Premium "Começar por Macau foi definitivamente a melhor escolha"

Foi em Macau que se estreou na Ásia, com um concerto de sala cheia no âmbito das comemorações do 10 de Junho e mês de Portugal. Rui Massena arrancou da audiência aplausos e gargalhadas. Ao Oriente, trouxe composições dos três álbuns e humor. O PLATAFORMA falou com o artista português sobre o percurso versátil que tem feito e que já lhe valeu a alcunha de maestro pop.

- Diz não se importar com a etiqueta que lhe atribuíram de maestro pop. O que quer isto dizer na verdade?

Rui Massena - Agrada-me a ideia de comunicar com as pessoas. Gosto de levar a música às pessoas. Penso que é só isso.

- Apesar de assumir sem problemas essa etiqueta, a verdade é que quando ouvimos a sua música em nada se sente a presença do pop.

R.M. - A minha formação é clássica. Sou diretor de orquestra e portanto é natural que as minha referências sejam clássicas. A popularização das grandes obras é o desejável. É um prazer dar a conhecer ao maior número de pessoas obras tão belas e sábias. São as referências da história dos sons.

- Assume gostar de procurar novos caminhos e de não se limitar a um estilo. No último disco, traz a música eletrónica às suas composições. Parece uma mistura improvável.

R.M. - A curiosidade é uma obrigação de um artista. Gosto de procurar novos caminhos que me construam como compositor e músico. A ligação do acústico e do eletrónico é um grande desafio, e isso agradou-me.

- Tendo em conta o que tem feito, e sobretudo dadas estas misturas aparentemente inesperadas, sente-se um pioneiro na música, pelo menos em Portugal?

R.M. - Pioneiro? Claro que não. Temos uma história da música rica. Se me perguntar se tenho arriscado na fusão de diferentes mundos sonoros, sim. A Orquestra é um instrumento e não é a música. Desde 2000 que comecei a pensar em juntar universos sonoros diferentes criando mundos novos. Isso aproximou e familiarizou o público com a Orquestra.

- Já agora, quais são as suas referências e não me refiro apenas à música. Enquanto artista, o quê e quem o inspira? E por curiosidade, o que ouve em casa, no carro?

R.M. - Da Arte à Política existem muitas referências. Inspiram-me as pessoas que não são preconceituosas porque a história do preconceito construiu muros que ainda hoje tentamos destruir. No carro, muitas vezes vou em silêncio. De acordo com o meu estado de espírito ou até para o mudar, ouço diferentes artistas. Para correr ouço Bruno Mars, para relaxar ouço Sakamoto, Yiruma. Ao domingo de manhã gosto de ouvir Bach. E tantos outros...

- Há alguém que tenha sido fundamental no seu percurso artístico?

R.M. - Sim, os meus pais.

- Sente que mudou de certa forma a música clássica ou é já um resultado dessa mudança? É-lhe atribuída alguma responsabilidade de aproximar a música erudita das massas, por exemplo.

R.M. - Claro que já fiz o meu papel de aproximar a música erudita às comunidades onde estive a trabalhar. Qualquer programador o faz e eu, como diretor artístico de uma orquestra, ou programador da capital europeia da cultura, tinha essa função.

- Os seus discos foram top de vendas. A que acha que se deve? Retomo a ideia anterior: é um sucesso fruto da capacidade de o Rui fazer chegar uma música mais elitista às massas ou é o reflexo de uma sociedade que também hoje está mais aberta e preparada para ouvir outros estilos?

R.M. - Talvez uma ideia mais simples. Penso que a minha música chega às pessoas porque promove um slowdown, uma tranquilidade e emoção que a nossa sociedade atual necessita.

- O que trouxe a Macau?

R.M. - Tocamos canções dos meus três álbuns, com a formação de piano, violoncelo e violino.

- É a primeira vez que está e atua na Ásia.

R.M. - Adorei sentir a generosidade dos portugueses, dos macaenses e chineses. Esta foi a minha primeira vez na Ásia e começar por Macau foi definitivamente a melhor escolha!

- Que significado tem atuar nesta cidade, e mais numa data simbólica como o 10 de Junho?

R.M. - Significa transportar significado cultural de um Portugal

contemporâneo. A minha escolha preserva a diversidade cultural e artística. Essa é a matriz empática de Portugal. A Casa de Portugal, a Fundação Oriente, o Instituto Português do Oriente e o Consulado Geral de Portugal, juntamente com o Governo de Macau, fazem deste momento uma revisitação à importância de Portugal na construção da identidade de Macau.

- É uma data diretamente ligada à cultura e língua portuguesas. De que forma a identidade lusa tem tido influência no seu percurso enquanto artista, se é que teve?

R.M. - Somos indissociáveis da nossa língua materna. O nosso pensamento viaja com as cores que as palavras que cada língua nos traz. Por outro lado, hoje fazemos todos parte de uma cultura que não é apenas local, mas também global. O nosso trabalho é fruto dos dois.

- Defende o papel da arte junto da sociedade e das pessoas. Que impacto sente que tem ou procura ter no público?

R.M. - Comunico as minhas composições e tudo o que faço com emoção. A arte ajuda a sociedade a conhecer-se. Contempla a diferença e a diversidade e deve portanto estar acessível a todos, para a construção de uma sociedade mais elevada.

- Numa outra entrevista, referia que Lisboa e o Porto devem aspirar ser as novas Nova Iorques, e acrescentava que "Têm todas as condições, têm um povo que respira liberdade, que respira inspiração, boa onda". De que forma um ambiente com estas características, especialmente a liberdade, que enfatizo dado o período de retrocesso a regimes mais opressivos e reaparecimento de partidos extremistas por exemplo na Europa, pode ter na vida de um artista?

R.M. - Tem impacto na vida de todos. No geral, historicamente os artistas gostam de refletir e encontrar novas perspectivas sobre o mesmo lugar. A liberdade de pensamento e expressão não são direitos adquiridos. É preciso exercê-los com responsabilidade para que continuem a existir.

- Oscila entre várias frentes: a de maestro, compositor e intérprete? Há alguma que lhe dê especial prazer ou que se sinta mais cómodo?

R.M. - Em cada uma delas sou inteiro, e por isso a direção da orquestra, e as minhas composições tocadas ao piano, são para mim fontes de beleza e satisfação.

Perfil

Rui Massena é músico e compositor. Agora com 45 anos, toca piano desde os cinco, e é maestro desde os 27. Liderou, durante mais de uma década, 30 orquestras em 14 países. Foi o primeiro maestro português a dirigir no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Também foi Principal Maestro convidado na Orquestra Sinfónica de Roma, criou uma orquestra sinfónica -"Fundação Orquestra Estúdio" e foi escolhido para programador musical de "Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura". Durante 12 anos, foi ainda diretor artístico e maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira. Teve entrada direta para número um do top nacional de vendas português quando lançou o segundo álbum de originais "Ensemble ". Ouvido em mais de 60 países, foi escolhido pela editora Deutsche Grammophon - que identifica as tendências e talentos contemporâneos dos últimos 20 anos - como um talento contemporâneo mundial. Até agora conta com três álbuns de originais: "Solo", lançado em 2015, "Ensemble", em 2016, e "III", lançado no ano passado.

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