Como a arte vê a história através de caricas, balas e havaianas

Exposição na UCCLA, em Lisboa, mostra a diversidade cultural e de linguagens da lusofonia. Entre os 54 artistas dos PALOP, três políticos: Xanana, Chissano e Abraão Vicente.

É pela relação crítica com a história que a curadora Adelaide Ginga começa o percurso da exposição Frente.Verso.Inverso esta semana inaugurada na sede da UCCLA. São mais de 60 obras pertencentes de 54 artistas contemporâneos onde, ao lado de grandes nomes do mundo da arte lusófona, surgem também trabalhos de três políticos: duas esculturas em madeira de Chissano e quadros de Xanana Gusmão e de Abraão Vicente.

Nesse primeiro momento da mostra surgem diferentes formas de interpretação da história. Umas mais poéticas, como África Imensa (1980), da moçambicana Bertina Lopes (1924-2012), outras mais contundentes, como Filho Bastardo II, da brasileira Adriana Varejão (n. 1964), outras mais irónicas, como Lisbon Style (2009), do angolano Délio Jesse (n. 1980).

"Tudo isto nos ajuda a perceber as diferentes perspetivas. Tal como digo [no título da exposição] há a Frente, o Verso e o Inverso. Temos de ter consciência delas, os artistas exploram-nas, isso é interessante. Porque os próprios portugueses são críticos com a sua realidade, portanto, todos somos críticos com a realidade que nos envolve. Não temos que estimular o preconceito em relação à lusofonia", contextualizada a curadora e historiadora de arte Adelaide Ginga.

A dominar a sala, um quadro de grandes dimensões do são-tomense Kwame Sousa (Animal's Colour 2400 kg, de 2015), com dois macacos de mão dada. "É a velha história, temos todos a mesma origem mas depois a história por vezes tem momentos em que quer distinguir a importância dos homens em termos sociais", observa Adelaide Ginga.

E ao lado, a preto e branco, uma fotografia em pequeno formato do fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel (1924-2009). "É uma fotografia incrível", observa sobre a imagem, de 1957, da coleção da Caixa Geral de Depósitos, uma das 14 coleções a emprestar obras para esta exposição.

"É a frente imediata de uma realidade em que se mostra a porta de duas casas de banho, cada uma com uma placa: 'Homens' de um lado e 'Serventes' do outro", diz. Ao título Sanitários Rangel juntou em subtítulo a segunda camada que a imagem mostra - "só o negro podia ser servente e só o branco podia ser homem". "Por outro lado, este é o verso da realidade que muita gente desconhecia e é o inverso, completamente desestruturado, de períodos da sociedade. Daí a provocação de colocar logo ao lado uma obra de Kwame Sousa. A mais pequena é um estalo e a maior é a evidência".

Um dos objetivos da exposição é "mostrar a representatividade dos artistas da lusofonia nas coleções em Portugal", explica Adelaide Ginga. "Percebe-se que há um olhar mais atento sobre as novas gerações, particularmente os países dos PALOP, países africanos, e é importante que se conheça. Alguns já foram bastante apresentados em Portugal até porque trabalham com galerias portuguesas. Mas outros não tanto. Ainda estão muitas vezes ainda num registo mais paralelo. No entanto, os colecionadores quando se apercebem dos trabalhos acabam por apostar e adquirir".

E um dos objetivos do projeto foi "mostrar esses novos trabalhos que estão dentro das coleções que se encontram em Portugal, sejam institucionais sejam particulares, e que reúnem uma grande diversidade de países da lusofonia e as diversidades de linguagem e de olhares".

Para além de nomes mais consagrados, como Ângelo de Sousa e Malangatana, para referir apenas dois, "uma das vertentes importantes da exposição é revelar a forma como as novas gerações têm trabalhado em termos da criação contemporânea", refere a curadora.

É o caso, por exemplo, da obra realizada já este ano pelo angolano Fernando Lucano (n. 1989) utilizando havaianas e outros chinelos já usados como tela sobre a qual pinta a cara de uma menina. Ou o Trono (2016), do moçambicano Gonçalo Mabunda (n. 1975), formado por balas e outros materiais de armamento obsoleto, ou a Estrutura Urbana (2017), do angolano Nelo Teixeira (n. 1974).

Frente.Verso.Inverso mostra ainda obras inéditas. "Há muitas obras inéditas que efetivamente saíram dos ateliers diretamente para as coleções. E há obras que foram adquiridas a galerias mas que nunca tiveram muito tempo de apresentação, ou que foram até trabalhos que estavam a ser desenvolvidos pelos artistas e que a própria galeria vendeu diretamente ao colecionar. Acho que é esse o outro lado também de interesse que a exposição pode ter: revelar uma série de obras desconhecidas de artistas já com bastante nome dentro do mundo da arte contemporânea e algumas peças menos conhecidas que nunca tiverem o seu efetivo destaque".

Para além dos PALOP, o percurso dá ainda um "saltinho" a Macau, através de uma obra do português José Maçãs de Carvalho que "mostra o domínio do mundo ocidental e o lado de valorização das marcas, do fascínio sobre os grandes nomes da moda".

Paulo Kapela, António Ole, Vik Muniz, Ângela Ferreira, Francisco Vidal, Ihosvanny, Nú Barreiro, Kiluanji Kia Henda, Mauro Pinto, Rolando Sá Nogueira, Shinkani e Thó Simões são outros dos nomes em destaque.

A exposição, de entrada livre, vai ficar na sede da UCCLA, em Lisboa, até 13 de novembro e pode ser visitada das 10.00 às 18.00, de segunda a sexta-feira.

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