Impacto da epidemia na Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau

Impacto da epidemia na Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau

Na primavera de 2020 não se sente a azáfama de anos anteriores. Após a confirmação de um surto de um novo coronavírus em Wuhan, capital de Hubei, a cidade foi fechada no dia 23 de janeiro. Desde então que por toda a China, ruas, mercados, restaurantes, comboios, lo- cais tradicionalmente apinhados de pessoas apresentam-se agora praticamente vazios. Como se toda a vida e a economia chine- sas tivessem sido postas em modo pausa. Numa área de 9,6 milhões de quilómetros existe, basicamente apenas e só um tema: como prevenir e combater o coronavírus.

Guangdong e Hubei, ambas grandes pro- víncias no centro e Sul da China, estão ligadas por uma linha de alta velocidade que vai de Wuhan a Cantão. Segundo o "Relatório do Desenvolvimento de Fluxo de População em 2018", entre o número de pessoas que passam pelo Delta do Rio das Pérolas, cerca de 1,8 milhões são de Hubei. Um número razoável de licenciados das universidades de Hubei também se desloca para Guangdong para trabalhar. Por isso, os esforços para a prevenção de uma potencial epidemia em Guangdong foram bastante rígidos após a descoberta do vírus em Wuhan, o qual se espalhou por outras partes da China durante o pico de viagens que normalmente acontecem no Ano Novo Chinês.

Até 6 de fevereiro, um total de 944 casos foram diagnosticados em Guangdong, a segunda província com maior número de infetados, depois de Zhejiang (954), excluindo Hubei (19.665). A estes 944 juntam-se 21 casos em Hong Kong e 10 em Macau. Entre estes, cerca de 800 foram diagnosticados em 11 cidades da Área da Grande Baía, representando 88 por cento do total da região. As cidades de Shenzhen e Cantão têm, cada uma, mais de 300 e 200 casos, respetivamente, ficando atrás de Wenzhou na província de Zhejiang, mas com um número superior a Pequim e Xangai. A 4 de fevereiro foi registada a primeira morte na província de Guangdong, precisamente em Hong Kong.

Como medida de controlo e prevenção, a província de Guangdong organizou uma resposta de nível 1 ao alerta de emergência de saúde mundial no dia 23 de janeiro, quando a cidade de Wuhan foi fechada. Apesar de uma resposta rápida, o impacto económico do surto foi sentido, sobretudo devido ao rápido desenvolvimento e por ter coincidido com o Ano Novo Chinês.

As indústrias mais afetadas foram as de transportes, restauração, turismo e cinema.

Nos transportes, como medida de pre- venção, vários Governos locais na China anunciaram o fecho de diversas cidades e rodovias, assim como a suspensão de redes de autocarro, metro e comboio. Estas suspensões, em conjunto com o reduzido número de turistas, levou a uma quebra de 70 por cento no número de viagens da gigantesca rede de transportes chi- nesa. De acordo com o relatório online do Diário do Povo, a rede ferroviária de Cantão parou de operar diariamente 44 linhas. Entre 25 de janeiro e 2 de feve- reiro transportou apenas 4,3 milhões de passageiros, ou seja, uma descida de 69,7 por cento em relação ao ano anterior. O número de passageiros que o aeropor- to de Baiyun recebeu caiu para metade, quando se compara o período homólogo. No primeiro dia fevereiro, por exemplo, partiram 63 mil passageiros da estação ferroviária de Cantão Sul, menos 194 mil do que na mesma data de 2019, ou seja, menos 75,4 por cento. Comparando com o pico de 800 mil passageiros na véspera do Ano Novo de 2019, este ano não se atingiu nem um quarto desses números.

O comércio foi fortemente afetado, es- sencialmente lojas, restaurantes e entre- tenimento. Como medida de prevenção, todas as províncias e cidades, incluindo Guangdong, cancelaram grandes even- tos para evitar a concentração de grande número de pessoas. Restaurantes, cafés, bares, cinemas, teatros, museus, locais turísticos e religiosos foram também encerrados. A suspensão de serviços de transportes públicos em algumas cidades implicou, nalguns caos, o encerramento total do mercado de consumo do Ano Novo Chinês. Com outras medidas de prevenção, designadamente apelos das autoridades dirigidos às populações de outras cidades para não saírem de casa, houve fraco consumo no setor de retalho, com a exceção de supermercados e far- mácias. Em comparação com o volume de vendas na semana de Ano Novo de 2019, que atingiu mil milhões de yuan, este ano verificou-se apenas prejuízo.

Em termos turísticos, a Área da Grande Baía é não só um dos principais destinos para estrangeiros, como também o local de origem de turistas nacionais, e por isso o setor foi gravemente afetado. Com o encerramento de locais turísticos e o cance- lamento de eventos, muitos visitantes que tinham planeado viajar durante este perío- do cancelaram as deslocações, resultando numa onda de reembolsos. De acordo com dados destes cancelamentos lançados pelo Ctrip no final de janeiro, até dia 30 desse mês a empresa tinha recebido mais de um milhão de pedidos de cancelamento, um valor cerca de 10 vezes superior ao normal. A 28 de janeiro, a Administração Nacional de Imigração anunciou a suspensão de vistos para Hong Kong e Macau. Isto significou que visitas em grupo ou individualmente do Continente para as duas cidades ficaram suspensas, para já. Em comparação com o número total de turistas chineses durante o Ano Novo Chinês de 2019 - 415 milhões -, gerando uma receita turística de 513,9 mil milhões de RMB, estima-se que este ano aquele valor seja largamente reduzido. Visto que o surto ainda está em expansão, o fim a crise é incerto e, embora várias agências tenham publicado relatórios de análise e pre- visões, ainda é cedo para avaliar com exatidão o impacto na sociedade e na economia.

A empresa Standard & Poor's disse acre- ditar que, "à medida que o surto se alastra, os consumidores irão reduzir o número de atividades no exterior e evitar espaços públicos de forma a reduzir a possibilidade de ficarem infetados".

"Este fator, em conjunto com as restrições das autoridades irá afetar gravemente as indústrias de alimentação, entretenimento e turismo. Se no ano de 2020 o total de gas- tos em serviços de consumo descer em 10 por cento, o PIB deverá contrair-se à volta de 1,2 por cento", admitiu, salientando, porém, que ainda é demasiado cedo para avaliar o potencial impacto da epidemia na economia chinesa para o resto do ano, mantendo a previsão de crescimento anual em 2020 nos 5,7 por cento.

A agência de rating Fitch considerou que os países da região asiática ainda possuem força, capital e espaço suficientes para aplicarem qualquer tipo de políticas que possam ajudar a aliviar os efeitos econó- micos que este surto poderá ter. Todavia, a resposta à crise continua a depender da dimensão do surto, reconheceu. Por isso a agência acrescentou que um crescimento na dimensão do problema poderá ter um impacto significativo nas avaliações de crédito. Neste caso, é esperado que em- presas de viagens e turismo sejam as mais afetadas, com áreas como companhias aéreas, entretenimento, alojamento, entre outras a estarem vulneráveis.

O instituto CDI, em Shenzhen, um think tank, publicou há poucos dias um relatório em que, com base numa aprendizagem após o surto de Síndrome Respiratório Agudo Severo (SARS, na sigla inglesa) em 2003, e alguns fatores atuais, o impacto futuro do coronavírus de Wuhan poderá ter as seguintes características:

1.o Impacto gravena economia chinesa

No documento o CDI salientou: "antes do surto, o FMI e a Academia de Ciências Sociais da China tinham previsto que no ano de 2020 a economia chinesa crescesse entre os 6,0 por cento e os 6,1 por cento. Alguns peritos preveem que o surto con- tinue a piorar no futuro próximo, e que o número de infetados e mortes atinja o pico entra a segunda e terceira semana de fevereiro, estando finalmente contro- lado no início de abril. Se isto de facto acontecer, o impacto no crescimento do PIB nacional em 2020 será de apenas 0,1 por cento. Alguns acreditam ainda que o impacto desta epidemia possa ser supe- rior ao do SARS, acrescentando que será difícil atingir o objetivo de crescimento económico anual de 6 por cento. O im- pacto a curto prazo na economia chinesa será enorme e alargado. E é provável que tenha uma grande influência na economia do país com base na tendência do ano passado e na reação de preocupação da comunidade internacional em relação ao vírus".

2.o A economia enfrentará um choque

O CDI indicou que em termos de econo- mia real, o primeiro impacto será quando alguns restaurantes, agências de viagem e entretenimento fecharem. A segunda onda será sentida com as férias estendi- das, com várias fábricas e empresas sem atividade, prevendo-se uma alta pressão
financeira.

"A terceira onda acontecerá após as pessoas voltarem ao trabalho no dia 16 deste mês. Este será o verdadeiro choque: se o surto não for resolvido, várias empresas estarão em dificuldades, tendo de pagar salários, rendas, interes- ses de crédito, entregas de produtos. As dificuldades em reiniciar atividade e o recrutamento de trabalhadores poderá levar a problemas na capacidade de pro- dução, atrasos de entregas e perda de clientes. Se a capacidade de produção não for restaurada rapidamente, estará a congelar o fluxo de capital e dívidas empresariais e, por consequência, afe- tando toda a economia."

3.o A situação comercial

O relatório lembrou que o Conselho de Desenvolvimento Comercial de Hong Kong estimou para 2019 um crescimento das exportações de Hong Kong de -4 pon- tos percentuais, e em 2020 de -2 pontos percentuais. Esta previsão tem em eração uma melhoria nas relações comerciais si- no-americanas, porém, a organização, no estudo descobriu que a diminuição da procura mundial é superior, fazendo com que "o protecionismo e o desacele- rar da economia mundial levem a uma tendência negativa (nas exportações de Hong Kong para 2020)". Cerca de dois terços do total de exportação de Hong Kong são produtos eletrónicos, que por sua vez são em grande parte produzidos em cidades do Continente localizadas na Área da Grande Baía. Assim sendo, o de-sacelerar no número de exportações de Hong Kong irá com toda a certeza afetar também estas cidades do Continente. A 31 de janeiro, a Organização Mundial de Saúde classificou este surto como "Emergência de Saúde Pública de Âm- bito Internacional" embora não tenha recomendado qualquer restrição sobre viagens ou comércio. Porém, se a situação do vírus não for controlada rapidamen- te, tais restrições irão emergir, tendo já vários países suspendido voos de ligação com a China. A Área da Grande Baía é um centro importante de comércio in- ternacional e numa altura de conflito sino-americano, o impacto na região não deve ser subestimado.

4.o Incerteza quanto ao controlo da epidemia

Existe alguma incerteza em relação às expectativas sobre se a epidemia con- seguirá ser controlada rapidamente e de forma efetiva. Esta dúvida tem um impacto social que, por sua vez, afeta as expetativas de investimento.

Para o CDI, devido às incertezas à volta do surto, o investimento em mercado continuará parado, afetando o cresci- mento económico. "Embora vários es- tudos comparem este caso ao de 2003, prevendo um impacto limitado, nesse ano a economia chinesa estava em ten- dência positiva, tendo desacelerado. A China está atualmente noutra fase de desenvolvimento, e por isso o impacto não será o mesmo."

"Resumindo, se o surto for efetivamente controlado durante o primeiro mês do calendário lunar, a produção industrial e vida urbana voltarão ao normal e a economia recuperará. Se não tivermos assistido a mudanças substanciais no surto dentro deste intervalo de tempo, o impacto na economia será alargado, e a Área da Grande Baía não será exceção", admitiu o instituto.

No final do relatório, o CDI deixou uma recomendação em forma de alerta: "será imperativo que a Área da Grande Baía tente controlar o surto, prestando atenção ao possível impacto do mesmo e prepa- rando planos de resposta."

Após a situação estar resolvida, o primeiro problema será o papel do Governo em reativar o mercado. Será necessário criar um ambiente comercial mais simples. Deve ainda ser seguido o desenvolvimento do processo tal como todos os problemas e exigências do mercado, através da aplica- ção de medidas relevantes atempadamente. O documento do CDI mencionou tam- bém que apoiar as medidas de controlo e prevenção em Hong Kong e Macau é altamente importante para a recuperação económica de toda a região. "Deverão ser feitos planos para apoiar Hong Kong e Macau com necessidades básicas, material e staff médicos e comunicar efetivamente todas as evoluções e medidas de combate ao surto. Após a situação estar estabiliza- da, serão implementadas medidas para restaurar a ordem em Hong Kong e Ma- cau, impulsionar novamente a economia e garantir uma recuperação económica e social o mais rápido possível", sugeriu o relatório.

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