"A mentalidade está a mudar com a minha geração"

"A mentalidade está a mudar  com a minha geração"

Venus Loi foi a curadora do primeiro TEDxSenado Square em Macau. No próximo ano, há mais. O objetivo é que passe a ser anual. Loi mostra-se satisfeita, sobretudo, porque o evento conseguiu juntar as diferentes comunidades.

- Que balanço faz do TEDx Senado Square?

Venus Loi - Só vamos ter uma ideia melhor depois do inquérito que ainda estamos a fazer. Mas o feedback foi bastante positivo. As pessoas gostaram dos convidados, dos temas. Tivemos nove oradores, que também nos deram bom feedback, inclusive em como melhorar o evento, por exemplo tornando-nos mais ecológicos. São ideias que queremos aplicar no próximo ano. Houve cerca de 200 espetadores. Não consigo precisar quanto dinheiro juntámos com os bilhetes, mas não fizemos lucro. Tudo o que angariámos foi para a produção do evento.

- Como escolheram o tema e os convidados?

V.L. - Quando decidimos avançar, já tínhamos algumas ideias. Queríamos ter alguém que falasse sobre desenvolvimento urbano. Macau é uma cidade antiga e que não foi desenhada para receber tanta gente. Queria encontrar quem falasse sobre espaço público, como o usamos. Também queríamos abordar o tema suicídio, porque a taxa foi bastante elevada no ano passado.

- Porquê "Ondulação" como tema geral?

V.L. - Funciona um pouco como metáfora do que queríamos: que as ideias se espalhassem e perdurassem para lá do evento. Não queremos que se trate apenas de um evento que até inspire as pessoas, mas que morra depois. Além disso, tendo em conta que Macau é uma cidade costeira, achámos que seria interessante ter um tema relacionado com o mar e a água.

- Como é que o conceito geral se aplicou aos diferentes convidados e subtemas?

V.L. - Fizemos questão que seguissem o que tinham em mente e não estivessem só condicionados pelo tema. Convidámos um fotógrafo que falou sobre "Descobrir a beleza de Macau". Macau é apreciada por muita gente como uma cidade bonita, como se percebe pelo número de turistas, mas muitos locais não acham isso. Concentramo-nos tanto na parte negativa da cidade que nos esquecemos do resto. Pedi-lhe que falasse como encontra beleza na cidade. Partilhou com a audiência centenas de fotografias das Ruínas de São Paulo, de diferentes formas, ângulos e alturas. O que procurou transmitir foi que se passarmos e dedicarmos tempo a observar o que nos rodeia, percebemos que está em constante mutação. Tamara Solski, por exemplo, falou sobre o espaço público. Tivemos dois convidados de Hong Kong que falaram sobre Filosofia, que considero uma estrutura para tudo o resto. Foi uma sessão em que as pessoas se riram muito e foi importante porque conseguiu transmitir a importância da Filosofia, sobretudo hoje em dia que temos acesso a tanta informação e conteúdos, mas que raramente reflectimos sobre eles.

- Que impacto pode ter este tipo de iniciativas?

V.L. - O que constatei foi que juntamos um grupo heterogéneo de pessoas: falantes de inglês, cantonês e até de mandarim. É importante porque é um evento que faz com que as pessoas se misturem. Normalmente, os eventos em Macau acabam por ter só uma audiência. Nos próximos, gostávamos de ter ainda mais gente das diferentes comunidades e ter mais pluralidade.

Quem está por detrás da organização?

V.L. - A nossa associação Attic, de jovens voluntários. Queremos juntar ideias e criar mais eventos, além do TEDx - que vamos organizar no próximo ano e queremos que se torne anual. Gostava de organizar mais eventos relacionados com Artes. No grupo, também há muita gente interessada em tecnologia e em música.

- O TEDx é organizado por todo o mundo. Que repercussão pode ter em Macau?

V.L. - Ajuda a cidade a ligar-se ao mundo. Há muita gente brilhante aqui, mas não temos uma forma de a conhecer e dar a conhecer esse talento a outras partes. Todas as palestras foram transmitidas online para estarem acessíveis a toda gente. É uma forma de Macau sair lá para fora.

- Numa outra entrevista referiu que esperava mais audiência jovem. Como olha para a juventude local? Parece pouco ativa e interessada, muito preocupada com dinheiro e focada na carreira. É mesmo assim?

V.L. - Acho que é 50/50. E digo isto também com base na nossa equipa. Pertencem claramente ao grupo de pessoas que têm paixões e sonhos, e querem fazer da cidade um sítio melhor, e não é que não queiram, mas nem sempre encontram uma oportunidade de fazer o que gostam. Macau é muito pequeno e às vezes é difícil entrar-se na área em que se é bom.

- Numa outra entrevista, dizia também que um dos grandes problemas para Macau ao nível da juventude é a ausência de oportunidades de carreira.

V.L. - Acho que a cidade não pode oferecer tudo. Os jovens também têm de procurar oportunidades. Mas acho que a falta de iniciativa está muito relacionada com a educação. Não somos encorajados a procurar formas de fazer o que queremos. Foi uma coisa que aprendi quando estudava no Reino Unido, onde as pessoas são muito mais incentivadas a tentarem e onde se aceita que se erre. É uma lógica que não faz parte do nosso sistema de educação. Somos ensinados que falhar é muito grave. Quando estava na escola, chumbei e toda gente me dizia que era uma falha enorme, que terminava o secundário um ano depois de todos os da minha idade, fizeram-me sentir que era uma perda gigante na minha vida. Depois de sair daqui percebi que não era assim, que também havia boas consequências destas situações.

- Há cada vez mais jovens locais que estudam no estrangeiro. Pode significar uma mudança?

V.L. - De alguma forma sim. A verdade é que muitas das pessoas que estudam fora pertencem à elite. Espero que não se ofendam pelo facto de lhes chamar elite (risos). Às vezes também acaba por ser difícil ter estas pessoas em eventos mais próximos da comunidade. É muito importante conseguirmos ter os dois grupos de pessoas juntas. Quem estudou nos Estados Unidos, sabe como funciona o sistema e percebe que provavelmente também pode funcionar em Macau. É importante partilhar ideias do que se vive e experimenta noutros sítios. Se só conhecemos como funciona o sistema em Macau, acabamos por cair na armadilha de acreditarmos que é o único modelo possível.

- Como olha para o projeto da Grande Baía, tendo em conta que, segundo o discurso oficial, está muito focado em criar oportunidades para os jovens?

V.L. - Sou completamente apologista da iniciativa. É importante que o Governo faça com que estejamos mais ligados às cidades vizinhas. Gostava de ver mais apoio do Governo, sobretudo ao nível do financiamento, e também na construção de uma rede. Por exemplo, com a criação de uma base de dados com nomes de pessoas das diferentes especialidades e áreas da região. Isso já nos facilitava muito o trabalho. Agora, para contactarmos e conhecermos pessoas que possamos convidar, temos de ser nós a irmos às cidades, participar nos eventos deles.

- Como vê Macau comparado com outras cidades da Grande Baía?

V.L. - Em algumas áreas, acho que está atrás. Mas também acho que se destaca noutras, como na cultura. Macau tem um enorme potencial em termos culturais, do património e arquitetura. Há muitas cidades que até podiam fazer o mesmo que Macau, mas não têm o património que Macau tem.

- Também organizou a Startup Weekend Women Macau. Porquê um evento especialmente dedicado às mulheres?

V.L. - Organizei vários Startup Weekend e os participantes eram sobretudo homens. Não havia mulheres. Quando organizamos a edição direcionada às mulheres houve uma participação enorme. Queríamos que se percebesse que as mulheres também podem desenvolver um negócio.

- Mas porque acha que as mulheres não participaram no evento geral?

V.L. - Acho que está relacionado com a ideia generalizada de que as StartUp são coisas de homens. É uma perceção que existe localmente. Foi por isso que também fizemos questão de trazer mentoras.

- Como vê o papel da mulher na sociedade local?

V.L. - Na minha carreira não sinto grandes ataques ou diferenças por ser mulher. Mas na minha família sim. Venho de uma família chinesa muito tradicional. Os meus pais e avós sempre disseram que, sendo mulher, não precisava de me preocupar muito, que só tinha de me focar em casar. E é uma coisa que me entristece muito. A minha família não se preocupa especialmente com a minha carreira, mas sobretudo em que tenha um bom casamento e família. É uma mentalidade mais conservadora e é por isso que me sinto melhor no trabalho, porque sinto que sou valorizada pelo que faço e dou à sociedade. Acho que a mentalidade está a mudar com a minha geração.

Perfil

Venus Loi tem 25 anos. Estudou Economia na Universidade de Durham, no norte de Inglaterra. Foi curadora da primeira edição do TEDxSenadoSquare, mas tem outros eventos no currículo. Além de ter trabalhado em vários TEDx no Reino Unido, organizou Startup Weekends, incluindo uma edição destinada às mulheres. Trabalhou como analista de dados e hoje está no departamento de relações entre a comunidade e o Governo de uma operadora de jogo. Foi uma das fundadoras da Associação Attic, criada no ano passado.

TEDx

O TEDx é um modelo do TED, que tem como objetivo promover debates sobre as mais diferentes áreas através de palestras de 18 minutos. Começou em 1984, na altura era apenas uma conferência dedicada à Tecnologia, Entretenimento e Design. Hoje alargou-se às mais diversas áreas - da ciência ao empreendedorismo - e é organizado em mais de 100 línguas. Em 2009, o TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) criou o TEDx, eventos locais e organizados de forma independente, que reúnem pessoas para partilhar ideias em palestras que também duram 18 minutos.

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