Basquiat que fala português toma de assalto feira de arte africana

O luso-angolano Francisco Vidal recebeu "carta branca" da organização para cobrir paredes e chão de um espaço da única feira de arte contemporânea dedicada à arte africana. A decorrer até segunda-feira, são 15 os artistas lusófonos representados.

A presença lusófona na AKAA - Also Known As Africa, no Carreau du Temple, em Paris, é visível logo à entrada com duas peças de Francisco Vidal, de três metros de altura, a franquearem as portas da única feira de arte contemporânea dedicada à arte africana na capital francesa. "Um trabalho incrível", que para além da entrada se prolonga pelas paredes e chão da AKAA Underground, diz Victoria Mann, fundadora e diretora da feira.

Nascido em Portugal, de pais angolanos e cabo-verdianos, Francisco Vidal foi convidado pela organização para tomar conta do espaço. "Foi resultado de muitas trocas de ideias com ele, sobre as temáticas que ele desenvolve e defende", explica Victoria Mann que há quatro anos, e após um percurso profissional feito em galerias decidiu apostar na organização de uma feira de arte africana na capital francesa. "Percebi que faltava uma plataforma para difundir cultural e comercialmente a arte africana", relembra

Em resposta à carta branca que lhe foi dada pela organização, Francisco Vidal criou uma "instalação imersiva" que retrata paisagens contemporâneas, humanas e urbanas. "Uma incursão por uma série intitulada African Hair Cuts, composta por sete pinturas a óleo sobre catanas que entram em diálogo com 60 retratos de artistas que também estão a expor na feira, desenhados a tinta-da-china sobre papel feito à mão - um retrato do quotidiano e dos seus contemporâneos que mapeiam estas paisagens contemporâneas, num espaço de reflexão e expressão, num horizonte dedicado à arte contemporânea africana e à sua diáspora", explica a curadora do projeto, Namalimba Coelho.

"Misturando várias influências, como o cubismo, os padrões dos tecidos africanos e a cultura hip-hop dos anos 80, para além de graffiti e da arte urbana", Francisco Vidal "enaltece ideias em torno da mobilidade internacional convocando temas ligados à memória coletiva", refere ainda a curadora.

As portas da AKAA - Also Known As Africa só amanhã abrem as portas ao público em Paris, mostrando o trabalho de mais de cem artistas representados por 45 galerias. Mas a inauguração ontem, quinta-feira, para VIP já trouxe boas notícias para uma das três galerias angolanas selecionadas para estarem presentes nesta quarta edição.

"Já fizemos vendas e não foi só de um dos artistas", conta Janire Bilbao, da Movart

"Já fizemos vendas e não foi só de um dos artistas", conta por telefone Janire Bilbao, a partir do Carreau du Temple, onde está instalada a feira. A espanhola, fundadora da galeria de arte angolana Movart, não avança valores nem quais dos três artistas que escolheu para levar a Paris já despertaram o interesse dos compradores. "Está a correr bem, já estiveram cá curadores de várias instituições como o Centro Pompidou", relata.

O são-tomense René Tavares, a angolana Keyezua e o moçambicano Mario Macilau foram as suas escolhas para a estreia na AKAA. "Esta é a quarta edição da feira, já está mais madura e como no próximo ano França vai fazer grandes investimentos em África, nomeadamente na arte africana, achámos que era uma boa altura para estarmos presentes nesta feira".

A This Is Not a White Cube apostou na obra do angolano Pedro Pires, artista com o qual a galeria tem vindo a desenvolver um trabalho curatorial intenso e no seu projeto site specific Gardens. "Mais do que criar projetos comerciais, interessa-nos - à galeria e ao artista - fazer parte de um corpo que está a estabelecer, a nível global um pensamento crítico e uma reflexão profunda sobre as relações histórico-sociais existentes entre a Europa e África", explica Graça Rodrigues, diretora artística da galeria.

"A obra de Pedro Pires enquadra-se profundamente neste segmento. O artista estabelece narrativas consistentes em torno das interrogações que a ideia e o conceito de identidade lhe suscitam enquanto membro de duas comunidades - a angolana e a portuguesa - e de uma geração nascida numa década que foi de fronteira para as comunidades portuguesas em África", avança Graça Rodrigues.

Ainda de Angola chega à AKAA a ELA - Espaço Luanda Arte. "Estamos cada vez mais interessados em pesquisar e mostrar o corpo e a alma de artistas dos dois lados do Atlântico: Estados Unidos, Brasil e do continente africano, incluindo Angola", refere o britânico Dominick Maia Tanner, fundador e diretor da galeria.

Por isso em Paris mostra o projeto curatorial Histórias Transatlânticas, sobre "a memória coletiva e a identidade de "África", tanto do continente propriamente dito, através dos trabalhos de dois angolanos (Ricardo Kapula e Van), do Atlântico, com obras do são-tomense René Tavares, e do Novo Continente, com peças do brasileiro No Martins".

A única galeria portuguesa presente é a Perve, marcando presença com o trabalho de "sete artistas, de três gerações distintas, sendo originários dos países de língua portuguesa em África, nomeadamente Cabo Verde (os irmãos Manuel e Tchalé Figueira), Guiné-Bissau (Manuela Jardim), Moçambique (dois mestres já falecidos, Malangatana e Shikhani e a mais notável ceramista makonde, Reinata Sadimba) a par com a fotografia do são-tomense José Chambel", afirma Carlos Cabral Nunes.

A presença na feira parisiense é, explica Cabral Nunes, resultado de uma aposta que tem feito em criadores da lusofonia ao longo dos 20 anos de atividade da Perve: "Pareceu-nos sempre fundamental fazermos o que estava ao nosso alcance para darmos a conhecer as práticas artistas de autores africanos de língua portuguesa cujo trabalho está ao nível do melhor que foi sendo feito em África ao longo do último século mas que, por certa incúria própria das autoridades nacionais, teima em ser mantido sob forte ocultação, o que nos parece manifestamente errado".

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