Leituras de verão - Capítulo 1 - Plataforma Media

Leituras de verão – Capítulo 1

Desde que há registo nunca nasceram tão poucos bebés no primeiro semestre deste ano em Portugal, porém estou convicto que entre Abril e Junho do próximo ano nascerão mais uns poucos; é que estamos no mês favorito de férias dos portugueses. A vida não é só inflectir sob o peso de preocupações e nesta época, para quem pode, além de banhos de sol, banhos de mar, e banhos no palato, é possível banhar o espírito de uma maneira geralmente ausente da maioria: através de um livro. É a esses que me dirijo. Querem passar uma imagem diferente neste verão? Ambicionam algo mais que transportar a toalha, telemóvel e uma nova tatuagem? Então aconselho um livro. Alguns dirão “um livro? Que giro”, se o adquirirem não passarão do 2º capítulo após o que ficará a ganhar pó numa prateleira, mas isso já não é problema meu, o meu resolveu-se com a sugestão. “E onde se pode comprar um livro”, perguntar-me-ão? Não é necessário desviarem-se da rotina ou visitarem sítios aborrecidos, basta ir a um supermercado. Talvez já tenham reparado que antes do pão Bimbo, o fiambre Isidoro, e as bebidas para levar para a praia há logo à entrada, a seguir às revistas, uma secção que vende isso, livros. “Mau, estarei a notar um paternalismozinho presunçoso?” pensarão; é verdade, desculpem, vou parar com este discurso e nem irei sugerir leituras de verão, elas ficam a cargo do top de vendas do supermercado, afinal se aqueles livros se vendem bem por alguma razão deve ser, certo?  

De uma análise à oferta verifiquei que os autores mais vendidos nos supermercados se dividem em 3 grupos. A- os que transmitem seriedade, autores de 3 nomes como Pedro Chagas Freitas, Lúcia Vaz Pedro, e Helena Sacadura Cabral, B- os pseudónimos que estimulam devaneios românticos e também usam 3 nomes, Raul Minh’Alma e Afonso Noite-Luar, e C- os estrangeiros a quem basta um nome anglófono para conferir autoridade ao que escrevem. A completar o top há também outros sub-grupos, as figuras de televisão como José Rodrigues dos Santos, José Gomes Ferreira, Fátima Lopes, Cristina Ferreira, e autores estrangeiros cuja temática não descortino mas têm as capas cheias de palavrões com “pis”. É sobre os últimos que esta semana me debruço. 

Para começar temos os icónicos Está tudo f*dido e A arte subtil de dizer que se f*da de Mark Manson; a capa diz que ele é o “autor bestseller do The New York Times”. New York Times? Ui, então tem certificado de qualidade. Há ainda Como deixar de se sentir uma m*rda de Andrea Owen, Mude a sua vida aprendendo a dizer que se f*da de Sarah Knight, apregoando a relevante informação “um bestseller internacional, f*da-se” e Como sobreviver a um filho da p*ta de Robert I. Sutton considerado por Daniel H. Pink (quem é o Daniel Pink?) “um clássico contemporâneo”. Recentemente surgiu no top de vendas o Sábio como o c*ralho de Gary John Bishop. Tal como os outros serve-se da capa para adicionar informação, e neste caso arroga-se em livro de “verdades simples para enfrentar as m*rdas todas que te acontecem”;no topo esquerdo um autocolante lembra que Gary Bishop é o autor de Não te F*das. Eis o primeiro parágrafo: “Seja qual for o teu problema de merda, pelo menos uma coisa é certa: nunca ninguém te disse como lidar com ele”. Não li mais. Talvez o livro me ensine a lidar com os meus problemas de merda sobre os quais certamente ninguém me ensinou a lidar; suponho que intente desenmerdar-me a vida embora estranhe que logo na capa e no primeiro parágrafo ele me encha a cabeça de merda. Não percebo o propósito a menos que a cabeça cheia de merda seja a dele e esteja só a espalhá-la numa ventoinha, ou seja um livro, um difusor da palavra escrita. Estes montes de caca expostos sem nexo aparente em supermercados destacam-se do resto, um palavrão atrai moscas, mas numa livraria nem saberia em que secção procurar, auto-ajuda? Para quem, para os autores? Ajuda de quê, económica? Claro. Hoje tanto supermercados como livrarias estão pejados deste género de lixo e tendo as editoras consciência do que publicam, munem-se do falso moralismo de substituir uma letra por um asterisco, não assumem o palavrão porque reconhecem ser gratuito, de qualquer modo, tapado ou não é sempre protuberante, no fim de contas o que se pretende. Não vou estar com meias-palavras, detesto isto tudo. Se a vulgaridade já teve um certa vergonha não sei se agora é mais irritante tê-la perdido, armar-se em moralista, ou pôr paninhos quentes em cima do excremento, salientando-o ainda mais.

Vejamos: a educação gera a necessidade de saber – a necessidade de saber gera a procura de livros – a procura de livros gera livrarias que pretendem ganhar dinheiro com os interesses das pessoas – os interesses das pessoas atestam-se na quantidade e qualidade de secções temáticas – as secções temáticas que cultivam o espírito são ínfimas e as que se dedicam ao prosaico são imensas – logo é imensa a falta de educação.

“Os clássicos são livros que quanto mais se julga conhecê-los por ouvir falar, mais se descobrem como novos, inesperados e inéditos ao lê-los de facto” – Italo Calvino

Sempre tomei os clássicos como adquiridos e não me apercebia da profundidade desta afirmação até constatar o vazio de prateleiras cheias de livros que não me dizem nada, apenas gritam comigo, fedem, lutam entre si pelos meus euros. Vivemos a utopia do nazismo onde é desnecessário realizar queimas de livros inconvenientes porque simplesmente não há nada para queimar. Ah, a ironia…

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