Ásia e Pacífico definem "nova ordem económica" mundial

As taxas de crescimento das economias chinesa e dos Estados Unidos são decisivas para definir o caminho - e sucesso - da economia mundial na atual conjuntura, defendeu Paulo Portas, numa conferência esta sexta-feira em Lisboa. Ainda em termos de crescimento, África é o continente para o qual se deve olhar com particular atenção, disse o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

"Estamos a viver um mundo em que a imprevisibilidade pode prevalecer" e afirmar-se como o elemento determinante em 2020, considerou nesta sexta-feira Paulo Portas numa conferência realizada na Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP).

Dois factores centrais vão determinar o nível de imprevisibilidade e suas consequências para as decisões dos empresários, defendeu o vice-presidente da CCIP e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Passos Coelho. São eles, o de saber se a economia da "China cresce acima ou abaixo dos 6%" e se a "economia dos Estados Unidos cresce acima ou abaixo dos 2%".

A sucederem "grandes oscilações nestes números", isso não deixará de ter repercussões "significativas" na conjuntura mundial, acentuou o antigo ministro na sua intervenção. Pela simples razão de serem os EUA a primeira economia mundial seguindo-se-lhe a China, que ocupa cada vez mais um lugar central no comércio internacional.

A esta circunstância acresce um fator de ordem interna, sublinhou Portas. O valor de 6% é identificado pelo antigo líder do CDS-PP como o referencial "mínimo de crescimento para se manter a paz social na China". Sem esta as repercussões para fora podem revelar-se imprevisíveis e repercutir-se negativamente na conjuntura económica global.

Um novo centro: a Ásia

A China é hoje "a principal origem de bens de importação no mundo" - "há 20 anos" os EUA ocupavam esta posição, notou o vice-presidente da CCIP.

Esta troca testemunha "uma alteração fundamental" em curso nas relações internacionais em que o centro, tradicionalmente "eurocêntrico, ocidental e atlântico", se está a transferir "para a Ásia e Pacífico", definindo "uma nova ordem económica" na leitura de Portas. A Ásia "é hoje responsável por 45% do crescimento da economia real no mundo", disse o antigo presidente do CDS-PP, que subordinou a sua intervenção ao tema Geoestratégica do Mundo em 2020.

Mas nem tudo é imprevisibilidade e incerteza. Há também boas notícias. As previsões do Banco Mundial e do FMI para 2020 apontam para cenários melhores do que em 2019 mas "aquém de 2017/2018".

Deve prestar-se especial a África, continente para o qual está previsto para o ano em curso a assinatura de um acordo de comércio livre, com países a crescerem a níveis elevados, com Portas a dar como exemplo Moçambique, "que pode crescer mais de 5% em 2020". Além de Moçambique, entre "os campeões do crescimento económico estão os países com gás natural e petróleo", sendo referidos como exemplos, entre outros, a Costa do Marfim e o Ruanda. A Nigéria e a África do Sul

A incógnita pós-Brexit

A trégua na guerra comercial China-EUA e o fim da incógnita sobre o Brexit são desenvolvimentos positivos, afirmou o antigo líder do CDS-PP. A única incógnita é saber "como se vão desenvolver as relações comerciais" entre o Reino Unido e a Europa a 27.

Os termos do acordo de "primeira fase" entre Pequim e Washington parece refletir um recuo chinês, comprometendo-se este país a efetuar "200 mil milhões de dólares de compras nos EUA" em troca de "ficar fora da lista negra dos manipuladores de divisas".

"Boas notícias" do Brasil

Sinais igualmente positivos chegam da América do Sul, com Portas a destacar, entre outros, os casos do Chile, "a melhor economia" da região, que apresenta um PIB/per capita "quase europeu", e principalmente o Brasil, cuja economia "vai crescer mais ainda" do que em 2019, antecipando o antigo dirigente centrista que as "boas notícias" vão continuar a chegar deste último país.

Mas há também um lado negro nas economias sul-americanas, protagonizado pela Venezuela e pela Argentina. No primeiro país vive-se um verdadeiro pesadelo, com a uma queda de 35% do PIB e onde se estima que até oito milhões de pessoas podem deixar o país, salientou o ex-MNE, sendo que até agora já o fizeram mais de quatro milhões.

Outra situação de instabilidade com profundas consequências internas vive-se na Argentina, país que se encontra à beira do incumprimento dos seus compromissos internacionais.

Uma nova Europa

No Velho Continente, os tradicionais motores do crescimento económico atravessam conjunturas menos propícias. Portas explicou que a Alemanha "escapou por pouco a uma recessão", enquanto a Espanha e a Itália, de formas diferentes, foram vítimas de uma atmosfera de instabilidade política que penalizou as respetivas economias. E não é ainda claro qual o percurso que irão fazer ao longo de 2020.

Cenário oposto vive-se na "Polónia, Hungria, República Checa e nalguns países bálticos", com taxas de crescimento na ordem dos 4%

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