A difícil caça aos bens ocidentais dos oligarcas russos

por Fernanda Mira

A resposta ocidental à invasão da Ucrânia visa as finanças de oligarcas próximos ao presidente russo Vladimir Putin, mas a implementação das medidas é difícil e tem pouco sucesso, como demonstra a apreensão de iates na França e na Itália.

Desde o início da ofensiva russa na Ucrânia, em 24 de fevereiro, a União Europeia (UE), os Estados Unidos e o Reino Unido atualizam quase todos os dias suas listas de pessoas próximas do regime russo que, com uma canetada, se tornam párias do sistema financeiro internacional.

Deputados, oficiais militares, jornalistas, industriais e investidores… centenas de pessoas têm seus bens congelados em países ocidentais e às vezes também não podem viajar para esses territórios.

Entre eles estão Nikolay Tokarev, diretor da estatal responsável pelos oleodutos da Transneft; Serguei Chemezov, do conglomerado industrial militar Rostec; o empresário russo-uzbeque Alisher Usmanov, considerado “um dos oligarcas favoritos de Putin”; ou o presidente do banco de desenvolvimento russo VEB Igor Shuvalov.

Os magnatas alvos de sanções terão seus “iates, apartamentos de luxo e aviões particulares confiscados”, alertou o presidente dos EUA, Joe Biden, em 1º de março.

As medidas também afetam suas famílias e ‘joint ventures’ de gestão de ativos “para que não possam se esconder atrás de estruturas financeiras”, disse o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire.

Além dos oligarcas, as sanções também atingem outras 2.000 a 3.000 pessoas “muito, muito ricas” ligadas ao regime de Putin, disse à AFP Robert Barrington, professor da universidade inglesa de Sussex.

De Londres à Riviera

A França “é um país que abriga muitos destes bens ilícitos”, diz Sara Brimbeuf, diretora da ONG Transparência Internacional na França. E “os imóveis de luxo são um caminho privilegiado para a lavagem de corrupção ou desvio de dinheiro público”.

O patrimônio dessas personalidades concentra-se nas famosas cidades da Côte d’Azur, no oeste de Paris e em um alguns resorts nos Alpes. Mas é muito difícil identificá-los com certeza.

Daria Kaleniuk, uma proeminente figura anticorrupção ucraniana citada pela Transparência Internacional, investigou documentos de propriedade, judiciais e confidenciais.

Segundo ela, uma mansão em Saint Tropez pertence ao fundador da gigante do alumínio Rusal, Oleg Deripaska, alvo de sanções dos EUA desde a anexação da Crimeia em 2014.

Os nomes de Boris e Arkadi Rotenberg, sancionados por Washington, estão ligados a duas propriedades próximas a Nice e Grasse, segundo Kaleniuk.

Esses irmãos, amigos de infância de Putin, enriqueceram com contratos públicos de construção, especialmente por ocasião dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014.

Daria Kaleniuk também atribui uma suntuosa mansão na Riviera Francesa a Gennady Timshenko, que a UE considera um “confidente” de Putin.

Este bilionário é cofundador e acionista de várias empresas, incluindo o grupo de investimentos Volga e o grupo de comércio de commodities Gunvor.

Londres também atraiu muitos investimentos dos oligarcas graças às facilidades para eles e suas famílias e seu sistema educacional elitista.

Os russos acusados de corrupção ou próximos do Kremlin têm imóveis avaliados em “1,5 bilhão de libras” (1,9 bilhão de dólares no câmbio atual), segundo o professor Barrington, que considera que o valor “é muito maior na realidade”.

Armadilhas

A aplicação das sanções recai sobre alguns profissionais, como gerentes de bancos, tabeliães ou advogados, geralmente acusados de fazer vista grossa.

Investimentos russos duvidosos “não acontecem por acaso”, disse à AFP Jodi Vittori, pesquisadora de corrupção da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.

Os oligarcas “têm facilitadores: advogados, contadores, negociantes”.

“Nem todos cumprem seu papel” e “não comunicam suas suspeitas [às autoridades], embora estejam sujeitos a obrigações contra a lavagem de dinheiro”, aponta Brimbeuf, da Transparência Internacional.

As revelações que saíram na imprensa em 20 de fevereiro sobre o banco Credit Suisse, acusado de guardar bilhões de dólares de fundos de origem criminosa ou ilícita durante décadas, mostram que esse setor “não cumpre com suas obrigações de informação”, acrescenta.

A identificação dos ativos é demorada e tediosa, já que “o exame dos arquivos é feito à mão”, disse à AFP um porta-voz de um grande banco.

Empresas de fachada complexas e esquemas financeiros muitas vezes precisam ser examinados para vincular uma pessoa sancionada aos seus ativos.

“Um dos obstáculos é o uso de laranjas”, comentou à AFP Julien Martinet, advogado do escritório francês Swiftlitigation. Investigá-los exigiria “uma mobilização significativa dos serviços de inteligência”.

Consequentemente, até agora aconteceram poucas operações midiáticas.

No sul de França, a alfândega apreendeu na quinta-feira o ‘Amore Vero’, um mega iate avaliado entre 108 e 130 milhões de dólares, propriedade de uma empresa ligada a Igor Sechin, presidente do grupo petrolífero Rosneft.

A Itália anunciou no sábado que havia congelado ativos de oligarcas russos no valor de 153 milhões de dólares, incluindo dois iates apreendidos no dia anterior.

Um deles, ‘Lady M’, pertencia a um magnata do aço, Alexei Mordashov; e o ‘Lena’, a Gennady Timshenko.

A aplicação de sanções “não pode ser feita da noite para o dia”, declarou à AFP Carole Grimaud Potter, professora de geopolítica russa na universidade francesa de Montpellier.

Sara Brimbeuf recorda que “ainda estão em curso várias investigações iniciadas há mais de dez anos durante a ‘Primavera Árabe'”.

“KleptoCapture”

Para superar as dificuldades, o procurador-geral dos EUA, Merrick Garland, anunciou na quarta-feira a criação de uma célula, chamada “KleptoCapture” e dedicada a perseguir “oligarcas russos corruptos”.

A França também tem seu próprio grupo de trabalho composto por dezenas de pessoas da administração tributária, do serviço de inteligência financeira, da alfândega e do Tesouro.

Até os amadores participam. No Twitter, o adolescente americano Jack Sweeney segue a pista de jatos particulares em sua conta “Russian Oligarchs Jets”.

Mas não basta identificar os bens. Se a constituição da lista sancionada permitir o bloqueio de seus bens, sua apreensão é juridicamente mais complexa.

“Para violar o direito de propriedade, é necessária uma lei, não apenas um regulamento ou uma ordem”, explica Martinet.

A apreensão do ‘Amore Vero’ aconteceu porque “eles tentaram se deslocar e, portanto, foram contra a lei”, disse um supervisor da “força-tarefa” francesa.

Salve-se quem puder

Vários bilionários russos preferiram enviar seus iates para águas territoriais mais conciliatórias o mais rápido possível.

“Fala-se muito que os iates russos estão se preparando para deixar a Côte d’Azur”, disse à AFP uma fonte familiarizada com o setor, citando Dubai como um possível destino.

As Maldivas, que não têm tratado de extradição com os Estados Unidos, também são outro destino provável. Vários iates foram avistados lá, incluindo aqueles pertencentes ao magnata do alumínio Oleg Deripaska e ao magnata do aço Alexander Abramov.

Por outro lado, não houve vendas massivas de imóveis na Côte d’Azur, segundo uma fonte do setor.

De qualquer forma, vários bilionários russos preferiram cortar os laços com seus negócios de destaque, como o proprietário do time de futebol londrino Chelsea, Roman Abramovich.

Este amigo íntimo de Putin, que tem uma fortuna estimada em 12,4 bilhões de dólares segundo a Forbes, decidiu vender o clube, apesar de não estar sujeito a sanções no momento.

Pode também interessar

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!