de investimentos. Temos assistido a uma crescente oposição sobretudo no Ocidente. Terá sucesso este plano?

D.Z - Acho que a iniciativa Faixa e Rota vai ser um sucesso. Havendo fracassos e erros, se se avançar com 100 projetos e 20 falharem é um sucesso. É o que penso que vai acontecer. Ouvimos falar nos media dos problemas e não tanto das histórias de sucesso. Por exemplo no Cazaquistão as linhas de caminhos de ferro construídas por empresas chinesas para a Europa estão a ter um grande sucesso. E com o avançar do tempo a China vai aprender a gerir melhor os problemas.

- O plano para a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau está prestes a ser anunciado. Como é que este processo de integração é visto a partir de Hong Kong?

D.Z - Há diferentes perspectivas. Os empresários vêem isto como uma oportunidade, dependendo de que setor estamos a falar. O imobiliário vai adorar isto - mais população, cidades a serem construídas. São grandes oportunidades. É bom para as universidades de Hong Kong porque Guangdong tem poucas universidades de topo.

- Já uma parte da juventude encara isto de forma diferente.

D.Z - Sim. Num debate recente com jovens sobre a Grande Baía, perguntei se iriam viver e trabalhar do outro lado, tendo a possibilidade de ter uma vencimento mais elevado e mais oportunidades. A resposta de um deles foi: "Trocaria 30 por cento do meu salário para poder ter acesso ao Facebook" .

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