Fábricas americanas comandadas por chineses ou o choque entre duas civilizações

O que aconteceu quando uma empresa chinesa assumiu o controle de uma fábrica abandonada da General Motors nos EUA? Este é o mote para o documentário 'American Factory', vencedor de um Óscar e já considerado como um recado de Hollywood para a administração de Donald Trump, já que foi produzido pela Higher Ground, empresa de Barack e Michelle Obama.

'American Factory' mostra a vida de milhares de trabalhadores despedidos de uma fábrica de montagem de automóveis em Moraine, Ohio, na crise económica de 2008, e que alguns deles, passados seis anos foram contratados pela empresa chinesa Fuyao Glass America para fabricar vidros para automóveis na mesma fábrica.

Em 2010 Cao Dewang, responsável da chinesa Fuyao Glass Industry Group decidiu investir na fábrica e levou consigo muitos trabalhadores chineses, aos quais se juntaram vários americanos que haviam sido despedidos da General Motors.

É este choque entre as duas culturas em termos laborais e o que sentem os empregados chineses e americanos que este documentário, com cerca de uma e meia de duração, retrata de uma forma mais profunda.

De acordo com Dewang, a fábrica contaria com trabalhadores americanos ajudados por 200 trabalhadores trazidos da China para, segundo explica o dono, mudar a maneira como os americanos veem os chineses, e demonstrar que eles poderiam trabalhar juntos em harmonia.

Mas, desde a sua estreia que o documentário tem levantado a discussão nas redes sociais chinesas e já deu origem a dezenas de análises, promovendo o debate sobre a globalização, as diferenças culturais, a automação e os direitos dos trabalhadores, noticia a MSN Money.

O documentário, que estreou na plataforma Netflix, começa com um tom otimista, mas o choque de culturas de trabalho - especialmente na questão da sindicalização - depressa toma conta do ambiente da fábrica.

As complexidades do tema são evidentes nas reações provocadas na China, numa mistura de auto reflexão e defesa, em tempos marcados pela guerra comercial com os EUA e que não mostra sinais de fim.

O choque entre os trabalhadores americanos e as chefias chinesas mostradas no documentário pode ter por base os diferentes modelos de negócio que ambos os países promovem, escreveu Liu Run, na sua plataforma We Chat, que teve mais de 40 mil visualizações. O mesmo adiantou que a postura insensível da administração da Fuyao justificava-se pelo facto de o sucesso da fábrica depender apenas da minimização dos custos, ao invés do investimento em inovação.

Em várias publicações e comentários, os internautas chineses dissecaram as diferenças entre trabalhadores americanos e chineses. No documentário, os primeiros queixam-se das longas horas de trabalho e expressam preocupações com os riscos de segurança e proteção ambiental, levando-os a formar um sindicato. Enquanto isso, os trabalhadores chineses trabalham mais horas, prestam pouca atenção à segurança e oferecem pouca resistência aos pedidos dos chefes.

"Quando os esforços de sindicalização falharam, o trabalhadores chineses pareceram ficar ainda mais felizes do que os chefes", disse Joe Zhou, que trabalha no setor dos media, acrescentando que "têm Síndrome de Estocolmo".

Na China, todas as empresas têm um sindicato de trabalhadores. Mas essas organizações não estão diretamente envolvidas na negociação de salários e benefícios. O seu principal objetivo é planear atividades em grupo e distribuir presentes em épocas festivas. No caso da Fuyao, o sindicato é liderado pelo cunhado do presidente, que descreve a organização e a empresa como "duas engrenagens que rodam juntas".

Os media sob a tutela do governo enquadraram o documentário diretamente na longa disputa comercial entre a China e os EUA, usando-o para reforçar os argumentos de que os EUA precisam de investimento chinês para criar empregos e que uma dissociação económica é insustentável.

A emissora estatal CCTV publicou um artigo nas suas redes sociais, apontando o papel crucial que Ohio desempenhou na vitória eleitoral de Donald Trump, em 2016, e de como o atual presidente norte-americano prometeu trazer mais postos de trabalho para o estado. "No entanto, a General Motors fechou outra grande fábrica no estado no início deste ano", escreveu a CCTV. "Mais ironicamente, as tensões comerciais levaram a uma queda acentuada do investimento chinês nos EUA, tornando as "fábricas americanas" como a Fuyao numa das poucas linhas de vida importantes da região".

O documentário está a ter um "papel positivo" numa tentativa de ajudar as duas nações a chegarem a um entendimento, defendeu a agência noticiosa Xinhua. Os países ainda carecem de um entendimento mútuo e, comparando com a retórica de "dissociação" e um "choque de civilizações", um filme focado na cooperação e comunicação entre os EUA e a China é "oportuno, realista e significativo".

"O sentimento é muito complicado. Ainda aprecio o quão diligentes e organizados são os nossos trabalhadores chineses, mas, por outro lado, também sinto empatia pelos trabalhadores americanos que pedem mais direitos e proteção", disse Zhang Ming, que transmitiu o documentário num site chinês, onde foi visto mais de 700 mil vezes.

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