Mais jovens, menos gastos

por Gonçalo Lopes
Tony Lai

Líderes do setor turístico afirmam que os visitantes de Macau são mais jovens e procuram outro tipo de experiências. Confiam mais nas redes sociais para escolher os itinerários e estão mais dispostos a explorar bairros pouco comuns. Contudo, o seu poder de compra global é inferior

Macau registou a maior afluência de turistas desde o início da pandemia no Dia do Trabalhador. Embora o número de visitantes marque a recuperação gradual do setor após três anos de dificuldades, representantes da indústria e empresários locais estão preocupados com as mudanças de perfl dos turistas pós-pandemia.

Segundo os últimos dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos de Macau (DSEC), Macau recebeu cerca de 4.95 milhões de visitantes no primeiro trimestre deste ano. Isto significa um crescimento anual de 163 por cento e representa 47,8 por cento dos visitantes em 2019. Turistas oriundos da China Continental cresceram 88,2 por cento face ao ano passado (3.24 milhões), e de Hong Kong aumentaram quase dez vezes, para mais de 1.5 milhões. Já as visitas internacionais (excluindo China Continental, Hong Kong e Taiwan) não passaram de 140 mil, uma vez que a capacidade dos voos de e para Macau ainda está a recuperar.

Os visitantes da China Continental representaram cerca de 65,4 por cento do total de visitantes no período de janeiro-março de 2023 – representavam mais de 70 por cento antes da pandemia. Em contrapartida, a quota dos visitantes de Hong Kong aumentou de 18 por cento para 30,4 por cento.

Descobrimos que os preços em zonas como a Horta e Costa são mais baratos do que na Almeida Ribeiro ou no Cotai. Gastámos entre 2.000 a 3.000 patacas nesta viagem

Yang, natural de Zhongshan, na província de Guangdong

Andy Wu, presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, observa que após o levantamento das restrições às viagens, o segmento de Hong Kong teve uma recuperação mais rápida e voltou a atingir entre 70 a 80 por cento do volume, enquanto que ainda só se recuperou cerca de metade do mercado da China Continental.

“Embora se tenha retomado as excursões de grupo provenientes do Interior da China, o número total de visitantes até agora tem sido significativamente menor. Antes da pandemia, o rácio entre o número de visitantes do Interior da China e o número de visitantes do ‘esquema de visitas individuais’ era de cerca de 3:7 e agora é de 2:8. Além do aumento do número de turistas [do Interior da China] ao abrigo do regime de visita individual, também observámos que os visitantes são mais jovens e confiam em redes sociais como a Xiaohongshu e a Douyin para planear os seus itinerários. Já não estão confinados às atrações turísticas tradicionais e são mais propensos a visitar outros bairros para experimentar os sabores locais e descobrir novos pontos fotogénicos”.

Macau, China РFeb 28 2023: Senado Square, or Senate Square, is a paved town square in S̩, Macau, China, and part of the UNESCO Historic Centre of Macau World Heritage Site.

O Governo de Macau também tem estado atento a esta tendência, confirmando nos últimos tempos que tem havido sinais de visitantes mais jovens, sobretudo do sexo feminino e com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos. Por outro lado, apenas cinco por cento chega a Macau para jogar nos casinos.

À procura de locais fotogénicos

Yang, natural de Zhongshan, na província de Guangdong, faz parte do segmento de turistas emergentes que tem vindo a ser identificado pelas autoridades e pelo setor. Na sua viagem de dois dias a Macau com amigos, em abril, visitou zonas como a Av. Horta e Costa e a Rua da Praia do Manduco, além do Cotai Strip. “Já visitámos Macau muitas vezes, por isso não estamos particularmente interessados na Avenida de Almeida Ribeiro e nas Ruínas de S. Paulo. Limitamo-nos a passear e a procurar no Xiaohongshu lugares e restaurantes interessantes e fotogénicos”, explicou ao nosso jornal.

“Também descobrimos que os preços em zonas como a Horta e Costa são mais baratos do que na Almeida Ribeiro ou no Cotai. Gastámos entre 2.000 a 3.000 patacas nesta viagem”, acrescentou. “Acho que não vou fazer muitas compras, exceto lembranças gastronómicas, como carne seca e bolos de amêndoa.”

Os turistas de Hong Kong, Phoebe e Mark, também partilham uma mentalidade semelhante, tendo optado por ofertas não tradicionais, como a Feira de Artesanato do Tap Siac.

“Estamos interessados neste tipo de feiras culturais e criativas. Algumas das marcas que conhecemos também aderiram a esta feira, por isso decidimos vir cá dar uma vista de olhos”, disse o casal de vinte e poucos anos.

A dupla não tinha nenhum plano específico para a sua viagem a Macau, mas tentou as multidões. “Vimos alguns cafés simpáticos no Youtube e no Instagram, mas se houver grandes falas talvez encontremos outros sítios”, comentaram.

[Os turistas] já não estão confinados às atrações turísticas tradicionais e são mais propensos a visitar outros bairros para experimentar os sabores locais e descobrir novos pontos fotogénicos

Andy Wu Keng Kuong, presidente da Associação de Indústria Turística de Macau

Tendo em conta a tendência dos turistas mais jovens, que planeiam os seus itinerários online, Wong Fai, presidente da Associação de Inovação e Serviços de Turismo de Lazer de Macau, diz que a indústria e as empresas locais terão de ajustar os produtos e serviços de acordo com a procura. “Os jovens dão mais importância a atividades experimentais e não a compras. Também procuram ativamente locais de interesse online para tirar fotografias bonitas para as redes sociais”, enfatiza.

Menor poder de consumo

O líder associativo reconhece que os visitantes têm sido mais cautelosos nas despesas após a pandemia. “Ainda não assistimos ao regresso dos grandes consumidores, pelo que o poder de compra global é mais fraco do que no passado”, salienta.

Os dados mais recentes sobre as despesas extra-jogo dos visitantes no primeiro trimestre de 2023 ainda não estão disponíveis. Mas em 2022, a despesa per capita dos visitantes amentou 0,4 por cento face ao ano anterior, para 3.187 patacas, incluindo um aumento de 4,1 por cento nas despesas per capita dos visitantes que pernoitam, para 6.004 patacas, e um aumento de 29,3 por cento nas despesas dos visitantes que pernoitam no mesmo dia, para 1.011 patacas.

Quanto ao tipo de despesas, as compras diminuiu. Mas depois de três anos de dificuldades, onde os comerciantes locais chegaram a ficar sem clientes e sem receitas durante um dia inteiro, estão todos satisfeitos com a recuperação gradual.”

Turismo comunitário

Embora ainda não se tenha voltado à média diária de 100 mil visitantes, observa que a associação tem visto “mais visitantes nos bairros, e o volume ultrapassa os tempos pré-Covid”. Na sua opinião, esse facto evidencia a eficácia das políticas e medidas de turismo comunitário promovidas pela administração e pela indústria turística local, conseguindo desviar o tráfego de visitantes das atrações turísticas tradicionais para diferentes bairros.

Para facilitar ainda mais o desenvolvimento do turismo comunitário e desviar os turistas para passear e gastar em diferentes bairros da cidade, a Direcção aumentaram 2,6 por cento em relação ao ano anterior, para 2.110 patacas; já as despesas em alimentação e bebidas e em alojamento diminuíram 4,3 por cento e 9,4 por cento, para 488 patacas e 428 patacas, respetivamente.

A Sra. Wong, proprietária de uma loja de iguarias tradicionais na Rua do Cunha, na Taipa, considera que o volume de clientes “quase” que voltou ao nível pré-pandémico, com multidões na famosa rua mesmo fora dos períodos festivos.

“Mas o gasto per capita é, de facto, mais baixo. Os clientes agora só compram um ou dois artigos e gastam até 100 patacas. Antes, gastavam em média 200 a 300 patacas”, afirma. Em comparação com os visitantes do Continente, os consumidores de Hong Kong estão relativamente mais dispostos a gastar neste momento, acrescenta.

O presidente da Federação da Indústria e Comércio de Macau Centro e Sul Distritos, Lei Cheok Kuan, afirma que “o poder de consumo dos turistas dos Serviços de Turismo (DST) aprovou o financiamento de 42 projetos e eventos de turismo comunitário, que podem ser divididos em três grandes áreas: “Dinamizar a economia comunitária no âmbito do turismo”, “Promover a cultura gastronómica” e o “Turismo marítimo”.

Os eventos nos meses de abril e maio têm como principal objetivo promover a história, a cultura e outras atrações de Macau, nomeadamente o “Origem dos caracteres” – Turismo Comunitário Tecnologia – Viagem de Aprofundamento da Cultura Local, que permite aos participantes conhecer a Macau do passado; e o “Memórias do Passado X Armazém Velho”, um mercado temático e workshop com características próprias.

Tendo em conta as mudanças no perfil dos turistas que visitam Macau, Lei sublinha que “para além de melhorar os produtos e serviços, os comerciantes locais devem também fazer bom uso das redes sociais para atrair clientes e aproveitar as oportunidades”.

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