Indústria musical de Macau continua distante

Indústria musical de Macau continua distante

Os TDM Music Awards, considerados como o maior palco de exibição para a música pop em Macau, chegam à 18ª edição. No entanto, a indústria musical local, em evolução há vários anos, continua a viver o que pode ser definido como uma fase prematura. Alguns músicos sediados em Macau acreditam que apesar da desvantagem da cidade devido a um mercado exíguo, o Governo deve apoiar o desenvolvimento de artistas locais, aprendendo com as experiências de sucesso de outros países, em vez de continuar a cometer erros “bens intencionados”. Profissionais locais da área do entretenimento afirmam que o mercado de Macau não dá valor à qualidade musical.

População “não tem carinho” pelos cantores locais

Como forma de promoção de música original em Macau a TDM organiza anualmente os TDM Music Awards, e desde que os Blademark, banda local, venceram o prémio de Melhor Banda Masculina, na 7ª edição, o evento tem continuado a demonstrar sucesso ao longo dos últimos anos. Fortes Pakeong Sequeira, vocalista da banda, lembra que após alguns anos alguns membros acabaram por abandonar o grupo, iniciando uma nova fase nas respetivas vidas, incluindo pequenas férias dos palcos. “A banda chegou a ir ao continente e a Hong Kong. Se a música for boa, fãs de qualquer local irão receber bem os artistas. Mesmo se tivermos de partilhar o palco com outro grupo, o público ficará ainda mais interessado em ver-nos no futuro. No entanto, a população de Macau não apoia um artista apenas por este ser local. A cultura de rua da cidade faz com que os artistas percam o mistério e que os cantores de Macau não se comparem aos lá de fora”, diz.

O vocalista acredita que os media de Macau deveriam prestar mais atenção e apoio aos artistas locais. “Já trabalhámos muito e tivemos bastantes sucessos, mas a população de Macau continua de olhos fechados. Limita-se a ver televisão e a admirar a cultura e música de outros locais. A nossa banda em específico, não sei como, conseguiu ter algum sucesso no continente. Os fãs de lá são muito calorosos. Gostava que fosse igual em Macau”, assinala Pakeong Sequeira.

Música pop não tem sucesso no mercado

Para o vice-presidente da Associação de Indústria de Música de Macau, Bill Leong, muitos jovens cantores no início de carreira não se importam de atuar sem receber, além de alguns promotores também não estarem dispostos a investir em artistas locais devido à falta de popularidade. Por isso, assinala, muitos aceitam estas oportunidades de atuar sem cobrar qualquer valor.
“Os organizadores de eventos oferecem-te a oportunidade de atuar sem remuneração ou, no máximo, consegues 100, 300 ou 500”, acentua. Bill Leong tem a própria produtora de entretenimento, incluindo produção musical, mas afirma que a indústria da música local continua igual com o passar de anos. “Vários projetos têm orçamentos, mas para a música nunca há orçamento”, lamenta.

Interrupção dos subsídios. Aprender com a experiência de outros países

Para Fortes Pakeong Sequeira, apesar de a população da cidade ser insuficiente para sustentar a indústria musical local, devem ser lançadas medidas que obtiveram resultados em outros países, com atividades de renome e promovendo a música de Macau.

“Tornou-se difícil para cantores estrangeiros vir atuar a Macau durante a pandemia. Macau possui já uma larga quantidade de grandes palcos, através de uma colaboração com empresas públicas e empresas de jogo é possível criar e promover festivais de música na cidade. Esta reunião de recursos ajudará a promover atividades de renome. Além do mais, neste momento os artistas locais têm mais oportunidades de atuar em Macau”, defende.

O vocalista revela que estão a planear uma colaboração com o Festival East Sea, trazendo eventos de renome do continente a Macau.

Em relação às medidas governamentais com apoios a projetos singulares, afirma que estes subsídios devem ser reduzidos.

“Muitos recursos são direcionados neste sentido, mas são subsídios que acabam por não ser úteis. Financiando álbuns, muitos artistas apresentam as respetivas candidaturas, mas depois não têm palcos, acompanhamento ou vocalista”, atira.

Bill Leong entende que, embora em teoria o financiamento de projetos musicais seja positivo, os subsídios não resolvem os problemas a longo prazo. “Os subsídios governamentais devem ser um bónus. Os artistas não devem depender apenas destes fundos, devem possuir outras formas de sobreviver na indústria”, aponta.

Promoção da cultura de Macau

“Quando recordo os últimos 10 anos, lembro-me dos pequenos e grandes palcos em que atuamos no continente, Macau, Taiwan, e até Austrália. Começamos a compreender como comunicar com o público, sabemos o que querem e a responsabilidade que temos em palco. Estamos a promover cultura e a mensagem das nossas canções. Esperamos trazer estas experiências a Macau”, diz.

O vocalista conta que inicialmente faziam música apenas por gosto, mas ao longo do trajeto chegaram a ouvir frases como “querem mesmo fazer música?”, “tantos anos e ainda não desistiram?” e “nem sabem sobre o que cantam”.

O próprio Fortes Pakeong Sequeira considerou desistir. “Entretanto acabei por encontrar a resposta. Fazer música em Macau é também partilhar a cultura local. Quero mostrar às pessoas de fora, e aos locais também, que a nossa juventude está a fazer algo fora do normal e com valor. Há vozes que devem ser ouvidas. Devemos levantar os braços e gritar com orgulho que somos de Macau”, conclui.

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