Vitalina Varela, um rosto para amar

Vitalina Varela, um rosto para amar

O filme que valeu a Pedro Costa o Leopardo de Ouro, e à sua atriz, Vitalina Varela, o Leopardo de Prata, chega às salas portuguesas coberto de prestígio internacional - este justifica-se perante o colosso de amor colhido pela lente do cineasta.

Na sua chegada noturna a Lisboa, uma mulher cabo-verdiana, de olhos grandes e intensos, desce de pé descalço as escadas metálicas do avião. Não chegou a tempo do funeral do marido, que se enterrou há três dias, e, ainda mal pisou o chão, já outras mulheres lhe estão a dizer para voltar para trás, que não há nada para ela neste lugar. O seu nome é Vitalina Varela e dá título ao filme que Pedro Costa realizou tomando a sua presença magnética como pedra angular. Aqui, ela conta a sua história, narra-se a si própria, entre a vulnerabilidade do luto e o estoicismo da postura.

Se a dita entrada forte que tem no filme parece assinalar um momento inaugural, só o é simbolicamente. Na verdade, não se trata da primeira vez que deparamos com Vitalina no cosmos do cinema de Pedro Costa. Foi, sim, no anterior Cavalo Dinheiro (2014) que ela ofereceu uma nova página à narrativa dos imigrantes cabo-verdianos que tem vindo a moldar a fase mais recente da obra do cineasta (esta, só por si, em contínua correspondência interna). E já então a robustez do seu semblante, ao lado do de Ventura - outra "personagem" fundamental deste universo -, fazia adivinhar a necessidade de um capítulo à parte. Ela tinha ali um filme anunciado. Por isso mesmo, Vitalina Varela, que deu ao realizador um dos prémios máximos atribuídos ao cinema português, só poderia intitular-se assim, distinguindo a figura mágica, de carne e osso, que está no seu centro - esta, igualmente galardoada.

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