Bacar ficou sem cinco filhos na guerra em Cabo Delgado - Plataforma Media

Bacar ficou sem cinco filhos na guerra em Cabo Delgado

Bacar Fumo, 47 anos, pai de sete filhos, já perdeu cinco durante a guerra em Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Agora tenta manter dois a salvo, mas a tarefa é complicada: chegou na quinta-feira à praia de Paquitequete com o resto da família, num barco lotado, em fuga dos ataques a Palma, e queixa-se de falta de apoio.

“Inscreveram os nossos nomes [em listas de ajuda] e não apareceram mais. Fica difícil nós falarmos o que está nos nossos corações”, sublinha.

Queixa-se de falta de interesse das autoridades e expressa o desejo de poder chegar a outros sítios de que já ouviu falar, centros de reassentamento de deslocados onde é possível ter terra para voltar a cultivar – e assim ter alimentos – como em Nanjua (distrito de Ancuabe) ou Montepuez, refere.

Para já, o melhor que conseguiu foi uma família de acolhimento em Pemba, onde apesar das imensas necessidades, a hospitalidade tem sido motivo de destaque.

Bacar e a família não sabem quando vão ter a próxima refeição decente, mas pelo menos deixam de dormir ao relento, na areia, a racionar restos de comida, num retrato comum a dezenas de outras famílias que têm pernoitado na praia do Paquite, após a chegada de barcos das últimas semanas.

Vêm da zona norte da província, maioritariamente do distrito de Palma, onde o conflito entre rebeldes e Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas continua aceso.

Dos sete filhos de Bacar Fumo, dois foram mortos por rebeldes armados durante um ataque a Mocímboa da Praia, vila ocupada desde agosto de 2020, e outros três foram mortos durante o ataque a Palma, já este ano, em 24 de março.

Ele e a esposa fugiram com a roupa do corpo para tentar salvar os dois filhos que lhes restam, numa corrida pela vida juntamente com outros familiares que deles dependem.

Sem dinheiro, ficaram durante abril e maio na aldeia de Namandingo, ainda no distrito de Palma, mas “sem sossego”, recorda Bacar, porque os insurgentes continuavam a atacar as comunidades vizinhas.

Ainda assim, conseguiram amealhar algum dinheiro (cerca de 11.000 meticais – 146 euros), fruto de trabalho nas ‘machambas’ (hortas) de quem precisava de ajuda, superando o medo de trabalharem a terra numa área sob ameaça dos ‘malfeitores’.

Na quinta-feira da última semana chegaram a Pemba, ao bairro de Paquitequete, com outras 18 famílias, que incluem filhos, netos, cunhados e outros parentes, após uma viagem que durou três dias.

“Chegámos e vieram pessoas para nos inscrever [em listas de distribuição de ajuda], mas não recebemos nada. Pelo menos comida”, queixa-se Bacar, como quem também precisa de desabafar.

Ao lado, Age Issa Momade, 53 anos, ‘chefe’ de família, fugiu de Palma com mais 23 pessoas, das quais 10 crianças, entre filhos, netos, bisnetos e conhecidos.

Numa primeira etapa, enfrentaram as marés para chegar até à ilha de Matemo e dali fizeram três dias de viagem num barco à vela até à praia de Paquitequete – o barco era de alguém conhecido, pelo que pagaram 2.500 meticais.

Dormiram ao relento ao chegar a Pemba, que esperam ser apenas um ponto de passagem.

À noite “há muitos mosquitos e rede não temos”, acrescenta, temendo a malária, uma das principais causas de morte em Moçambique.

A Lusa tentou obter esclarecimentos sobre a assistência humanitária junto das autoridades locais que remeteram esclarecimentos para um balanço a efetuar durante esta semana.

Grupos armados aterrorizam a província desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.800 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e 732.000 deslocados, de acordo com a ONU.

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