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Veículos elétricos de Singapura até Macau

Os carros elétricos são a tendência do momento por todo o mundo. Por exemplo, no passado mês de novembro, o Conselho de Estado da República Popular da China publicou o “Plano de Desenvolvimento de Veículos a Energia Elétrica (2021-2035)”, através do qual procura garantir que, até ao ano de 2025, 20 por cento das vendas totais de automóveis no país correspondam a veículos elétricos.

De forma a reduzir as emissões de gases de efeito estufa o governo japonês também definiu o objetivo de garantir que até ao ano de 2035 os veículos elétricos, incluindo aqueles movidos apenas a energia elétrica, representem 100 por cento das novas vendas. Países europeus como o Reino Unido, Alemanha, França, Suíça e Dinamarca irão banir a venda de veículos a combustível a partir de 2030. Já os Estados Unidos planeiam garantir que os carros elétricos representam entre 40 por cento a 50 por cento do total de vendas até 2030, assim como novas regras para emissões automóveis que procuram reduzir a poluição até ao ano de 2026.  

Em Macau, de acordo com a Lei n.º 5/2002 para o “Regulamento do Imposto sobre Veículos Motorizados”, veículos novos que utilizem exclusivamente energias alternativas aos combustíveis derivados do petróleo (ex: carros elétricos) podem pedir isenção de imposto à Direção dos Serviços de Finanças. Esta política assemelha-se à adotada em Singapura; porém, no caso de Macau, não é mencionada a data-limite para o benefício. Acredito que Macau pode basear-se no Sistema de Emissões de Veículos (VES, na sigla em inglês) de Singapura, que possui ainda uma política de benefícios e sanções para melhor promover a utilização destes veículos.  

Mas porque é que estes veículos ainda são tão pouco populares em Macau? Acredito que o principal problema é a falta de benefícios. Macau possui atualmente cerca de 100 mil motociclos. Se calcularmos o seu consumo semanal rondando as 50 patacas, as bombas de gasolina contam com uma receita de 5 milhões de patacas por mês. Este resultado diz apenas respeito a motociclos, o veículo que consome menos combustível. Como podemos imaginar, esta receita leva a que as grandes corporações de petróleo representem um obstáculo enorme para o desenvolvimento de carros elétricos. Por isso o governo deve assumir a liderança na promoção destes veículos, encorajando os vendedores automóveis a criar dias de test-drive e a popularizar os benefícios de veículos elétricos em comparação com veículos a combustível, assim como criar mais estações de carregamento em parques de estacionamento.    

Macau pode usar Singapura como referência e criar uma organização responsável por todos os trabalhos relacionados com veículos elétrico 

Atualmente existem apenas 1.500 veículos elétricos em Singapura, mas 2.000 postos de carregamento, com o Governo a planear construir mais 60 mil, até 2030 – 40 mil em lugares de estacionamentos públicos e 20 mil em instalações privadas. Para promover este plano o Governo irá ainda oferecer financiamento de construção a condomínios privados que queiram instalar postos de carregamento, cobrindo metade dos custos da instalação dos novos componentes necessários. De acordo com a informação publicada pela Direção dos Serviços de Proteção Ambiental de Macau, a 31 de agosto de 2021, a cidade contava com 1.989 veículos elétricos, dos quais 1.489 eram motociclos. Contudo, a cidade conta apenas com 200 postos de carregamento para motociclos; ou seja, cada espaço tem de ser partilhado por mais ou menos 7 utilizadores. O modelo Tesla 3, por exemplo, necessita de cerca de 6 horas de carregamento, ou uma hora no modo supercharging, fazendo com que 200 estações de carregamento sejam suficientes para dar resposta aos utilizadores. No entanto, visto que as estações não estão todas centralizadas, e com a maioria dos residentes a carregar os seus veículos à noite, as filas acabam por ser uma ocorrência diária. Vários fabricantes como a Tesla e a NIO possuem ainda as suas próprias estações de carregamento; porém, a maioria encontra-se em parques de estacionamento de hotéis. Pelo contrário, muitos postos de carregamento em locais públicos com espaços livres não possuem utilizadores para os mesmos.  

É preciso considerar os hábitos dos utilizadores. Muitos dos condutores não abandonam o lugar imediatamente após o carregamento, causando ainda mais congestionamento dos postos já limitados da cidade. Para não falar dos parques de estacionamento com postos de carregamento estragados, que mesmo após serem reportados continuam por arranjar. Todos estes fatores afetam o desenvolvimento dos veículos elétricos. Por isso acredito que o atual sistema de parquímetros, ou até um sistema com escalões (com tarifas mais baixas para postos de carregamento, por exemplo) poderia ajudar a travar os problemas acima referidos.  

O governo de Singapura criou o Centro Nacional de Veículos Elétricos (NEVC, na sigla em inglês) para promoção dos benefícios destes veículos entre a população, incluindo o acelerar da implementação de estruturas de carregamento elétrico por todo o território, desenvolvimento da legislação e normas para a nova indústria e criação de um ecossistema favorável para os mesmos. O NEVC está a trabalhar em conjunto com vários departamentos governamentais e membros da indústria para lançar ainda atividades relacionadas com veículos elétricos no futuro. Esta decisão contribuiu para o desenvolvimento seguro e inovador da tecnologia.  

Do meu ponto de vista, Macau pode usar Singapura como referência e criar uma organização responsável por todos os trabalhos relacionados com veículos elétricos, o que também irá ajudar o público a ter acesso a um canal de informação uniforme e conveniente.  

Macau é um local pequeno, com uma das maiores densidades populacionais e de construção no mundo, contendo mais de 200 mil veículos num espaço de 33 quilómetros quadrados. A longo prazo o desenvolvimento destes veículos irá também ajudar a reduzir a poluição do ar e poluição sonora. A China tem também desenvolvido veículos elétricos ao longo dos últimos anos para criar um sistema de viagens mais conveniente. Resumindo, os benefícios do desenvolvimento desta indústria podem já ser claros, tanto a curto como a longo prazo, mas é essencial que cada governo assuma a liderança na sua promoção.  

*Coordenador Administrativo na Genervision 

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