Filhos do colonialismo rompem o silêncio e contam as suas histórias

Não são atores mas aceitaram o desafio de subir ao palco para partilharem as suas memórias e as dos seus pais sobre o colonialismo português

Memórias que em alguns casos só descobriram durante a preparação do espetáculo "Os Filhos do Colonialismo Português", que estreia esta quinta-feira, na Culturgest, em Lisboa.

Sentada no chão, enquanto Patrícia lhe faz tranças no cabelo, Soraia relembra como foi chegar a Portugal, deixando "uma casa enorme com uma série de empregados" na Beira, em Moçambique, e dar consigo a morar "como que por favor" num bairro de lata, à entrada de Lisboa. As duas vão trocando memórias pessoais do tempo do colonialismo português e, já com catembe (mistura de vinho e coca-cola) a ser servido vão juntando-se à conversa Joana, Paulo, Celise e Cláudia, os seis não atores que protagonizam Os Filhos do Colonialismo Português, espetáculo criado pela companhia Hotel Europa, que estreia esta quinta-feira, 26 de setembro, na Culturgest, em Lisboa.

Não, não é assim que começa a peça. Este é apenas um dos momentos do encadeamento das seis histórias que passam por Moçambique, Angola, Cabo Verde e Portugal, salpicadas pela recriação de bailes nos musseques ou videoclipes dos Beach Boys, de fotografias e cartas muito pessoais que criam uma grande proximidade entre quem está em cima do palco e quem está a assistir.

Em cima do palco todos têm em comum memórias coloniais na família e curiosidade de saber mais dessa herança. Uma curiosidade que os levou a responder ao apelo de André Amálio e Tereza Havlíčková para participar em workshops sobre colonialismo, tema que investigam há sete anos ao longo dos quais já levaram a cena espetáculos como Passaporte, Libertação ou Portugal não é um País Pequeno.

"Em Passaporte, por exemplo, a cantora [moçambicana] Selma Uamusse contava um bocadinho da história dela, mas depois também interpretava a história de outros. Decidi que neste espetáculo queria cortar qualquer processo de intermediário, de alguém a fazer de outro, queria mesmo pessoas não atores, que não têm nada a ver com dança, teatro ou outras artes do espetáculo a falar das suas histórias de vida e da história de vida dos seus pais", explica André Amálio.

Esse lado biográfico leva Teresa a classificar o espetáculo como "muito simples, puro e verdadeiro" acreditando que, por isso mesmo, "pode falar para todas as pessoas, mesmo para quem não está habituado a ver teatro".

"Aconteceu uma coisa muito engraçada nesses workshops: houve um processo de identificação destas pessoas que viram que também havia outras para além delas a sentir que este passado que eles herdaram era importante para eles no presente", relembra Amálio.

Pegando no desafio que lhes foi lançado, esses "filhos do colonialismo" iniciaram um processo de investigação e descoberta de memórias do colonialismo dos seus pais, alguns pedaços contados em voz-off por eles mesmos durante o espetáculo.

Ao contrário do que aconteceu com a criação dos outros espetáculos, "só depois de fazer os workshops senti que gostava de entrevistar os pais deles porque me apercebi que em muitos casos havia aqui algum buraco", refere André Amálio. Perguntas que nunca tinham sido feitas e respostas nunca antes dadas. E houve quem tivesse dúvidas se os pais iriam aderir à ideia, com conta Cláudia, filha de um ex-combatente com stress pós-traumático, durante o espetáculo.

Por isso, foram muitas as dúvidas com que o grupo se defrontou. "O que é que os meus pais vão achar do que estou aqui a fazer? E essa foi a grande barreira que depois foi ultrapassada: até onde posso ir, o que posso dizer, o que é justo, o que é certo", recorda André Amálio.

"Isso foi algo muito interessante neste trabalho: em muitos deles, a transmissão foi feita aqui, por este processo [de criação do espetáculo], por termos ido entrevistar os pais deles, por eles ouvirem e fazerem as entrevistas. Isso foi um passo gigante que foi dado aqui por eles e que acho que agora vai ser dado para as pessoas que vierem ver. É engraçado ver como o teatro funciona desta maneira".

Integrado no ciclo Memórias Coloniais, que decorre na Culturgest, em Lisboa, até 5 de outubro, o espetáculo terá também apresentações em Coimbra e no Porto em fevereiro do próximo ano. E a vontade do grupo é que possa subir a muitos outros palcos, tal como tem acontecido com os espetáculos anteriores, ainda em circulação.

"Filhos do Colonialismo Português" é o último espetáculo em torno do colonialismo que André e Teresa vão apresentar. Para terminar esta fase do seu trabalho e também o ciclo Memórias Coloniais, a 5 de outubro André Amálio vai recorrer ao seu extenso arquivo de entrevistas, livros, vídeos e fotografias revisitando as suas criações teatrais numa performance de 13 horas. "Vou passar por todo este percurso de trabalho de sete anos, vão ser ouvidos pedaços de entrevistas que nunca foram ouvidos. O público pode entrar e sair quando quiser, a qualquer momento, eu é que hei de lá estar as 13 horas. A ideia é as pessoas poderem ouvir as versões longas das entrevistas. Nos outros processos/espetáculos, às vezes tínhamos entrevistas fantásticas mas como o espetáculo tem uma certa duração, era preciso cortar, escolher. Esse era um processo muito violento para mim: de uma história incrível de vida, de uma conversa de duas horas, usar apenas dois minutos, dois minutos e meio. Por isso decidi terminar com essa performance de longa duração."

Sobre a forma como o colonialismo é encarado hoje em dia em Portugal, André Amálio não tem dúvidas que "há um movimento, nas mais variadas áreas - desde a Academia, aos ativistas, artes plásticas, documentários, teatro - que quer discutir o colonialismo, quer deixar de ter contos de fadas sobre o nosso colonialismo a dizer que nós somos diferentes dos outros. Não, não fomos diferentes dos outros e nós podemos viver com isso, podemos reconhecer, aceitar, aprender e seguir em frente. Há toda esta geração, que não viveu o colonialismo, que quer fazer isso, que tem essa necessidade".

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