Em busca das utopias da Ásia

O repórter e escritor português Paulo Moura viajou por uma série de megalópoles asiáticas para escrever "As Cidades do Sol", livro que será editado em Portugal nos próximos meses.

Bangalore, Jacarta, Ho Chi Min, Manila, Seoul, Hong Kong e Macau - assim se fez o recente percurso de Paulo Moura pela Ásia durante um mês e uma semana. Serão estas e outras metrópoles que farão parte do livro "As Cidades do Sol", com edição prevista em Portugal, pela Nomad, para maio ou junho deste ano.

"A ideia desta viagem é uma coisa que há muito me interessa: esta ideia de que a classe média na Ásia está a crescer e vai suplantar até em número a classe média do ocidente. Penso nisto desde que fiz uma viagem pela China há cinco anos, para o [jornal] Público. Foi uma viagem longa que fiz sozinho e onde vi essas pessoas que estão a sair das aldeias para vir trabalhar para as cidades, fábricas, etc", conta Paulo Moura ao PLATAFORMA a partir de Lisboa. "São pessoas que, depois de gerações e gerações de pobreza extrema, são a nova classe média-baixa, têm o mínimo que lhes permite ter esperança e optimismo quanto ao futuro. Têm um salário que lhes permite ter um telemóvel, um apartamento, se calhar um carro, pôr os filhos a estudar; têm uma perspectiva de futuro e de ascensão social. Entre estas pessoas reina um grande optimismo em relação ao futuro, por oposição ao que se passa no ocidente. Quando lhes perguntava sobre a crise mundial, ficavam pasmadas. Não percebem o mundo actual como um mundo em crise, mas como um mundo de oportunidades."

Nesta nova incursão pela Ásia, que o trouxe pela primeira vez a Macau e Hong Kong, o multipremiado repórter que fez a cobertura jornalística de conflitos no Kosovo, Afeganistão, Iraque, Chechénia, Argélia, Angola, Caxemira, Israel, Líbia e muitas outras regiões, quis "ver o que se passa não só na China mas também na Ásia, em países que estão em grande crescimento". "Queria perceber o que é que esta nova classe média pensa, o que é que sonha para o futuro", acrescenta.

A arte de viajar

A cidade, diz Paulo Moura, é por excelência a utopia humana, dando o exemplo de Shenzhen, "há 20 anos uma aldeia e agora com 14 milhões de pessoas". Antes de arrancar para esta viagem, o autor tinha bem presentes os conceitos de classe média e de utopia: quem são e o que pensam estas pessoas que vão definir o futuro do planeta? Hoje, escrever e viajar sobre um fenómeno deste género, ou sobre qualquer viagem em geral, pode parecer "algo que à partida está condenado" a falhar. "Na era do Google, qual é o sentido de ir a um sítio para escrever? Primeiro, é muito fácil viajar; depois, pode-se pôr uma cidade no Google Maps e nem se precisa de ir lá."

Moura defende "uma atitude mais de repórter, de investigação". "Não basta contar aquilo que por acaso lhe acontece, não pode ter uma atitude passiva e estar à espera, porque realmente nas viagens a maior parte das vezes não acontece nada. Então se viajarmos para uma grande cidade, como foi o meu caso, uma pessoa senta-se num café, fica ali a tarde inteira e não se passa nada. Depois o que é que vamos contar? Acredito que temos de ter uma atitude ativa."

Uma atitude ativa que, nesta viagem, passou por entrevistar músicos, escritores, historiadores, sociólogos, "além de pessoas comuns" e "pessoas que pensem um bocado sobre estas realidades" em permanente mudança.

"A minha experiência de viajante é de repórter, desde sempre, portanto a minha atitude é de abertura, de investigar", conta o também professor da Universidade Nova de Lisboa.

Neste caso, algo surpreendente para o autor foi procurar a originalidade asiática, os sonhos que as pessoas têm e as diferenças em relação ao ocidente, e antes encontrar realidades em que "as pessoas cada vez se aproximam mais, são mais submissas, mais amigas dos consensos". Se há uma civilização asiática que está a emergir e que vai tornar-se dominante nas próximas décadas, prossegue Paulo Moura, "isso não significa que vá haver uma civilização alternativa, porque apenas pegou na civilização ocidental e fê-la reviver". "Não encontrei nenhum jovem muito interessado nas tradições asiáticas. O que as pessoas ambicionam é ir para o ocidente, estudar inglês e adoptar os valores culturais do ocidente."

Hong Kong, Macau e as utopias

Em Hong Kong, Paulo Moura debruçou-se sobre a questão das trabalhadoras domésticas migrantes, uma realidade que não lhe era estranha. "Era um tema que já queria procurar, tinha feito um grande trabalho no Kuwait com empregadas domésticas filipinas. Hong Kong, que eu saiba, é o lugar onde há mais trabalhadoras destas, cerca de 400 mil. Cheguei precisamente a um domingo e há aquele fenómeno incrível para quem nunca viu, o dia de folga em que as helpers estão todas nas ruas de Hong Kong, milhares e milhares de pessoas, é uma imagem fortíssima. Fui logo entrevistá-las", conta. Nos dias seguintes o jornalista entrou em contacto "com ONGs que defendem os direitos e tratam dos problemas destas trabalhadoras domésticas", quis perceber melhor "qual é o problema, a descriminação que existe na lei, etc., para poder aprofundar o tema e não fazer apenas um relato de uma impressão, que seria uma abordagem superficial de viajante".

Outro dos assuntos que lhe interessava explorar era o futuro de Hong Kong enquanto parte da República Popular da China. "Falei com intelectuais e artistas sobre a sua percepção, se Hong Kong existe com a sua identidade cultural e se isso vai desaparecer, se o próprio Governo chinês quer que isso desapareça. E sobre o que é Hong Kong, porque é de certa maneira a ideia suprema da utopia urbana, por ser uma cidade construída isolada de todo o resto, uma confluência de oriente e ocidente. Tomei Hong Kong como uma espécie de símbolo do que vai ser a cidade e de se as cidades têm futuro."

Macau, derradeiro destino da viagem de Paulo Moura, também fará parte do livro "As Cidades do Sol". "Pela nossa relação cultural com Macau enquanto portugueses, temos outra responsabilidade sobre o que escrevemos. Não é como um viajante estrangeiro que vai de passagem e pode dar-se ao luxo de descrever as primeiras impressões superficiais. Em Macau não me posso dar a esse luxo, não posso emitir juízos superficiais e eventualmente injustos só porque me lembrei", nota Paulo Moura. Admite, no entanto, que "uma das coisas que choca um pouco o português é haver este divórcio entre as culturas portuguesa e chinesa, não ter havido uma simbiose mais profunda de qualquer espécie no território". "Claro que isso tem as suas razões culturais e merece uma investigação, uma reflexão sobre a própria natureza do colonialismo. Esta ideia da simbiose e da aproximação de culturas é muitas vezes ilusória - elas não se aproximam, são muitas vezes irredutíveis."

Depois, há os casinos, "esse lado de fantasia relacionado com o jogo, como Las Vegas". "É uma espécie de caricatura da utopia: reduzi-la àquilo que ela se calhar é, uma ilusão", diz o viajante. Para Paulo Moura, os casinos de Macau têm um lado imagético e arquitectónico "louco e um bocado desumano, e nesse sentido opressor também". "Estas ilusões humanas, apesar de tudo, existem e não abdicamos delas. Na China, onde o jogo é proibido, há Macau como escape e tem um êxito tremendo. O jogo é algo impossível de erradicar da realidade humana, não só nos casinos mas em várias dimensões. A prova é que até o Governo chinês, com todo os seu puritanismo comunista, lá teve de criar um escape para as pessoas irem jogar e fê-lo com toda a pompa, ao ultrapassar Las Vegas para não haver dúvidas de que é aí o grande centro mundial do jogo." Isto, admite o autor, tem também "um lado romântico de pensarmos que o ser humano estará sempre disposto ao risco e a sonhar com coisas impossíveis".

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