Basquiat africano mostra as suas flores de algodão sobre catanas

À boleia da feira de arte contemporânea ARCOlisboa, Elson Angélico materializa a sua paixão pela arte com a abertura do espaço cultural Not a Museum. "Fronteiras Invisíveis", de Francisco Vidal e "África Diversidade Comum" são as duas apostas para a inauguração, esta quinta-feira (15).

De pincel em punho, Francisco Vidal traça as listas da sua pantera na tela que serve de cartaz para a exposição Fronteiras Invisíveis, que até 25 de maio pode ser vista no Not a Museum, no n.º 3 da Rua Castilho, em Lisboa, um novo espaço cultural idealizado pelo angolano Elson Angélico.

Na segunda-feira, ainda se ultimavam os pormenores para a inauguração ao final da tarde desta quinta-feira e Francisco Vidal falou com o Plataforma Media sobre estas fronteiras invisíveis. "É assim como quando uma pessoa crioula, mulata, esses nomes que usaram para me descrever, não sabe dizer se o pai é branco ou a mãe é preta. Acho que Lisboa é isso. Temos layers desde o tempo dos romanos até agora".

Na exposição estão obras em que "a linha condutora que as une é o pensamento sobre o que é uma fronteira invisível, a distância entre eu e o outro e em que rapidamente chegamos à conclusão que todas as pessoas que vivem na cidade de Lisboa são fronteiras invisíveis porque têm esta estrutura nova cristã, judia, árabe, etc", explica.

Catanas, papel e telas servem de suporte a esta linha de pensamento, desenvolvida pelo artista e pela curadora da exposição, Namalimba Coelho.

"Acho que é importante sabermos as nossas origens. No desenho sempre fiz isso. Sempre desenhei para perceber o que é que estou aqui a fazer e para onde é que eu ia. Agora, nesta exposição, com todas as frases, projetadas pela Namalimba, desenho e texto misturam-se e tornam-se mais fortes". Sem fronteiras.

A atitude punk das frases selecionadas por Namalimba Coelho, desenhadas por Francisco Vidal a spray, como se de grafitties se tratassem, em fortes verdes, rosas e laranjas no imaculado branco das paredes do antigo palácio, imiscuem-se na conversa. "São frases de pessoas revolucionárias na arte: Basquiat, Jimi Hendrix, Picasso, Kurt Cobain", enumera Francisco.

"I wish they'd had electric guitars in cotton fields back in the good old days. A whole lot of things would've been straightened out", frase de Jimi Hendrix, fazem as vezes da ficha técnica de uma das obras da série das catanas, um estudo que Francisco Vidal começou a fazer com os alunos de desenho da Faculdade de Arquitetura de Luanda, em 2013. "Como cheguei a Angola numa idade já avançada, os meus alunos é que me explicaram o simbolismo da catana, do trabalho e da luta para a independência", bem como o que se passou em 1961, na Baixa do Cassange, na província do Malange, com trabalhadores da empresa luso-belga Cotonang. "Os trabalhadores, que recebiam muito pouco, eram quase tratados como escravos, fizeram greve e a resposta da empresa foi varrer os campos todos com napalm, matam toda a gente e acabam com a produção. Nem para nós nem para vocês".

"Foi nessa altura que fiz esta pintura", explica, indicando a obra que ocupa a parede em frente à entrada da primeira sala. "E comecei a trabalhar flores de algodão sobre catanas". Para além de outros episódios da história de Angola, as catanas também "contam" o recente episódio no Bairro da Jamaica, no Seixal, em Portugal, para a qual Namalimba escolheu uma frase de Basquiat como legenda: "Fire will attract more attention than any other cry for help". "É sempre assim, quando a situação fica problemática e que damos atenção à coisa", diz Francisco Vidal.

"Estas pinturas querem ser ativas, querem que haja mudança social. São ferramentas para o pensamento. E aí é ótimo porque são também catanas, que foram usadas para a guerra e agora são usadas aqui de forma poética".

A série Luuanda Rising também surge em destaque. "Pensa sobre esta nova Luanda, o pensamento contemporâneo africano que estamos aqui a burilar, que queremos que seja forte. Agora, temos de saber que os mais velhos também trabalharam isso", explica Francisco Vidal em frente a uma das obras onde é impossível não ver a referência à obra do escritor angolano Luandino Vieira (n. 1935).

"A pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo". A rosa forte, a frase de Picasso interrompe os tons verdes do papel ponteado por flores de algodão que cobre as paredes de uma das salas. "Esta peça que está aqui ficou a custo zero", aponta Francisco, revelando que o papel é feito por ele próprio, por vezes em workshops que realiza com crianças.

Os trabalhos que completam a exposição dão protagonismo a outras preocupações que surgem no pensamento contemporâneo africano, desde a situação nos musseques de Luanda aos diamantes de sangue, passando pela discriminação de que são alvo os albinos na sociedade africana em geral e pela revolução industrial africana.

Nas palavras de Namalimba Coelho, no texto de apresentação, esta exposição é "um lugar de Manifesto, entre o real e o ideal (...) celebrado através da pintura e do desenho".

A diversidade africana

A visita a este espaço cultural lisboeta, que inaugura esta quinta-feira (16), ganha outros sotaques africanos no segundo e terceiro piso com a exposição África Diversidade Comum. "O que se procura aqui é estabelecer um diálogo entre diversos autores, de diferentes gerações e latitudes geográficas e com mensagens que, embora comuns, são diferentes na forma como aconteceram precisamente por causa dos diferentes períodos temporais em que aconteceram", explica o curador, Manuel Dias dos Santos.

Pôr em destaque "o pensamento contemporâneo africano que está por trás da produção artística dos autores apresentados" é um dos objetivos da exposição, afirma o curador. E para isso conta obras artistas como os moçambicanos Malangatana (1936-2011) e Mabunda (n. 1975), os angolanos Eleutério Sanches (1935-2016), Paulo Kapela (n. 1947), Pedro Pires (n. 1978) e Keyezua (n. 1988), o guineense Nu Barreto (n. 1966), entre muitos outros.

As duas exposições podem ser vistas no Not a Museum de 16 a 25 de maio, entre as 14.00 e as 18.30, com entrada livre. Manuel Dias dos Santos estará pelo número 3 da Rua Castilho nesse período, orientado algumas visitas guiadas.

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