"Nós, que vivemos a Revolução Cultural, estávamos destinados a ser pioneiros"

"Nós, que vivemos a Revolução Cultural, estávamos destinados a ser pioneiros"

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Em 1983, após trabalhar como dentista durante cinco anos na pequena cidade de Haiyan, em Zhejiang, Yu Hua decide começar a escrever. Inicialmente fê-lo para fugir à repetição de arrancar dentes todos os dias. Queria uma rotina mais livre de horários fixos e que não tivesse de picar o ponto num consultório diariamente.

Tinham passado oito anos desde o fim da Revolução Cultural, e na literatura chinesa já se tinham desenvolvido três correntes: a literatura de cicatriz, literatura de introspeção e literatura "Xungen". Apesar do aparecimento de muitas correntes em pouco tempo, para Yu Hua a literatura da altura continuava a ser muito monótona, uma vez que vários autores, de várias origens, escreviam usando a mesma fórmula. Yu Hua queria trazer à literatura chinesa uma nova linguagem e estilo literários. Juntamente com Mo Yan, Su Tong e Ge Fei - que hoje são nomes incontornáveis da literatura contemporânea chinesa - criava na altura uma nova corrente conhecida por "literatura avant-garde".

"Foi um estilo inovador, queríamos mudar a forma de escrever", comentou Yu Hua durante uma conferência que teve lugar no domingo na livraria Gree Costa, em Zhuhai. "Embora não nos conhecêssemos, começámos a escrever ao mesmo tempo e tornámo-nos um grupo."

"O editor da revista Harvest, Cheng Yongxin, disse-me uma vez que os textos que enviávamos eram como uma lufada de ar fresco. Pensando agora no assunto, realmente estávamos à frente no tempo. Por exemplo, a obra que me deu a conhecer ao mundo, "Leaving Home at Eighteen" foi escrita quando tinha 27 anos. Su Tong ficou conhecido mais ou menos na mesma altura, com apenas 24 anos, e Ge Fei ficou célebre aos 23. Com 32 anos publiquei "Viver". Acho que a nossa geração de autores que viveu a Revolução Cultural estava destinada a ser pioneira."

"Viver" é uma das obras mais importantes e influentes de Yu Hua. Desde a publicação em 1993, atingiu o nível de best-seller tanto a nível nacional como internacional, com mais de 20 milhões de cópias publicadas até ao momento. A obra foi também adaptada para cinema por Zhang Yimou, e estreou em 1994. O filme recebeu dois prémios no Festival de Cannes e no mesmo ano foi banido no Continente, o que ajudou a que Yu Hua e a obra original ficassem conhecidos mundialmente. Yu Hua sempre diz: "Viver" é o meu livro da sorte, e "Irmãos" ("Brothers") é a obra que me representa".

"Essa obra reflete melhor a minha experiência de vida ao longo dessas duas eras, a Revolução Cultural e a atualidade." O autor acrescenta: "Por ter nascido em 1960, vivi a minha adolescência durante a Revolução Cultural. Li Guangtou e Song Gang (protagonistas do livro) de certa forma refletem a minha vida e experiência nessa altura."

Em relação ao processo criativo desta obra, Yu Hua refere: "Era uma época em que viajava regularmente para o estrangeiro e passava muito tempo com amigos estrangeiros. Tinham muito interesse no meu passado, no passado da China e na atualidade, tal como eu tinha interesse em compreender o passado e o presente deles. Foi assim que me dei conta que o passado e presente do ocidente eram simplesmente a diferença entre o ontem e o hoje. Enquanto que o nosso passado e presente têm um intervalo de 400 anos entre si. Para mim foi uma sorte ter a oportunidade de escrever uma história destas, e foi assim que comecei a escrever Brothers."

"Quando "Irmãos" foi publicado, várias pessoas acharam o livro absurdo. Admito que exagerei em algumas partes, mas na minha opinião é uma representação bastante realista da sociedade chinesa da altura. Muitas situações absurdas aconteceram durante estes 30 anos de desenvolvimento, e se não fosse pela surpresa que notei nos olhos de estrangeiros a ouvir estas histórias talvez não tivesse voltado para escrever este livro."

Em abril de 2019, Yu Hua aceitou oficialmente a oferta da Universidade Normal de Pequim para dar aulas. No dia 13 do mesmo mês, durante a cerimónia no campus desta universidade em Zhuhai, Mo Yan, grande amigo de Yu Hua, vencedor do prémio Nobel da Literatura e diretor do Centro de Literatura Internacional da universidade, afirmou que Yu Hua é um escritor extremamente sério: "Publicou metade do que publiquei, mas tem o dobro da minha influência literária. É um escritor que está disposto a trabalhar durante 10 anos para publicar uma obra", dizia, referindo-se ao romance "Irmãos" que levou uma década para ser publicado.

Yu Hua retribuiu a simpatia para com Mo Yan e sublinhou como o escritor inspirou a corrente literária avant-garde na China. "Quando li a sua obra "O Rabanete de Cristal", algo despertou em mim. Na altura estava também a ler uma obra de Kafka que me fez descobri uma nova forma de escrever. Kafka foi como uma nova porta que Mo Yan me ajudou a abrir. Talvez fosse assustador para mim, mas Mo Yan inspirou-me a fazê-lo. É um verdadeiro pioneiro."

Por agora, Yu Hua tem-se dedicado a reescrever as obras que deixou inacabadas. Embora nos anos 90 tenha mudado para um estilo mais realista, objetivo e pacífico na descrição da condição humana, sem julgamentos, o escritor continua a acreditar que a sua escrita transparece sempre o espírito vanguarda que marca a corrente literária chinesa avant-garde.

"Um bom escritor deve sempre tentar estar à frente do seu tempo. Nunca estamos satisfeitos com o que escrevemos, queremos sempre enveredar por um caminho que desconhecemos."

"Gosto sempre de me ver como um pioneiro. As minhas obras mais recentes, romances e prosas, são sempre uma forma de procurar algo novo. Para mim um pioneiro é isso. Mas o mais importante é que um escritor preserve sempre curiosidade perante o mundo, e que queira sempre ver e entender o que o rodeia. Esta atitude pode até não estar relacionada com a escrita, mas quando começo a escrever, vai ser naturalmente transportada para a página e dar origem a uma nova narrativa."

"Este espírito pioneiro faz parte da minha memória da juventude. Quero manter esse espírito vivo, apesar do envelhecimento."

Yu Hua em português

Entre as obras de Yu Hua, "Viver", "Crónica de um Vendedor de Sangue" e "China em Dez Palavras" foram já publicados em Portugal pela editora independente Relógio d"água. As últimas duas obras foram traduzidas diretamente do chinês por Tiago Nabais. Esta é a principal diferença em relação às traduções no Brasil, que foram feitas a partir das versões em inglês e francês. No caso da tradução publicada em Portugal, o tradutor trabalhou a partir da versão chinesa para conseguir reduzir ao mínimo a distância entre o estilo original e a tradução. Tiago Nabais partilhou com o PLATAFRMA que embora haja pouco conhecimento sobre a literatura chinesa contemporânea em Portugal, os três livros venderam bastante bem, e tiveram boas avaliações em vários jornais e blogues. De longe a obra que mais vende, disse o tradutor, é "China em Dez Palavras", porque interessa não só o leitor que gosta de literatura como ao curioso sobre a China. Tiago Nabais acredita que as obras são acessíveis ao público português. "Embora tenham a China como cenário, os personagens criadas pelo autor são humanas, e por isso é fácil para qualquer um de nós criar uma empatia forte com a sua situação e obstáculos que enfrentam". Tiago Nabais está neste momento a trabalhar na tradução de outro famoso autor contemporâneo, Yan Liangke, mas garante que vai continuar a traduzir Yu Hua em português.

Biografia

Yu Hua, nascido em abril de 1960, foi dentista durante cinco anos. Dsde 1983 que se dedica à escrita a tempo inteiro. Tem publicados cinco romances, seis coleções de contos e cinco de ensaios. Entre as suas obras mais importantes destacam-se "Irmãos", "Viver", "Crónica de um Vendedor de Sangue", "Gritos entre Chuviscos", "O Sétimo Dia" e "China em Dez Palavras". Yu Hua recebeu diversos prémios e distinções internacionais, incluindo o Prémio Grinzane Cavour (1998), Chevalier de l"Ordredes Arts et des Lettres (2004), Prix Courrier International (2008) e Giuseppe Acerbi Literary International Prize (2014). Em 2002, tornou-se o primeiro escritor chinês a receber o James Joyce Foundation Award.

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