Sudão do Sul, dez anos de "um país que foi forçado a existir" - Plataforma Media

Sudão do Sul, dez anos de “um país que foi forçado a existir”

O Sudão do Sul celebra dez anos de independência na sexta-feira, refém de “cleptómanos” e palco de uma das maiores crises humanitárias no mundo, “um país que foi forçado a existir”, mas que permanece sem estruturas soberanas.

Para o analista e investigador Manuel João Ramos, o país mais jovem do mundo, 193º estado-membro das Nações Unidas, declarado independente em 9 de julho de 2011, faz esta sexta-feira dez anos, mas “nasceu já como estado falhado, com grandes fragilidades, sem estruturas políticas e económicas suficientemente estáveis para criar um país, e portanto caiu imediatamente nas mãos de cleptómanos”.

“É um país que foi forçado a existir. Mais por razões externas, talvez, do que internas”, num processo em que as Nações Unidas desempenharam um papel importante, mas coube aos Estados Unidos papel principal, diz o especialista nos países do Corno de África, investigador no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (CEI-IUL).

O Sudão do Sul nasceu com “poucas ou nenhumas estruturas” do ponto de vista institucional e político e foi colocado num “processo acelerado de construção do Estado, com todo o apoio internacional – e as Nações Unidas aqui tiveram um papel muitíssimo direto no processo”, diz igualmente Daniela Nascimento, investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, especialista na região do Corno de África.

“Todo o modelo de construção pós-bélica das Nações Unidas, de construção do Estado foi implementado a partir de fora, a partir deste estímulo: criação da estrutura política, ainda que débil, e da estrutura económica, voltada obviamente para a economia liberal, para que o Sudão do Sul pudesse inserir-se o mais rapidamente possível no sistema económico internacional”, descreve Nascimento.

Pelo caminho, descurou-se todo o processo de desmilitarização, “muito frágil e mal conduzido, que se reflete ainda hoje na dificuldade que o Sudão do Sul tem de ter um exército regular nacional”, a que soma a ausência de “um processo de reconciliação”, acrescenta a investigadora de Coimbra.

Em consequência, estamos “muito longe da euforia” vivida no referendo de janeiro de 2011, em que 98,3% dos quase 12 milhões de sudaneses do sul votaram a favor da autodeterminação, assim como no dia 9 de julho desse ano, em que celebraram a consumação dessa escolha, aponta Mark Millar, analista de conflitos no Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC, na sigla em inglês).

“A situação piorou, de facto. Os ciclos de violência, que já tinham quatro décadas, foram renovados e exacerbados e tornaram-se ainda maiores. O processo de paz não correspondeu às expectativas do povo”, diz à Lusa o analista britânico do NRC, que trabalha em Juba, capital do Sudão do Sul.

O ponto de viragem para o caos em que o país se encontra, segundo Millar, foi a guerra civil desencadeada em dezembro de 2013 por “indivíduos de elite que mobilizaram as comunidades para obter recursos pessoais, políticos e económicos”.

Esta guerra civil “deitou fora a oportunidade de quaisquer desenvolvimentos que pudessem ter acontecido” em benefício da construção do país. “E o que se vê neste momento é uma rutura dos níveis de governação em todo o território, uma desintegração do país”, explica Millar.

E o que é mais “trágico”, acrescenta o analista, é que no final de 2013, mesmo depois de meses de tensão crescente, “ainda podia ver-se um caminho de regresso, podia ver-se como voltar a consertar aquela coisa quebrada”.

Sete anos, 400 mil mortos, 2,2 milhões refugiados e 1,4 milhões de deslocados internos depois, segundo o NRC, “o tipo de rutura a que assistimos neste momento, em muitos aspetos, é muito mais grave, muito pior. As peças são muito mais pequenas. É difícil para pessoas como eu, que estou no campo, ver como é que vamos voltar a juntar isto quando tivermos oportunidade de o fazer”, conclui Mark Millar.

Aleksi Ylonen, investigador finlandês também associado ao CEI-IUL, descreve o Sudão do Sul como um “país que nasceu de uma guerra, como acontece com muitos países, um “produto de um movimento rebelde” que “resistiu durante décadas ao poder sudanês em Cartum”, diz.

Com uma população maioritariamente cristã, o Sudão do Sul separou-se do Sudão e “nasceu enquanto país autónomo porque grandes potências, em particular os Estados Unidos, quiseram a sua independência”, diz Ylonen.

A guerra civil de 2013 é resultado de divisões no seio de “uma espécie de entidade política”, na expressão do investigador finlandês, onde “uma coligação de senhores da guerra com as suas tropas pessoais com os seus interesses pessoais, deixou de se entender”.

Nesta altura, o então vice-presidente, Riek Machar, de etnia Nuer (pastores) “sentindo-se ameaçado em Juba, refugiou-se nas florestas. Machar percebeu que não havia condições de vir a ser presidente, porque Salva Kiir Mayardit [o Presidente do país, de etnia Dinka, agricultores, a maior do país] mostrava sinais de não vir a abdicar do seu lugar no calendário previsto”, descreve Ylonen.

A guerra civil terminará oficialmente em setembro de 2018 com a assinatura de um chamado acordo de paz “revitalizado” – após o fracasso de um primeiro assinado em 2015 — que, no essencial, fixa um princípio de partilha do poder e um mapa para a constituição das infraestruturas básicas do país, a começar pelo desenho e aprovação de uma constituição, formação de um exército nacional, e organização de eleições que permitam preencher um parlamento legitimado democraticamente.

“A questão hoje é que estes acordos não estão a ser implementados nos calendários estabelecidos, sobretudo no que diz respeito às questões de partilha de poder. E, mais uma vez, o maior problema da implementação prende-se com a contínua desconfiança entres os dois principais atores, Kiir e Machar”, diz o investigador finlandês do CEI-IUL.

As Nações Unidas têm alertado para a possibilidade de uma nova insurgência e regresso à guerra civil, sendo que, agora, a ignição do regresso à guerra pode sair da arma de qualquer um dos generais dos dois campos, e até nem passar pelos dois líderes principais. “Basta que os interesses individuais de qualquer um desses senhores da guerra sejam postos em causa”, descreve Ylonen.

Mark Millar sugere que “olhemos para trás”, para a forma como foi criado o Sudão do Sul, um país rico em petróleo, minérios, madeiras, e outros recursos valiosos. Sugere que nos recordemos da “vontade” com que entraram no país a comunidade internacional, as Nações Unidas e as principais organizações multilaterais, e da “quantidade imensa de dinheiro que se atirou para um país que não tinha estruturas nem como mediar a concorrência por esses recursos de uma forma que não acabasse por transformar-se em violência”.

“Não é surpreendente a forma como as coisas correram. E ainda estamos a tentar lidar com isso. Mas já permitimos que isso acontecesse. Agora, só temos de reparar. E o que fica é esta questão estrutural em relação à forma como os estados são criados”, diz Millar.

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