"A população chinesa não é uma massa acrítica e passiva” - Plataforma Media

“A população chinesa não é uma massa acrítica e passiva”

‘The Shortest Story of China History’ é o mais recente livro de Linda Jaivin. A autora australiana – especialista na China – fala da diversidade, das mulheres e como são ostracizadas, e explica como se chegou a uma era em que o país liderado por Xi Jinping sente que chegou a sua hora. A tradutora – incluindo de filmes dos realizadores chinês Zhang Yimou e de Hong Kong Wong Kar Wai -, ensaísta e escritora garante, entre outras certezas, esta: “O partido não consegue controlar tudo”

– Sobre o livro, diz que “é fundamental conhecer a História desta extraordinária civilização para entender o poder chinês e a abordagem mais agressiva que o caracteriza hoje”.

Linda Jaivin – A China foi dos países mais invejados, ricos, civilizados e cientificamente avançados no mundo. Um dos pilares da ideologia de Xi Jinping é o ‘Sonho Chinês’, que se concretiza na ideia de que a China vai rejuvenescer e recuperar a glória perdida. Xi diz que sob a liderança de Mao, a China teve de se erguer; com Deng Xiao Ping, teve de prosperar; e que agora é altura de se afirmar. Esta posição vai beber a esse passado glorioso e estatuto que perdeu por causa de 100 anos de humilhação – outra ideia forte da ideologia de Xi.

– Refere-se às invasões nipónicas e do Ocidente?

L.J. – A narrativa do Partido Comunista chinês (PCC) assenta nessa premissa de que a China foi grandiosa, mas que perdeu imponência porque foi humilhada durante 100 anos graças a ataques e invasões de potências imperiais, e que foi o partido quem recuperou a grandiosidade chinesa. ‘Erguemo-nos, prosperámos e agora é tempo de nos afirmar- -mos’. É importante perceber a História da China para perceber Xi Jinping e o que o motiva. À luz da História, a corrupção foi sempre o que provocou o fim de cada dinastia. Não foi ao acaso que Xi lançou uma campanha anticorrupção. Sabia que podia impedir a afirmação do país e ser uma ameaça ao PCC, o que é ainda pior.

– É uma estudiosa da China, onde viveu e por onde tem viajado. A censura é eficaz, a população concorda com o regime ou há outro motivo para o silêncio?

L.J. – A vigilância e medidas de controlo apertadas são os maiores dissuasores do criticismo e revolta. E têm crescido com o avanço tecnológico. Não obstante, quem fala chinês sabe que os chineses se queixam e contestam.

– Mas, a censura impede que a crítica ganhe relevância.

L.J. – Se o Partido achar que não é ameaçadora e até é importante porque a podem usar para mudar e melhorar, permite-a; caso contrário – como aconteceu com as alegações sobre abusos sexuais da tenista chinesa Peng Shuai -, a censura aperta, mas funciona de formas diferentes. Por vezes como uma faca, outras através de algoritmos. Promovem- -se os comentários que apoiam a linha do partido – que o mesmo designa de ‘energia positiva’.

– Resiste sempre a dúvida do que opina a população.

L.J. – Um dos pontos que vinco no livro é que a China, tendo 1,4 mil milhões de habitantes, é muito heterogénea. Um agricultor que viva numa vila tem uma perceção de Governo, preocupações, noção de satisfação e insatisfação diferentes das de um cidadão em Xangai. Se analisarmos a internet não vemos passividade nem uma voz. Vemos múltiplas vozes. As pessoas sabem o que é sensível e contornam. Uma coisa é certa: a população chinesa não é uma massa acrítica e passiva.

– Seria importante para a maioria votar ou tem outra conceção de participação política?

L.J. – Ao contrário do que se diz, não se trata de haver uma visão oriental e ocidental de democracia. Taiwan é uma democracia consolidada e vibrante, e vem da mesma cultura. A Coreia e o Japão têm heranças filosófico-culturais semelhantes à da China – o Confucionismo -, e são democracias. Em Hong Kong, a luta pela democratização – trucidada – também mostra que a forma de entender a participação política tem a ver com a infância e vivência dos povos. Na China, quem nasceu depois de 1949, não soube o que é democracia e foi exposto a propaganda sucessiva contra as democracias liberais.

– Estava na China aquando o Massacre de Tiananmen. Crê que contribuiu para o silêncio?

L.J. – Absolutamente, mas isso é limitado aos que o viveram. A geração que saiu da Revolução Cultural viu melhorias nos anos 80. Acreditava-se que a China se estava a abrir e que podia mudar. Os protestos não surgiram pela democratização, mas sim contra a corrupção. Foi a repressão que o converteu numa luta pela democracia. Ninguém antecipava o desfecho: tanques nas ruas, militares a disparar contra civis. A geração que testemunhou este acontecimento ficou profundamente traumatizada, mas o trauma não passou para as gerações seguintes graças aos media e à educação.

– A China quase que passou de um sistema imperial para o de partido único. Tal determinou como se encara a política e direitos humanos?

L.J. – Sun Yat Sen idealizava uma democracia, mas defendia igualmente a obrigação do Estado em garantir o bem-estar da população. Era uma democracia bastante imperfeita na qual, por exemplo, só homens podiam votar. Entre 1911 – aquando da queda da última dinastia – e 1949 – quando o Comunismo tomou o poder – o país era uma república com guerras civis, havia muitos problemas e nunca funcionou. Depois chegou o Comunismo e foi implementada o que o partido chama de ditadura democrática, que significa que o PCC – que se encara como uma entidade democrática – exerce a ditadura em representação da maioria. Contudo, quando foi elaborada a declaração dos Direitos Humanos na ONU, um dos principais redatores era chinês e estava em representação da República da China, pré-1949. Quer isto dizer que a visão da China no que respeita a este tema estava bastante alinhada com a visão da restante comunidade internacional.

– Pequim defende que tem uma noção diferente.

L.J. – Tudo mudou com o Partido Comunista chinês, que defende ter sido quem assegurou direitos humanos ao país e que o mais importante é viver dignamente. O partido advoga que tirou a população da fome e pobreza. Grande parte dos que discordam desta visão está na prisão.

– Voltando ao tema da humilhação, atesta que a persistência de Pequim na ‘unificação’ tem origem nessa ideia. Há um desejo de vingança?

L.J. – Desde 1949, a China teve três abordagens no que respeita às relações internacionais. Mao bateu-se por exportar a Revolução, encorajar outros povos a fazer a sua; para Deng, a prioridade era a prosperidade; com Xi, vemos uma China assertiva, que quer afirmar-se como grande potência.

– Hong Kong deixou isso claro.

L.J. – O que aconteceu foi trágico e não começou em 2019 com os protestos ou em 2020 com a Lei de Segurança Nacional. Assistimos à erosão progressiva do que a população de Hong Kong pensava que teria durante 50 anos – a autonomia.

– Pode ter sido uma jogada perigosa?

L.J. – Não me parece que Xi Jinping perca horas de sono a pensar que a China pode ter transparecido que não é de confiança porque violou o acordo. No final de contas, vão sempre dizer que Hong Kong pertence ao país e que foi roubada pelos britânicos através de acordos injustos, que foram muito bons por não terem recuperado a região através da força antes, que é um assunto doméstico e que Inglaterra é a culpada. Esta é a visão de Pequim. Com Macau foi diferente. Portugal quis entregar a região, mas a China, que estava a braços com a Revolução Cultural, rejeitou. Além disso, há o plano da Grande Baía, no qual Hong Kong será apenas uma parte. Acha que Pequim se preocupa que a Amnistia Internacional tenha abandonado a região?

– Não há riscos de o feitiço se vai virar contra o feiticeiro?

L.J. – Sabem que haverá sempre alguém que vai querer fazer negócio com eles. É o jogo que estão a jogar com a invasão da Ucrânia. Têm ajudado a propaganda russa e portanto os habitantes não sabem bem o que está a acontecer. Ao nível doméstico, não há problema. Internacionalmente, Pequim tem sido cuidadosa para evitar ser abrangida pelas sanções.

– No livro desconstrói a imagem da China monolítica e revela um país diverso. Não vemos grande apologia dessa diversidade no discurso oficial.

L.J. – Não é o objetivo do Partido Comunista, mas é uma realidade. Em 2013, o Ministro da Educação admitiu que o puntongua era a língua nativa de menos de 10 por cento da população e dominado por 13. O partido quer promover o mandarim, e reprimir o uso de dialetos e idiomas regionais, mas estão profundamente enraizados. Pode policiar-se até certo ponto, mas é complicado extinguir. Outro dos aspetos sobre a diversidade que abordo tem a ver com a condição. Mesmo duas pessoas que vivam em Xangai podem ter visões completamente diferentes. O Partido não consegue controlar tudo.

– As mulheres assumem destaque no livro. Não lhes é feita justiça?

L.J. – Por norma, conhecemos as figuras negativas como a mulher de Mao, mas a China sempre teve mulheres incríveis: guerreiras, poetisas, entre outras, mas essa força foi reprimida. Não há uma mulher no Politburo. O partido tem tomado algumas medidas para incluir mulheres na política, mas ao nível das províncias. É uma sociedade muito patriarcal e conservadora. O envelhecimento da população e a crise demográfica que o país atravessa tem agravado esta condição com novas políticas contra a mulher. A questão é que elas hoje já não querem ter filhos e querem ser independentes.

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