Premium Joumana Haddad: "As mulheres deveriam livrar-se da virgindade à nascença"

Joumana Haddad

Escolheu O Super-Homem É Árabe para título do seu livro sobre discriminação das mulheres. Antes fora Eu Matei Sherazade... É considerada uma das mulheres árabes mais influentes.

Considera-se antes de mais poeta, mas foi no ativismo social que a libanesa Joumana Haddad se tornou uma das cem mulheres árabes mais poderosas do mundo. Fundou a revista Jasad (Corpo) e já publicou vários livros sob a condição feminina. Veio a Lisboa lançar O Super-Homem É Árabe após já ter publicado Eu Matei Sherazade. Livros onde se expõe sem censura num diálogo sobre os males do mundo árabe e nos quais questiona tudo o que impede mulheres e homens de serem felizes e agirem corretamente com o outro género. O subtítulo do seu mais recente livro diz tudo: Sobre Deus, o Casamento, o Machão e Outras Invenções Desastrosas.

Disse em tempos que era a mulher "mais detestada" no Líbano...

Não é por acaso, é que quando se é principalmente uma pessoa interessada em defender os direitos humanos no mundo, se está convencida de que a liberdade é um dos mais importantes elementos da vida, se tem valores como a igualdade e a justiça social e se sobre isto se põe o facto de se ser uma mulher que diz o que pensa, obviamente que estarei a viver num país que me detesta. No entanto, também vivo num país em que muita gente me apoia e dá força para continuar a lutar. Se não fosse assim, talvez tivesse desistido há muito tempo.

Quem a apoia mais: homens ou mulheres?

Tenho apoiantes nos dois lados, não é uma questão de género. São muitos os homens que também acham que mais mulheres deveriam estar envolvidas na afirmação destes valores e acham que os represento, porque a dignidade feminina não é só benéfica para as mulheres.

Define-se fundamentalmente como poeta. Tal é compatível com a luta política e com livros como este O Super-Homem É Árabe?

Sem dúvida, porque creio que até na política são precisas pessoas com os valores essenciais da vida, que respeitam a realidade e vão direto ao que interessa. A poesia também é a liberdade, a verdade e a coragem de não fazer negociações. Nunca me senti em contradição quando faço política ou ativismo, diria mesmo que é com o fogo da poeta, tal como quando escrevo faço-o com a paixão de quem se preocupa com o mundo.

Foi candidata nas eleições parlamentares em 2018. Venceu, mas não exerce. Porquê?

Ganhei, foi anunciado nos noticiários e tudo, mas na manhã seguinte tinha perdido o mandato à revelia. Houve uma grande manifestação em frente ao Ministério do Interior contra os responsáveis, mas como o podiam fazer fiquei de fora. Não queriam alguém como eu no Parlamento a ver o que estavam a fazer.

A política e a escrita seriam conciliáveis?

Pensei muito nisso antes de apresentar a candidatura e começar a campanha. Achei que roubaria algum tempo à minha escrita, mas era algo em que estava mesmo interessada fazer porque a nossa vida no Líbano é muito corrupta, patriarcal e só quase temos homens [seis mulheres contra 128] no Parlamento - que está cheio de mentiras por parte de pessoas que estão mais interessadas em negociar às escondidas. A religião tomou conta da política, portanto pessoas como eu, seculares, a favor da igualdade, LGBT e da dignidade humana, não podem ter um lugar na política. Não acredito que a política me contaminasse, sinto que seria mais eu a contribuir positivamente para melhorar o nosso cenário político.

Como escolhe as suas batalhas?

Dou prioridade à dignidade humana, portanto a partir daí tudo o que lhe diz respeito é uma luta para mim: as nossas vidas serem melhores, contra o racismo, a discriminação, a opressão e o sexismo. Não me sinto a lutar por várias causas mas apenas por uma única. O meu ideal é um mundo onde se é um verdadeiro cidadão, mas isso, num país como o Líbano, ainda está bem longe.

A religião é o grande problema?

Para mim é o problema principal, não apenas por ser religião mas o modo como interfere com a nossa vida pessoal e coletiva. Não existe uma lei civil para o casamento e o divórcio, tudo depende da lei de cada religião. Nunca poderemos ser iguais assim.

A Primavera Árabe não resolveu nada?

Em Eu Matei Sherazade , que foi publicado durante essa época, escrevi que não era bem uma primavera pois os islamistas iriam raptar a revolução. Não duvido das intenções das pessoas que foram para as ruas protestar, exigir os seus direitos e uma vida melhor, mas era óbvio que em vez de um ditador iríamos ter um regime islâmico. Éramos forçados a escolher perante dois monstros: um ditador de um lado e o islão do outro. E essa era uma escolha péssima.

Escreve na primeira pessoa. É a sua experiência ou o melhor para chegar ao leitor?

Cada autor tem uma forma diferente de escrever e para mim foi sempre mais fácil estar a conversar com o leitor. Além de que foi sempre sobre mim, nunca tive medo de me expor nem senti que fosse uma forma negativa de narcisismo. Queria partilhar a minha opinião e descobri que a minha experiência era universal e com muito em comum com outros pessoas. Perguntei-me: quem estará interessado? A correspondência que recebi de todo o mundo mostrou que estava certa. Nunca serei capaz de escrever de forma impessoal, até porque não acredito na objetividade. Enquanto pessoa, tentar ser objetivo é uma fraude.

As suas ideias alguma vez mudaram de um livro para o outro?

Posso mudar e tenho esse direito, mas até agora isso não aconteceu. O que se passa é que no momento de escrever sou sempre muito sincera. Não minto.

E não se sente o peso da autocensura?

Escrevo tudo o que quero. Já me perguntaram se não fico embaraçada perante os meus filhos ou o meu pai com certas coisas que escrevo, mas se isso acontecesse não poderia continuar a fazê-lo. Quero ser completamente livre e este é o meu espaço, onde não tento embelezar ou mentir.

Nota-se neste livro uma vontade de provocar. É intencional?

Gosto de provocar. Não é o objetivo principal, aliás se fosse sueca não seria provocadora porque isso não me seria exigido. Acham que provoco, mas não me importo com esta atitude. Acredito nesse método para abanar as pessoas e é o meu estilo.

Defende que as mulheres deveriam perder a virgindade mal nascem. É a solução para menos discriminação?

Deveria ser imediato, como fazem com a circuncisão nos rapazes. É um fardo gigantesco para a vida das mulheres, pois tudo está relacionado com a virgindade da mulher - a honra da família, a sua própria honra e valor como pessoa. O resto não importa na mulher. Penso que as mulheres deveriam livrar-se da virgindade ao nascer porque só assim seríamos seres humanos normais em vez de os homens escolherem a mulher porque é virgem e não porque gostam. E isto não se passa só no mundo árabe, mesmo na Europa já foi muito assim.

Quando trata das mães solteiras diz que se não forem casadas são consideradas putas.

Não é possível ser-se mãe solteira no Líbano porque é contra a lei. Se uma mulher tiver um filho sem estar casada, mesmo que seja divorciada ou viúva, é uma puta. Não pode ser mãe sem estar casada, nem pode registar o filho sem o pai, ou será um bastardo.

É muito crítica no que respeita às mães, irmãs e mulheres que apoiam a repressão masculina. Esse comportamento acabará?

Sou contra, sim. Quanto a acabar, creio que falta muito tempo - isso também acontece no Ocidente -, além de que quando houver mais equilíbrio a situação será diferente; ou quando respeitarem mais os homens decentes do que os machos alfa. O pior é que vejo muitas mulheres mais atraídas por machos do que por homens decentes.

Como vê o movimento #MeToo?

É muito bom para que as mulheres possam revelar que foram vítimas sexuais, mesmo que me aflija que tenham demorado tanto tempo a dizer e só agora o fizessem, quando atrizes famosas falaram.

Conclui que o Super-Homem é árabe. É apenas árabe?

Não, claro. Eu já vi super-homens em Itália, Espanha, França, México... até Donald Trump se achará um super-homem. Há machos por todo o lado a pensar que mandam no mundo, mas pouco a pouco iremos ganhando esta guerra, começando por educar os nossos filhos de uma forma diferente.

Onde está a Mulher-Maravilha?

Gosto dela desde pequena porque é uma das primeiras super-heroínas femininas.

O Super-Homem É Árabe

Joumana Haddad

Sibila Publicações

Relacionadas

Exclusivos