Premium Museu do Prado: projeto de rainha portuguesa faz 200 anos

A rainha portuguesa Maria Isabel de Bragança, impulsionadora da fundação do Museu do Prado, em Madrid.

A rainha portuguesa Maria Isabel de Bragança, impulsionadora da fundação do Museu do Prado, em Madrid.

  |  Museu do Prado

O Museu do Prado celebra nesta terça-feira 200 anos. As obras que ali estão refletem a história de Espanha, considera o artista Eugenio Ampudia. O projeto foi impulsionado pela mulher do rei espanhol Fernando VII, a rainha portuguesa Maria Isabel de Bragança.

Nesta terça-feira assinalam-se os 200 anos da abertura do Museu do Prado, em Madrid. O museu, que é a instituição cultural mais visitada de Espanha, tendo registado 2,9 milhões de entradas em 2018, foi em abril distinguido com o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades.

Inaugurado a 19 de novembro de 1819, o Museu do Prado apresenta uma coleção de cerca de oito mil pinturas, das quais 1700 estão expostas no Edifício Villanueva e mais de 3200 estão distribuídas por instituições culturais de Espanha. O edifício do Museu do Prado foi desenhado por Juan de Villanueva em 1785, por ordem de Carlos III, na altura para acolher o Gabinete de Ciências Naturais. No entanto, foi o neto de Carlos III, Fernando VII, que tomou a decisão de criar um Real Museu de Pintura e Escultura, impulsionado pela mulher, a rainha portuguesa Maria Isabel de Bragança.

Se há artista que conhece bem o Museu do Prado é Eugenio Ampudia. Nascido em Valladolid em 1958, Ampudia é um dos artistas espanhóis mais criativos da atualidade e já realizou obras em vários países, entre eles Portugal. Nos últimos anos realizou três vídeos artísticos dentro do museu - num deles passou uma noite a dormir ao lado de obras de arte, para outro levou um grupo de ciclistas para uma corrida nas várias salas do museu que é um dos principais depositários da memória pictórica ocidental e um ponto de referência da cultura espanhola.

É diferente trabalhar num projeto que se realiza no Museu do Prado?
Sim, trabalhar no interior do Prado é bem diferente. Estás num lugar que é património de todos mas estás sozinho, com a tua equipa. Foi uma sensação que todos adorámos. Mas, no meu caso, também foi muito complicado. O meu primeiro projeto era dormir uma noite no museu e escolhi fazê-lo debaixo do quadro Os Fuzilamentos do Três de Maio , de Goya, para explicar às pessoas que os museus e as instituições relacionadas com a cultura são de todos. Escolhi um saco de dormir vermelho e parecia mais um dos fuzilados.

E o seu segundo projeto no Prado também foi fora do vulgar...
Sim, foi uma corrida de motos pelo museu, sem as motos, logicamente. Quisemos evidenciar o que acontece com as indústrias turística e cultural. Parece que se estás em Madrid tens de visitar tudo, a correr, ver As Meninas e depois ir comer paella e ver dançar flamenco. E isto descontextualiza as coisas. Mostrámo-lo com uma corrida de velocidade onde aconteciam vários acidentes. As duas peças foram feitas em 2008 e a experiência foi muito boa.

Dez anos depois voltou a trabalhar no mesmo cenário.
Em julho deste ano contactaram-me, já com uma equipa nova à frente do museu. La Vuelta (a volta a Espanha em bicicleta) queria felicitar o Museu pelos 200 anos e pensaram em mim porque tinham gostado do vídeo das motos. Trabalharam 14 pessoas neste filme, foi um trabalho intenso.

É um artista de intervenção nos espaços. O que lhe transmite este museu?
É o exemplo do grande museu com raízes profundas no país onde se encontra. As obras que estão dentro do edifício refletem o que aconteceu aos espanhóis, e está muito bem contado. E está a evoluir muito bem. O museu está cada vez mais próximo dos cidadãos. Depois de dormir no Prado fiz o mesmo na Alhambra de Granada, no Palácio Nacional da Ajuda de Lisboa, na sua incrível biblioteca, no Palau da Música de Barcelona. O facto de o Prado me abrir as portas deu-me a possibilidade de chegar a outros lugares. O lugar transforma-se quando é ocupado, fica completamente diferente.

Como é que as experiências do Prado influenciaram a sua obra?
Os artistas trabalham com as ideias e misturam a sua própria vida no trabalho. Não somos nada sem viver. O Prado é realmente acolhedor. Como artista foi maravilhoso terem aceitado a minha ideia louca de dormir lá.

Gosta de ser perder no Prado?
Conheço muito bem o museu, já estive lá muitas vezes. Adoro ir, às vezes só para ver um ou dois quadros em concreto e vou-me embora. Tem quadros maravilhosos, não só as "joias" por todos conhecidas como As Meninas ou alguns Goya. Por exemplo, a Mona Lisa do Prado é maravilhosa, até melhor do que a original(risos).

Para realizar o último vídeo, os ciclistas passam pela frente de vários. Escolheu os mais significativos para si?
Para realizar este trabalho peguei imagens da corrida do ano anterior. E depois fomos rodar ao Prado apenas alguns planos. Foi então que projetei percursos pelo museu para passar por distintos quadros, alguns conhecidos e outros não tanto. Jogamos com as peças mais potentes, como As Meninas, os Tiziano ou Goya, e há peças íntimas. E podia mostrar outro Prado, os seus ícones são muito conhecidos. O resultado foi tão bom que tiveram de publicar o making of para garantir que os ciclistas não tinham estado lá.

É preciso um olhar profundo para descobrir bem o museu?
El Prado dever ser para todos. Cada um deve ir e tirar a sua própria conclusão.

O espaço inspira-o ou são as suas ideias as que adaptam-se ao espaço?
É uma mistura. O espaço onde se exibem as coisas traz possibilidades à peça e é fundamental. Não é igual expor num museu, na rua ou numa loja. As coisas são vistas de forma distinta. Tento estar próximo do público e por isso utilizo imagem e movimento, instalações, aproximo a ideia ao espectador e misturo-a com a sua própria vida e com o espaço que habita.

Já são vários os projetos feitos em Portugal. Vai continuar presente no território luso?
Portugal para mim é como estar em casa e sim, estou a trabalhar em distintos projetos que vão ver a luz nos próximos meses mas que não posso adiantar.

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