“Legislação de Macau facilita entrada de medicamentos estrangeiros na China”

Saúde e produção de microchips são algumas das áreas em que Macau pode ter um papel importante para potencializar a cooperação sino-brasileira, diz em entrevista ao PLATAFORMA o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, Guilherme Calheiros

por Gonçalo Lopes
Nelson Moura

No fim de julho, uma delegação brasileira liderada pelo secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, Guilherme Calheiros, passou por Macau e Shenzhen. Na agenda, a comitiva levou a promoção da cooperação económica e comercial; o intercâmbio de quadros qualificados em investigação científica; e o papel de plataforma de Macau, como pontos de discussão.

Calheiros encontrou-se também com o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, numa reunião que, segundo o oficial brasileiro, serviu para alinhar três linhas de ação e cooperação entre o Brasil e Macau. “A primeira linha inclui fortalecer as relações comerciais. A segunda promover a interação na área de pesquisa, desenvolvimento e inovação, entre as instituições de pesquisa e as universidades de Macau com universidades brasileiras”, indicou Calheiros ao PLATAFORMA, após a sua visita à cidade. “E, por fim, trabalhar a aproximação cultural, especialmente no que toca à língua portuguesa e como podemos potencializar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os dois países. Essas são as linhas de construção entre Macau e o Brasil. Por isso, a nossa delegação trouxe representantes do Ministério da Tecnologia, do Ministério da Indústria e Comércio e do Ministério da Cultura.”

Calheiros encontrou-se também com representantes do Fórum Macau, para reforçar o compromisso do Brasil no apoio à realização da 6.ª Conferência Ministerial – prevista para este ano, mas ainda sem data definida. Foram realizadas cinco conferências ministeriais do Fórum Macau no território em outubro de 2003, setembro de 2006, novembro de 2010, novembro de 2013 e outubro de 2016, durante as quais foram aprovados Planos de Ação para a Cooperação Económica e Comercial. A 6.ª Conferência Ministerial da organização foi adiada múltiplas vezes, primeiro devido à eleição do Chefe do Executivo de Macau, em 2019, e depois devido à pandemia.

Nós sabemos que o português não é uma língua falada de forma ampla em Macau, mas estruturalmente faz parte da burocracia, do Governo, e da dinâmica das instituições, incluindo as que congregam os Países de Língua Portuguesa

Durante a reunião com Calheiros, o secretário-geral do Fórum Macau,  Ji Xianzheng, frisou que a instituição é um mecanismo de cooperação multilateral que visa complementar a cooperação bilateral entre a China e o Brasil em diversas áreas, pelo que espera uma representatividade mais próxima da parte brasileira neste mecanismo. Para o representante brasileiro, o mais importante no que toca ao papel do Fórum Macau é apoiar os dois países a aprofundar e expandir a cooperação nos âmbitos de comércio e investimento, ciência e inovação tecnológica e trocas comerciais.

Saúde e tecnologia

Questionado sobre as áreas específicas em que Macau poderia efetivamente ajudar o Brasil, e vice-versa, Calheiros destaca a cooperação comercial, ciência e tecnologia e saúde. O representante brasileiro sublinha que como o Brasil possui avançadas técnicas de investigação em equipamentos médicos, o potencial de cooperação na área de Big Health é considerável. “Especialmente no que toca a medicamentos, pois a legislação de Macau facilita a entrada de medicamentos estrangeiros na China. Também discutimos a parte de pesquisa, desenvolvimento e inovação na geração de novos fármacos”, aponta.

Calheiros destaca como os quatro Laboratórios de Referência do Estado criados em Macau aumentaram a capacidade de investigação científica da Região. “O desenvolvimento de microchips é [uma área de cooperação] importante. Nós pudemos verificar que a Universidade de Macau tem um laboratório de referência importante no desenvolvimento de chips, uma área muito importante para o Brasil”, destaca.

Entre 2011 e 2018 a RAEM estabeleceu quatro laboratórios de Referência do Estado, divididos entre a Universidade de Macau e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau: o Laboratório de Investigação de Qualidade em Medicina Chinesa; o Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos; o Laboratório de Referência do Estado de Internet das Coisas da Cidade Inteligente; e Laboratório de Referência do Estado para a Ciência Lunar e Planetária.

O desenvolvimento de microchips é uma [área de cooperação] importante. Nós pudemos verificar que a Universidade de Macau tem um laboratório de referência importante no desenvolvimento de chips, uma área muito importante para o Brasil

A componente de cooperação cultural também não ficou de fora da visita, como prova a presença do diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura do Brasil, Jéferson dos Santos Assumção, nos vários encontros oficiais realizados. Para Calheiros, a língua portuguesa é um dos ‘áses na manga’ que Macau possui como porta de entrada do Brasil na China.“Nós sabemos que o português não é uma língua falada de forma ampla em Macau, mas estruturalmente faz parte da burocracia, do Governo, e da dinâmica das instituições, incluindo as que congregam os Países de Língua Portuguesa”, afirma.

“Isso facilita a aproximação das culturas, graças a esta identidade e uso da língua, pois facilita a vinda de brasileiros, ou a ida de pessoas de Macau para o Brasil para esta cooperação comercial, tecnológica e cultural.”

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