"Só podemos escolher os filmes aprovados pelo Continente"

Actors and Directors / writers at the Ivy Club in WC2 for Screen International magazine's Star of Tomorrow special issue, 8th June 2010 Commissioned by Peter Gingell for Screen International

O diretor do Festival Internacional de Cinema garante que há liberdade na programação, apesar de condicionada. Mike Goodridge assume que gostaria de trazer filmes e artistas censurados. No balanço da última edição, mostra-se satisfeito e pede tempo para que o evento cumpra o objetivo de ser um intermediário entre as indústrias da China e do ocidente.

- Que balanço faz da edição?

Mike Goodridge - Estou bastante satisfeito. Senti que a cidade está mais atenta e é o meu principal objetivo.

- No que melhorou?

M.G. - Na escolha do que devemos programar, passámos mais filmes chineses. Também acho que melhorámos muito na forma como chegámos e incluímos a comunidade cinematográfica local.

- Porque decidiram criar uma secção só dedicada ao Novo Cinema Chinês?

M.G. - A ideia é mostrar o que achamos ser alguns dos melhores filmes chineses do ano porque é uma das regiões mais vibrantes no mundo nesta área.

- Porque aplicam critérios diferentes? Não acaba por desvalorizar os filmes e os realizadores?

M.G. - Os filmes não entram na competição internacional porque a maioria não seria elegível tendo em conta que não são primeiras ou segundas obras. Não queremos criar um gueto ou isolar o cinema chinês, mas queríamos ter uma secção dedicada a este cinema. Não nos preocupamos se os filmes já estrearam. Queremos dar-lhes um espaço.

- A diretora do Turismo, Helena de Senna Fernandes, disse que a secção "é dedicada aos filmes que utilizam a língua chinesa" e que "podem ser outros dialetos chineses". Imaginemos que há candidaturas com filmes falados nos dialetos de minorias, como o dos uigures, poderia ser um problema?

M.G. - Não há candidaturas. Nós é que selecionamos os filmes. Mas olhamos para tudo. Não digo automaticamente que não programaríamos esses filmes. Qualquer região está incluída, apesar de darmos preferência aos filmes falados em mandarim e cantonês. Este ano não tivemos filmes em cantonês. Foi uma pena.

- Helena de Senna Fernandes também referiu que o festival tem como fim "criar uma plataforma para fazer avançar as indústrias criativas de Macau" e ser uma "plataforma de intercâmbio entre o ocidente e as nossas produções". O que tem sido feito?

M.G. - O festival tem um enorme potencial como plataforma para a indústria local mostrar o que faz. Macau não tem muita produção própria, mas mostrámos dois filmes locais: Nobody Nose e Hotel Império. O que pretendemos também é encorajar, e criar um momento estratégico e construtivo nas carreiras dos realizadores locais. Já produzimos curtas com equipas daqui. Também organizamos o Project Market Awards- que acontece em muitos festivais - em que pomos em contacto produtores e projetos. Há produtoras e distribuidoras internacionais que vêm com o objetivo de realizar um filme. O prémio deste ano foi de 15 mil dólares norte-americanos e foi atribuído a um filme de Macau, de Tracy Choi. Parece suspeito mas não houve qualquer interferência. Eu próprio questionei o júri se a decisão era imparcial e legítima.

- E no que diz respeito ao festival ser uma plataforma entre os países de língua portuguesa e o Continente?

M.G. - Tivemos alguns filmes portugueses - como o Hotel Império e o Diamantino - e queremos trabalhar mais no sentido de chegar à comunidade portuguesa. Mas tudo isso se consegue de uma forma mais orgânica e subtil. Já estou na indústria há muitos anos e perdi a conta a quantos festivais dizem ser uma "porta para a China".

- Exato. Tornou-se um slogan que as pessoas não percebem se e como está a ser materializado.

M.G. - Estou consciente disso. Macau é uma região autónoma. Estamos perfeitamente posicionados para trazer o ocidente aqui para conhecer uma indústria e criar um diálogo. Não prometemos que se vai conseguir financiamento das grandes produtoras da China. Mas, devagar, vamos tornar-nos numa plataforma muito importante entre o ocidente e o oriente porque podemos passar filmes que não podem passar no Continente, porque podemos ter convidados que não iriam ao Continente, não porque não quisessem mas porque não há eventos como estes. Podemos de facto ser um evento internacional. Quando aceitei a posição, questionei se havia mesmo necessidade de ter um festival em Macau ou se estavam a organizar um evento só para ter aqui estrelas de cinema. Convenceram-me de que queriam mesmo um festival internacional, o que é bastante inteligente na verdade. Macau pode trazer a indústria e convidados internacionais. Apesar de sermos uma cidade do Continente, somos uma região especial, não temos as mesmas regras que existem na China Continental. Somos um festival internacional, no qual se tem acesso a filmes e a realizadores chineses.

- Tendo em conta a concorrência, de que forma pode o festival impor-se?

M.G. - Temos de conseguir criar uma identidade. Cannes, Sundance, Berlim e Toronto são festivais onde se vêem estreias mundiais. Não podemos fazer isso, mas também não queremos. Temos várias metas e uma delas é aumentar a audiência. Macau é um sítio muito especial que as pessoas querem visitar. Se pensarmos em grandes festivais, como o de Veneza e de Cannes, acontecem em cidades lindas, onde as pessoas querem ir. Macau é esse sítio.

- É mesmo?

M.G. - Disse isto em Hong Kong e riram-se de mim. Para o ocidente, Macau é misterioso, romântico e intrigante. Não pela parte dos casinos, mas pela parte antiga, da história como cidade de contrabando, das pessoas, da arquitetura linda portuguesa. Claro que agora tem outra dimensão que é essa dos casinos e do jogo, mas mesmo essa é misteriosa, especialmente porque é muito diferente de Las Vegas.

- Em que sentido?

M.G. - No ambiente. Não é uma cidade de festa como Las Vegas. As pessoas vão a Vegas para beber, dançar e sair. Aqui, leva-se o jogo a sério, não vemos ninguém beber quando joga. É outra cultura. É fascinante. Portanto, há algo sobre Macau que é muito especial e único. É um bocado da China, um bocado de Portugal, depois tem esta dimensão dos casinos. Ficaria surpreendida como as pessoas ficam mesmo interessadas em Macau.

- Quando diz que é diretor de um festival de Macau o que lhe dizem?

M.G. - Acho que a perceção está a mudar. Temos apostado em publicações internacionais, como a Variety, e começamos a ser cada vez mais conhecidos. Toda a gente sabe que um festival precisa de cerca de dez anos para se afirmar e para ser levado a sério. Estamos a trabalhar nesse sentido, e estamos a crescer.

- Mas de que forma gostaria que o festival fosse conhecido, mais comercial, independente?

M.G. - Todos os festivais são uma combinação de ambos. Têm de ter os grandes filmes comerciais e estrelas de cinema para atrair as pessoas e levarem-nas a assistir a filmes mais experimentais. O objetivo tem de ser atrair espetadores e fazer com que pelo menos pensem: "Vou dar uma oportunidade àquele filme" porque confiam na programação. Ao mesmo tempo, têm oportunidade de ver grandes produções.

- A programadora Lorna Tee referiu que é difícil atrair audiência para os filmes portugueses. O que está a falhar? Há tendência para a audiência de Macau só consumir o que é local ou da China?

M.G. - Não acredito. No que diz respeito aos portugueses, queremos mesmo passar o que foi feito no ano anterior com relevância e que os portugueses não tiveram oportunidade de ver. O primeiro mercado são os portugueses em Macau.

- Mas o objetivo não deveria ser chegar a toda gente, independentemente da nacionalidade dos filmes e da audiência?

M.G. - Claro.

- Referiu que um dos grandes desafios do ano passado foi atrair público e que queria lotar as salas este ano.

M.G. - Conseguimos melhorar, mas como referi, um festival precisa de alguns anos. Macau tem um calendário cheio. Encaro um festival de cinema como um presente. A minha ambição é que a audiência o encare também e possa tirar o máximo proveito. Mas demora até que comece a confiar. Helena de Senna Fernandes é muito correta na forma como conduz o projeto. Não temos nada prédefinido, o júri é imparcial, não fazemos pressão para que certos filmes ganhem, a seleção é completamente livre. É com estas garantias que conseguimos conquistar a confiança da população.

- Referiu que têm total liberdade na programação. Existe mesmo ou nem é colocada à prova tendo em conta que sabem que realizadores ou filmes poderiam ser polémicos? Trariam artistas e obras que são censurados no Continente?

M.G. - Só podemos escolher e passar os filmes que têm o dragon seal, o que significa que foram aprovados pelas autoridades do continente. Há filmes que gostaria de passar? Sim, uns quantos. Mas é um facto que não podemos fazê-lo assim como Hong Kong.

- Como vê o desenvolvimento do cinema na China?

M.G. - O cinema chinês é realmente extraordinário, neste momento. É um país com 1,3 mil milhões de habitantes. Só podia ser. Vi muitas histórias interessantes este ano e filmes que contam histórias autênticas sobre a vida real na China Continental. Num país com tantas restrições ao nível dos conteúdos, continua a haver artistas fabulosos que conseguem trabalhar dentro desses parâmetros, o que acaba por ser ainda mais desafiante.

- O orçamento deste ano foi de 55 milhões, sendo que 20 milhões são do Governo.

M.G. - Apenas tenho conhecimento do orçamento para programação.

- Quanto é? É suficiente?

M.G. - Não vou revelar quanto é. Queremos sempre mais porque queremos ter os melhores recursos. Parece muito dinheiro e é, mas tendo em conta que temos muitos convidados de todo o mundo, gastos com os filmes e material, acaba por ser um orçamento curto. Mas trabalhamos com o que temos.

- O que gostaria de melhorar no próximo ano?

M.G. - Conquistar mais audiência. E gostava de passar mais filmes de Macau e que tenham Macau como cenário.

- Pode ser uma das novidades?

M.G. - Quem sabe. Tenho de pensar numa proposta.

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