Viagem pelas ilhas onde reina a paz

Sustentabilidade, progresso, ecoturismo, gastronomia e personagens inesquecíveis. São Tomé e Príncipe é um projeto para o futuro. E está a acontecer hoje.

Ilha do Princípe

É Reserva da Biosfera e um exemplo para o mundo quanto à sustentabilidade ambiental e desenvolvimento das populações locais. Além disso, é um pequeno paraíso. De quatro a doze horas é o tempo que leva a viagem de barco entre São Tomé e o Príncipe. Tudo depende do estado da embarcação, se é de carga ou de passageiros, se o mar está bravo ou calmo como um espelho. Optamos pelo avião e por 35 minutos de voo para cumprir cerca de 140 quilómetros de distância entre as duas ilhas. Nem dá tempo para uma soneca depois do pequeno almoço. A tripulação é da Europa de Leste, nota se pelo sotaque das comunicações. Os passageiros são cerca de trinta, metade são tomenses. Há um casal de alemães que não sabem bem o que esperar do destino para onde voam. Uma espanhola e um asiático leem com gula um guia sobre a ilha.

O avião vai perdendo altitude de forma rápida, furando o capacete de nuvens que já é uma imagem de marca deste arquipélago africano, um dos mais pequenos países do mundo. E é a bater as dez da manhã que os tons de verde e azul do mar começam a ser elogiados desde a janela do avião. Estamos a chegar ao Príncipe. E depressa vamos perceber por que razão a ilha foi declarada Reserva da Biosfera pela UNESCO em 2012.

Marina Pereira está à espera para nos levar à Roça Sundy. É uma das muitas funcionárias do grupo HBD, criado pelo sul africano Mark Shuttleworth. Diz a lenda local que o empresário (e milionário) terá sobrevoado a ilha no seu avião particular, e que a beleza e a imponência da natureza lhe terão chamado a atenção. Informou se, visitou o território e resolveu investir no turismo, mas não só. Hoje a empresa é a principal entidade privada na ilha a apoiar o desenvolvimento sustentável, sem nunca esquecer o crescimento económico e social. Não é disso que falamos na curta viagem até à Roça Sundy. Estamos mais entretidos a tentar orientar nos nesta jangada verde de dezasseis quilómetros de comprimento por oito de largura.

Marina é açoriana, já viveu em Angola e o Príncipe está a ser «uma experiência única e positiva». É ela quem o diz enquanto conduz a pick-up pelas estradas que passam depressa a picadas. Chegamos ao paralelepípedo que indica a proximidade à antiga roça colonial, a primeira do arquipélago a receber um pé de cacau. Foi em 1822 e história não falta por aqui. Caminhamos pelo meio da relva alta. Há jovens e adultos a jogar à bola no relvado natural. Da creche - a funcionar num rés-de-chão de um dos edifícios - saem as gargalhadas e cantilenas normais das crianças. Somos convidados a entrar e a participar na cantoria. Impossível resistir.

Foi na Sundy que, em maio de 1919, o astrónomo inglês Sir Arthur Eddington comprovou a Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein. Aconteceu durante um eclipse solar, que permitiu analisar a deflexão da luz. Trocando por miúdos - e está tudo explicado numa placa alusiva ao acontecimento histórico -, provou‑se que o espaço e o tempo não eram absolutos. Foi uma das descobertas científicas mais importantes da ciência e pouca gente sabe que ocorreu aqui, na Sundy, a forma simplificada com que foi batizado o primeiro proprietário da roça. De senhor Dias a Sundy foi um passo de língua e de tempo.

A roça está dividida em dois espaços: a casa principal e os antigos secadores e as sanzalas e as cavalariças. Cerca de quinhentas pessoas vivem nas proximidades e o ponto de encontro é o terreiro central, aquele dos jogos de futebol improvisados. O antigo hospital, junto ao principal acesso, é só uma sombra do que já foi, mas tem o encanto e o potencial de uma construção que a selva está a encarregar-se de cobrir. Marina leva‑nos agora para a casa principal, onde serão distribuídos os quartos e feitas as apresentações. Manuel Barbosa é o diretor da Roça Sundy. Já correu mundo em trabalho e em prazer e encontrou na ilha um refúgio perfeito. «É um lugar especial, cheio de história e onde se sente a tranquilidade em cada canto.» Sim, Manuel. Ainda agora chegámos e já estamos a senti-la.

É tempo para uma bruschetta com tomate assado, presunto do Príncipe e micocó - uma das mais utilizadas ervas da ilha, presente nos principais pratos. Dizem que o seu chá é afrodisíaco. Os próximos dias o dirão. Ou não. Segue‑se polvo, coco e pudim de pão.

As baterias estão carregadas e agora é Ofreu Aurora, nascido e criado por aqui, que serve de cicerone. É um experiente guia no que diz respeito à flora e à fauna. Ainda não tem carta de condução, por isso oferecemo‑nos para conduzir pela estrada sinuosa e lamacenta. Ofreu tem o cabelo com rastas e estas encontram‑se no cocuruto, presas por um elástico. Não para de chover há bem mais de duas horas. «Chuva mulher», ri‑se Ofreu. É o nome dado por cá - pelos homens - à água que cai do céu de forma persistente e aborrecida. «Chuva homem é outra coisa», diz‑nos. «É mais bruta e rápida.»

E nisto chegamos à praia, daquelas com vegetação quase até ao mar. Escondido na floresta está o Sundy Praia, a nova unidade do grupo HBD - um resort de luxo com os pés na areia.

Voltamos à roça para uma prova de cacau. Afinal, foi aqui que tudo começou. Há fresco, em vinagre, como muesli, sob a forma de creme ou torrado. A noite caiu depressa como sempre acontece nas imediações da linha do equador. Hoje vamos sair para jantar na capital da ilha, Santo António. É uma cidade que provoca sentimentos contraditórios. Por um lado, pobre, mal cuidada, quase a roçar o abandono. Por outro, cheia de crianças e jovens, movimentada para os seus cinco mil habitantes, com uma loja de cada ramo para os servir - padaria, mercearia, de recordações ou de venda de tecidos.

Paramos no Mira Rio, o café com vista de rio, ponto principal para os estrangeiros que cá vivem - a internet é um fator convidativo. Tem máquina de café de cápsula e cerveja nacional, sempre sem rótulo, bem como portuguesa. Próxima paragem: a associação cultural e restaurante Rosa Pão. A mesa está posta no alpendre. Já lá está sentada uma família de quatro pessoas e mais três documentaristas que andam a filmar pelo Príncipe. Todos franceses. Portugueses, além de nós, há mais. Uns trabalham para o HBD, outros para a Reserva da Biosfera.

A comida começa a chegar, as conversas cruzam‑se e três são-tomenses aproximam‑se. «Boa noite, sejam bem‑vindos à ilha do Príncipe.» Um está de galochas sujas pela lama, outro de havaianas e o terceiro de ténis. Trazem três violas e uma harmónica. «Somos a Banda Unida.» Os sons de África acompanham agora a barracuda, um dos muitos peixes desta costa. «Ter uma vida boa nesta terra não é fácil não», canta a Banda Unida. «São Tomé e Príncipe, terra linda», diz o refrão. E é assim que vamos embalados de regresso à Sundy. No dia seguinte há muito para fazer.

A ilha ecológica

Começamos com uma visita ao Precipício, tem de ser. É deste miradouro que se tem a melhor vista sobre a praia Banana, um dos cartões‑postais da ilha. Seguimos selva dentro para a Roça Paciência, outra das estruturas deixadas pelos portugueses. Tem o mesmo aspeto deteriorado pelo tempo, mas coisas novas estão a surgir por aqui. Geraldo Cravid tem o sorriso de quem gosta de receber gente. É o responsável pela área agrícola, a nova vida da Paciência. Daqui saem legumes, frutos, ervas aromáticas, café e cacau, além das compotas servidas aos pequenos‑almoços nos principais hotéis do Príncipe.

Ainda antes do almoço temos encontro marcado com Yodi, um dos mais experientes guias do país. Cortamos por estradas de terra, avistamos o Boné do Jóquei, um ilhéu ao largo que tem o formato do nome, e paramos no início do T7, um dos oito que constituem os Trilhos da Biosfera marcados na ilha. São 45 minutos de caminhada sobre pedras, terra e lama. É acessível para toda a gente com mobilidade, não sendo aconselhável a crianças pequenas nem adultos de idade avançada.

Pelo caminho, Yodi vai falando das espécies, da história da cascata para onde caminhamos - a Oquêpipi. «Antigamente, os donos da roça vinham passar o fim de semana para aqui, até construíram um caminho. Com o tempo, ficou coberto e só muito recentemente voltámos a descobri‑lo.» A humidade é elevada e o som da cascata está cada vez mais perto. A queda de água tem mais de setenta metros de altura, segundo Yodi, de 36 anos, com quatro filhos. Com a catana corta um ramo e dá‑nos a provar. A água que de lá sai está filtrada pela natureza.

A lagoa que se forma pela cascata pede um mergulho, apesar da água fria. Ficam dois conselhos: não mergulhar sem ver o fundo e não beber a água que ali chega. É tempo de fazer o caminho inverso até ao jipe. E deste até Santo António onde nos espera Dona Zinha. É a típica matriarca africana e tudo se desenvolve em seu redor. Aquilo que já foi uma barraca sem condições é hoje um modesto restaurante com tábuas corridas a servir de mesas e bancos. Banana assada, peixe e caranguejo são os reis da festa, apesar do atraso de quase duas horas com que chegámos. «Já está tudo frio...», lamenta Dona Zinha, naquela espécie de raspanete.

Há um passadiço de madeira que já é mítico no Príncipe. Liga a ilha ao mais famoso dos ilhéus da região - o Bom Bom. Faz parte de um resort que não precisa de publicidade nem de pruridos quanto a elogios. É um pequeno paraíso e basta ali chegar para se perceber. Sérgio Duarte, diretor‑geral, fala‑nos da pesca ao marlim que tornou conhecida a enseada, refere o ecoturismo como motor da ilha, apresenta as novidades do Bom Bom e salienta a experiência vivida por cada pessoa que chega: «Há quem venha passar dois ou três dias e marque logo para o ano seguinte. E entende‑se porquê.» Além do insuperável trinómio bungalow‑praia-palmeira, há mergulho, pesca, caminhadas e passeios de barco para fazer.

Afinal, esta é a ilha onde mais de cinquenta por cento do território é área protegida. É aqui que se trocam garrafas de plástico por outras amigas do ambiente, que se incentiva a reciclagem desde a escola primária, que se combate o turismo de massas com o turismo de consciência. Estrela Matilde fala de tudo isto com paixão. Portuguesa de Sines, já é sãotomense por mérito. Trabalha para a Reserva da Biosfera e é uma das pessoas que dá a cara em defesa do Príncipe. Elogia o trabalho feito pelo Governo da ilha e pelas empresas estrangeiras que têm apostado no território, mas acima de tudo gosta de realçar a maior riqueza que encontrou: «É óbvio que esta é uma reserva única da biosfera, com uma diversidade que chega a ser maior do que a das ilhas Galápagos. Isso é impressionante, mas não tenho dúvidas de que são as pessoas quem mais faz a diferença aqui.»

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