Premium No atelier de José Pedro Croft a ver nascer a Bienal Anozero 2019

A próxima bienal de arte contemporânea de Coimbra só chega no princípio de novembro, mas já há muito trabalho em curso. O Plataforma assistiu à primeira visita que o curador Agnaldo Farias fez ao atelier de José Pedro Croft, no Bairro de Alvalade, em Lisboa.

Durante mais de uma hora, o artista português abriu gavetas, retirou águas-tinta, revelou gravuras, mostrou fotografias, socorreu-se do iPad. Trabalhos seus, desde a década de 90 até aos dias de hoje, desfilaram perante o olhar atento de Agnaldo Farias, o curador brasileiro responsável pela terceira edição do projeto Anozero, a bienal de arte contemporânea que em 2019 irá povoar Coimbra, contribuindo para dinamizar a cidade que em junho de 2013 ganhou o selo de Património da Humanidade da UNESCO.

Acompanhado dos curadores adjuntos Lígia Afonso e Nuno de Brito Rocha, Agnaldo Farias foi observando, lançando perguntas, fazendo leituras sobre os trabalhos e querendo saber mais sobre o processo criativo de José Pedro Croft, artista em destaque na bienal que tem como tema "A Terceira Margem", a partir do conto de João Guimarães Rosa "A Terceira Margem do Rio".

Uma água-tinta sobre metal foi a primeira obra a sair de uma das enormes gavetas nas quais José Pedro Croft guarda os seus trabalhos no atelier. Uma das muitas de grande dimensão que formam séries, o tipo de trabalho que José Pedro Croft confessa ser o seu trabalho preferido.

Com a ajuda de Carlos Antunes, diretor da Bienal de Arte Contemporânea, surgem também provas fotográficas da instalação terminada em maio de 2018 pelo artista na Barragem do Baixo Sabor, em Portugal. Oportunidade para falar sobre as dificuldades de instalação das peças, com mais de duas toneladas cada uma, com 3 metros de largura por 6 de altura. "As fundações tiveram de se ir buscar a 20 metros de profundidade. Ainda por cima, toda esta paisagem que é ardósia, que tinha sido modelada com dinamite", conta José Pedro Croft.

Da paisagem bruta do rio Douro, Croft passa para o Brasil mostrando no iPad a peça que idealizou para o jardim da casa do empresário Almeida Braga. "Foi uma obra complicada de fazer porque estes vidros não têm deformação planimétrica, tiveram de ser feitos na Europa".

Depois de mostrar os seus projetos mais recentes, tempo para os curadores tentarem perceber melhor o trabalho de José Pedro Croft. Sobre as gravuras que vão formando as séries revela que tanto podem levar uma semana como três meses a ficarem prontas. Há séries em que trabalha durante mais de um ano e há séries às quais volta mais de uma década depois. "Tenho gravuras que comecei a trabalhar em 1999 e continuei a trabalhar as mesmas chapas até 2015". E há as de grande dimensão e as mais pequenas. "Que me deram mais trabalho do que as grandes", destaca. "Onde tenho mais dificuldade é na escala pequena", revela.

"Você tem assistente", questiona Agnaldo Farias. "Tive um até ao verão, mas agora estou sozinho a trabalhar. Ter assistente, por um lado, é uma coisa muito importante para ajudar no meu trabalho. Por outro lado, desfoca porque temos de dar ordens. E depois estás sempre a pensar numa coisa e ao mesmo tempo naquilo que ele está a fazer, e a corrigir. Nem percebo como alguns artistas têm três, quatro e cinco assistentes", diz José Pedro Croft.

Sobre a obra a apresentar em Coimbra, Croft tem já uma ideia, que poderá ser adaptada ao espaço onde o seu trabalho for mostrado. "Se conseguíssemos ter um sítio, um canto com oito metros de altura..." Num espaço que tanto pode ser interior ou exterior, especifica quando questionado por Carlos Antunes.

"Em Coimbra não faltam espaços grandes", destaca o diretor da bienal. "Mas onde as peças possam ser ancoradas", aponta Croft, como que prevendo as dificuldades que essa questão possa levantar. "Mais complicado", reconhece Carlos Antunes, "porque tudo isto é Património da Humanidade". E na frase seguinte a complexidade logo toma a forma de um desafio lançado a Croft: "Essa limitação do ponto de vista da fixação pode dar origem à criação de outra peça". "Sim, uma peça encostada no chão", responde de pronto o artista. Desafio aceite, portanto.

Depois de assistir ao quase pingue-pongue entre Carlos Antunes e José Pedro Croft, Agnaldo Farias assume a conversa e arruma a casa. "Algo que me interessa muito no trabalho do Croft é a ambiguidade. Acho interessante jogar com as peças menores, como essa sequência de gravuras que a gente viu, para ver como você lida a uma escala muito menor e a uma escala grande. [Coimbra] Tem espaços para isso. Acho que podemos fazer uma sala para juntar as gravuras mais pequenas e as maiores".

"Mas essas grandes, algumas são muito a variação sobre um mesmo tema. No fundo são a mesma forma que vai tomando outras formas", responde preocupado Croft. "Mas isso não é um problema, é uma virtude. Para mostrar o aprofundamento, porque o seu trabalho justamente é um trabalho com séries, com variações. E algo raro. Tem algo não só de uma arquitetura arrevesada como também de geológico. A discussão sobre as estruturas acristaladas que vão se perder em reverberações ou se expandem em reverberações. Isso é muito legal. Essa imprecisão é fascinante".

Após uma vasta lista de locais a serem mencionados como potenciais galerias para receberem o trabalho de José Pedro Croft, Agnaldo Farias deixa uma certeza ao artista: "É muito importante que você se sinta bem".

Ele e os cerca de 40 artistas com os quais o curador brasileiro pretende fazer esta terceira edição da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra que, avança o curador brasileiro Agnaldo Farias, não deverá contar com mais de 40 artistas. De Portugal estão também já confirmados os nomes de Ana Jotta e Tomás Ferreira, e do Brasil chegam nomes como José Spaniol, Daniel Senise e Cadu.

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