Como a arte serviu para Fidel apoiar revoluções em África

Uma exposição de posters e revistas de propaganda cubanas em Londres mostra o apoio que Fidel Castro deu aos movimentos de libertação africana durante a Guerra Fria

As obras de arte foram produzidas pela Organização de Solidariedade de Fidel Castro com o Povo da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL) - que nasceu da Conferência Tricontinental que decorreu em Havana em 1966 - para combater o imperialismo americano. "Muitos dos países africanos tinham delegações na Conferência, incluindo os movimentos de libertação. E Castro entrou em contacto com alguns líderes, particularmente com Amílcar Cabral da Guiné-Bissau", explicou à BBC Olivia Ahmada, curadora da exposição que decorre na House of Illustration em Londres.

A exposição "Designed in Cuba: Cold War Graphics", exibe retratos de muitos líderes africanos dos movimentos independentistas e ícones cubanos como Castro ou Guevara,. As obras de arte foram produzidas por 33 ilustradores cubanos, muitos deles mulheres.

Segundo a curadora, Cuba tinha planeado a realização de mais conferências tricontinentais mas nunca aconteceram porque as publicações artísticas da OSPAAL tornaram-se um veículo importante para manter o contacto e partilhar informação. E os posters de propaganda foram inseridos dentro das revistas políticas.

Um poster da Guiné-Bissau que mostra uma mulher a segurar uma metralhadora tem a assinatura da designer Berta Abelenda Fernandez, "uma das mulheres que fez algumas das mais icónicas ilustrações para a OSPAAL". Aliás, um dos mais recorrentes motivos de ilustração dos artistas cubanos nesta organização era mulheres com armas, mostrando que elas tinham um papel ativo nas revoluções africanas. A revista política da organização tinha "uma série de contribuições de mulheres e artigos sobre as mulheres nas frentes das guerrilhas africanas".

Dia da Solidariedade com o Povo da Guiné-Bissau e Cabo Verde, 1968

Dia da Solidariedade com o Povo da Guiné-Bissau e Cabo Verde, 1968

  |  Berta Abelénda Fernández

O mais famoso dos revolucionários cubanos, o argentino Ernesto "Che" Guevara foi "provavelmente o mais retratado em todo o universo de publicações da OSPAAL", adiantou Olivia Ahmada. "Mas também há muitos retratos dos líderes africanos, celebrados de igual forma".

Che Guevara esteve na República Democrática do Congo em 1965 numa missão falhada para fomentar uma revolta contra o regime pró-ocidental, quatro anos depois do homicídio do herói da independência congolesa, Patrice Lumumba. As culpas do homicídio de Lumumba, quatro meses depois de ter sido eleito como o primeiro chefe de Governo democrático do país, foram apontadas às agências secretas norte-americanas e britânicas.

Fidel Castro teve um papel muito importante na luta pela independência de Angola face à então potência colonial que era Portugal. Antes da independência de Angola em 1975, Castro enviou tropas de elite cubanas e 35.000 soldados para apoiarem o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) na sua luta para impedir que as tropas sul-africanas pró-apartheid instalassem movimentos pró-americanos no poder.

"Os retratos são particularmente interessantes porque têm todas as influências da pop art, o que não esperaríamos ver. Celebram as pessoas mas de uma forma genuína e não por fazerem parte de uma estética socalista-realista".

Segundo Alçex Vines do gabinete estratégico Chatham House, pelo menos 4300 cubanos terão morrido nos conflitos independentistas em África, metade dos quais em Angola, onde a guerra civil durou até 2002.

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