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“Novo ciclo da relação entre a China e Portugal”

Paulo Rego

O especialista nas relações de Macau e da China com os países lusófonos, Ip Kuai Peng, lembra que a RAEM “não tem relações externas”; pelo que a visita de Ho Iat Seng a Portugal faz parte de um “novo ciclo” da parceria estratégica “entre a China e Portugal”. O professor da City University defende que este é o momento de “Portugal prestar mais atenção a Macau”, porta de entrada para a “Grande Baía”, mas “também toda a China”. Esta viagem, frisa, serve também para “recuperar a confiança da comunidade portuguesa de Macau no seu futuro” 

Que significado político tem a primeira visita de Ho Iat Seng ao estrangeiro ser a Portugal? 

IP Kuai Peng – Primeiro, isso respeita a importância das relações de amizade entre a China e Portugal; depois, reconhece a relação histórica especial entre Macau e Portugal. Após o regresso à China, sucessivos governos da RAEM atribuíram grande importância à amizade com Portugal; e o Chefe do Executivo (CE) tradicionalmente visita o Presidente português. Esta visita tem grande significado e a RAEM levará também empresários e jornalistas, promovendo não só o investimento mas também os sistemas jurídicos da RAEM e de Hengqin, tendo em vista o reforço da cooperação em domínios-chave como a educação, ciência e tecnologia, farmacêutica, economia azul… mas também a atração de investimento e turistas. Esta visita serve ainda para recuperar a confiança da comunidade portuguesa no seu futuro em Macau.

Qual é a importância específica de Portugal na plataforma lusófona?  

I.K.P – Macau tem laços estreitos e extensos com os Países de Língua Portuguesa, que abrangem quatro continentes e mais de 200 milhões de habitantes. Todos os países lusófonos são muito importantes para Macau, mas Portugal tem a relação mais especial – e maior influência. O português é língua oficial em Macau; a arquitetura, os festivais, a culinária… fazem a diferença como atração turística; e os produtos portugueses – vinho, e outros – destacam-se na venda a retalho. Portugal é membro das Nações Unidas, da União Europeia, da NATO, da Organização Mundial do Comércio… e o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) ativa vários eventos onde Macau tem papel significativo.  

As relações diplomáticas entre a China e os Estados Unidos – mas também com a Europa – são tensas… Portugal pode ajudar a desanuviá-las?

I.K.P – O mundo entrou num novo período de turbulência, com muitos fatores de instabilidade e incerteza. Essa divisão, e confronto, conduzirão a humanidade a um beco sem saída. A China e os países lusófonos, que têm oportunidades e desafios semelhantes,  precisam de se unir e cooperar mais do que nunca para superar dificuldades e juntos construírem um futuro comum para a humanidade. Os países lusófonos são uma força importante na comunidade internacional, e a China tem com eles uma longa História de cooperação e amizade. A maioria deles aderiu à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, potenciando uma série de intercâmbios que reforçam a compreensão mútua. Macau mantém uma estreita relação histórica e cultural com os países lusófonos; tem um sistema administrativo e jurídico semelhante; e o português como língua oficial… tem por isso vantagens únicas na ligação entre a China e a Lusofonia. O Governo Central posicionou Macau como plataforma para a cooperação comercial e de serviços entre a China e os Países de Língua Portuguesa (a Plataforma), e Macau tem sido sempre uma ponte que liga Portugal à China; e uma janela para o ocidente melhor compreender o oriente.

“O património material e imaterial – único – relacionado com a cultura portuguesa, cria um destino de turismo e lazer sem paralelo, onde se misturam as culturas oriental e ocidental.” 

Há em Macau quem veja nisso apenas uma imposição da China; e há quem a descreva como vantagem competitiva. Qual é a sua opinião? 

I.K.P – 86,2 por cento da população fala fluentemente o cantonês; 45 por cento mandarim; e apenas 2,3 por cento o português. Apesar dessa limitação, a língua e a cultura portuguesas são bens muito singulares, e uma vantagem competitiva relativamente ao resto da China. Macau atrai talentos de língua portuguesa, e aposta na educação e na formação de talentos bilingues. Muitas pessoas de Macau estão familiarizadas com a cultura, a religião e os costumes lusófonos. Por um lado, a China tem aqui a oportunidade de apreender a melhor lidar com os países lusófonos; por outro, isso ajuda a economia e as trocas comerciais, reforçando o entendimento sociopolítico e cultural. O intercâmbio com o ocidente – em especial países lusófonos – dota Macau de um encanto cultural único. O Centro Histórico de Macau – património mundial – mostra bem o convívio sino-português, que transformou Macau também numa cidade gastronómica. O património material e imaterial – único – relacionado com a cultura portuguesa, cria um destino de turismo e lazer sem paralelo, onde se misturam as culturas oriental e ocidental. 

Há quem critique o Governo de Macau por estar menos empenhado na relação lusófona do que o próprio Governo Central… 

I.K.P – Após o regresso de Macau à China, o Governo Central implementou, inabalavelmente, o princípio “Um País, Dois Sistemas”, no contexto do qual Macau é governado com elevado grau de autonomia – com resultados frutuosos. Contudo, segundo a Lei Básica, a RAEM não tem autonomia na política externa, que envolve a soberania nacional. Macau pratica com sucesso notável esse princípio, evoluindo gradualmente para ser ponte entre a China, Portugal, e os países lusófonos, através da cooperação económica, comercial e cultural. Durante muito tempo, Macau e o Governo português promoveram visitas recíprocas, reforçando e consolidando relações de amizade e de cooperação. O Governo Central dá grande importância e apoia esses contatos. Esta visita surge nessa tradição. 

Pode a China reforçar o papel de Macau nesse desígnio? Ou é Portugal que deve aproveitar melhor a oportunidade? 

I.K.P – O Governo Central é quem gere as relações internacionais, mesmo nos assuntos relacionados com Macau. O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) criou cá o Gabinete do Comissário do MNE, salvaguardando a soberania e o interesse nacional. Esse gabinete reúne os recursos e conduz a atividade diplomática na RAEM; e promovendo, no longo prazo, a estabilidade e a prosperidade da RAEM. Macau é plenamente reconhecido como plataforma de ligação entre a China e a Lusofonia, razão pela qual foi criado o Fórum Macau como plataforma multilateral intergovernamental – não política – centrada na promoção económica e comercial.
Em 2023, a RAEM comemora o 30º aniversário da Lei Básica; e o 20º aniversário do Fórum Macau, o que abre novas oportunidades diplomáticas. Portugal é um importante centro de ligação para a Rota da Seda – terrestre e marítima – participa ativamente na iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”; e é membro ativo no Fórum Macau. Portugal e Macau ainda têm ainda muito espaço e grande potencial de cooperação. 

“As empresas portuguesas devem perceber que a melhor forma de entrar na Grande Baía – e no Continente – é através da plataforma de Macau.”

Pode esta visita abrir novo ciclo nas relações entre China e Portugal? 

I.K.P – China e Portugal são parceiros estratégicos, com cooperação abrangente. Portugal foi o primeiro país da Europa ocidental a assinar a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”; o primeiro da União Europeia a estabelecer com a China uma parceria formal para o crescimento sustentável e a Economia Azul; o primeiro da Zona Euro a emitir obrigações em renminbis… A cooperação é frutuosa, em vários domínios como a economia, comércio, ciência e tecnologia, cultura, educação… com apoio mútuo nas questões que a ambos dizem respeito. Macau é parte importante dessa relação; e o principal objetivo da visita do CE a Portugal é o de expandir o intercâmbio económico, comercial e cultural, para que Portugal preste mais atenção a Macau. Esta visita trará sinais positivos para um novo ciclo da relação entre a China e Portugal.

Com que consequências concretas? 

I.K.P – Para Macau, esta visita acelera a plataforma sino-portuguesa; reforça a cooperação com Portugal; e pode atrair investidores e turistas portugueses. A RAEM vai trabalhar com Portugal na preservação e desenvolvimento da língua e cultura portuguesas; e a confiança da comunidade portuguesa em Macau sairá reforçada. No caso da China, esta visita permite que o Governo Central veja a determinação e capacidade de execução do Governo da RAEM, após a Covid-19, para expandir a cooperação internacional e reforçar parcerias com Portugal e outros países lusófonos. Por fim, esta visita fará com que Portugal preste mais atenção ao desenvolvimento e à abertura de Macau. As empresas portuguesas devem perceber que a melhor forma de entrar na Grande Baía – e no Continente – é através da plataforma de Macau.

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