Com racismo na bagagem, teatro brasileiro vai fazer mexer o Porto

Do Teatro Nacional São João à Associação de Moradores da Lomba, 25 espaços do Porto vão ser palco de mais de 70 iniciativas. É a 5.ª edição do MEXE, de 16 a 22 de setembro, que conta com dois grupos de teatro brasileiros para agitar o público da cidade Invicta.

As estreias em Portugal dos espetáculos Isto é um Negro? e Quem Quebra Queima são dois dos destaques da extensa programação da 5.ª edição do MEXE - Encontro Internacional de Arte e Comunidade. Entre 16 e 22 de setembro, vão passar por 25 espaços do Porto mais de 70 propostas artísticas, conferências, oficinas, envolvendo mais de 400 pessoas e 27 grupos oriundos de seis países.

O tema chapéu de toda a programação deste ano é o "comum". "Vivemos momentos de grande fragilidades das democracias ocidentais então, é urgente esta convocação da criação artística, que está muito atenta a esta realidade, para que a própria criação nos ajude a pensar noutros caminhos, noutras alternativas, nos ajude a encontrar soluções que até nos podem parecer impossíveis neste momento mas que podem ser possíveis se tivermos mais atenção, as discutirmos e tivermos também alguma coragem de as implementar", explica Hugo Cruz, diretor artístico do MEXE, ao Plataforma.

E é precisamente isso que faz o espetáculo Isto é um Negro?, da companhia brasileira EQuemÉgosta?, uma proposta sobre o que é ser negro e negra no Brasil, que questiona a perpetuação do racismo estrutural desde que "o herói inventou o negro", como se diz numa passagem da peça. "Um espetáculo acutilante, necessário e absolutamente incontornável no mundo atual, Isto é um Negro? não fala apenas de negritude, vai para além da temática central sobre o racismo baseado na pesquisa que o próprio grupo fez", defende Hugo Cruz.

Um trabalho que começou por ser um estudo de uma turma de teatro da Escola de Arte Dramática de São Paulo, como conta ao Plataforma a encenadora Tarina Quelho, por telefone, a partir da cidade paulista. "A questão racial no Brasil nunca foi fofinha e durante muito tempo uma grande parte do Brasil, a branquitude, criou uma grande fantasia que o Brasil seria uma grande democracia racial, que não é. O racismo no Brasil é bem específico, diferente dos Estados Unidos, é muito mais refinado porque é disfarçado", contextualiza Tarina.

Quando há quatro anos ficou com uma pequena turma só de alunos pretos - "coisa que nunca tinha acontecido na Escola", explica - lançou-lhes um desafio: "Propus para eles fazermos um estudo sobre negritude e racismo. Partindo da leitura de obras de autores como Fred Moten, Achille Mbembe, Bell Hooks, Grada Kilomba, Frantz Fanon, Sueli Cordeiro e Aimé Cesaire e da própria experiência dos atores tentámos fazer uma peça entre a teoria e as experiências deles. No início até disse para eles que podia não sair uma peça desse nosso trabalho. Eles toparam."

E saiu mesmo uma peça que no dia 21 de setembro sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto. Já não é a primeira versão, apresentada na Universidade de São Paulo durante cinco dias como trabalho de final de semestre. A estrutura foi repensada, dois atores foram trocados, "mas o grosso do trabalho é o mesmo da versão original", conta Tarina Quelho.

"Nem sabíamos se mesmo as pessoas negras se iriam sentir confortáveis, porque tem momentos fortes na peça, e até já tivemos situações em que algumas pessoas negras se sentiram ofendidas", relata. No entanto, não tem qualquer dúvida: "No Brasil fizemos a peça em contextos extremamente tradicionais e na soma geral as experiências foram muito boas. Porque a peça, apesar de ser forte e até tender para uma certa agressividade, a entrada dela é muito na simpatia, no convite, não é planfetária".

"A apresentação em Portugal, para nós, vai ser incrível porque Portugal faz intimamente parte da história dos negros no Brasil. E, ao mesmo tempo, também temos a noção que até há pouco tempo Portugal ainda tinha colónias. Talvez a situação seja ainda mais tensa", antevê a encenadora brasileira.

Para Hugo Cruz, "este espetáculo pode contribuir para que em Portugal se discuta mais a questão do racismo, para que se intensifique no sentido da sua resolução, para encontrarmos um outro espaço nas relações de poder instaladas há muitos séculos relativamente à esta questão racial".

Do Brasil chega ao MEXE uma outra proposta, Quando Quebra Queima, construído por estudantes que viveram o processo de ocupações e manifestações do "movimento secundarista". Do grupo ColectivA Ocupação, será apresentado a 22 de setembro na Escola Alexandre Herculano.

Espaço para as geografias do Sul

Os 34 parceiros que fazem este MEXE são propositadamente orindos de África, América Latina e Sul da Europa. Hugo Cruz explica a opção: "Do meu ponto de vista enquanto diretor artístico do Mexe, era muito importante neste momento do mundo, do país, da cidade do Porto, dar um sinal claro que queremos dar espaço criações artísticas das geografias do Sul uma vez que normalmente não têm o espaço devido no circuito cultural".

"O equilíbrio do mundo está muito concentrado nos países do Norte, nos países mais ricos numa certa dominação da geografia do sul. Neste momento, o que se sente é que a criação artística está pujante, questionadora, extremamente criativa exatamente nas geografias do sul dando também assim um contributo para que possam equilibrar as relações entre Norte e Sul, a Europa e a América Latina e África. Esse olhar horizontal para a relação com outros seres humanos independentemente da geografia de onde as pessoas são originárias pode levar-nos para uma outra fase da história da Humanidade e do Mundo. Essas são questões absolutamente urgentes para olharmos de frente e tentarmos resolver. E que não pode ficar só na narrativa, no discurso politicamente correto da igualdade, da justiça. Temos de ter ações concretas", defende.

E o tipo de ações concretas que se pode ter começa logo pela própria organização do encontro, "uma construção coletiva fruto da relação estreita e da confiança entre os 34 parceiros", com base num trabalho muito enraizado numa lógica comunitária em que as pessoas das comunidades locais participam diretamente na definição da programação, na produção, no acolhimentos dos artistas e grupos que nos visitam".

Apesar da complexidade do trabalho coletivo, Hugo Cruz só lamenta que as quase duas dezenas de contactos com estruturas artísticas portuguesas não tenha dado frutos e esta e outros espetáculos estrangeiros não sejam apresentados noutras cidades portuguesas. "Fiquei surpreendido. Acho que esta é uma situação que nos deve levar a pensar a forma de programar em Portugal, quais as prioridades e os objetivos. Como é que num país tão pequeno não é possível partilha produções quando estas vêm de fora. Mas continuamos a avançar, pode ser que no futuro seja possível conseguir uma parceria desse género", conclui em tom otimista.

A programação completa do encontro pode ser consultada em mexe.org.pt

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