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O PRR Contra-Ataca

Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, veio a Portugal para, com pompa e circunstância, anunciar a aprovação do PRR português, tecendo grandes elogios ao mesmo. Algo que em governos PS é, no fundo, normal: grandes anúncios, cheios de powerpoints, vídeos 3D e convidados de luxo. Como se fossem os Óscares, mas em vez do Tom Holland ou da Jennifer Lawrence, temos António Costa e João Matos Fernandes. Não é bem a mesma coisa, mas há quem ache que sim.

Claro está que a Presidente da Comissão Europeia apareceu, estilo apresentadora convidada, para atribuir uma estatueta ao nosso ator principal, o Senhor Primeiro-Ministro. Um momento aplaudido pelos corredores do partidarismo socialista no nosso país.

Um PRR elevado quase a monumento nacional pela sua dinâmica, pelo seu arrojo, mas principalmente pelo seu “verdismo”. Sim, um PRR adjetivado como o pináculo do ambientalismo e na vanguarda da adaptação e combate às alterações climáticas. Um argumento fácil, cativante e que dá boas manchetes de jornais. Mas será que este guião premiado é assim tão…green?

Vejamos. Este PRR tem de facto personagens bem definidas e interessantes, como o investimento na ferrovia, a transição energética para energias renováveis, ou uma transição digital com via a facilitar a distribuição energética entre produtores-consumidores. Personagens interessantes, confesso. No entanto, como em todos os argumentos, existe um vilão. O chamado hidrogénio “verde”. Para produzirmos este tipo de hidrogénio temos de efetuar um processo de eletrólise da água, ou seja, adicionar corrente elétrica à água com o intuito de fazer a separação molecular entre o oxigénio e o hidrogénio presente na água. Depois de processado, o hidrogénio “verde” é armazenado como combustível e transportado via ferrovia ou camiões para depósitos semelhantes às tradicionais bombas de gasolina. Ora, muitos são os problemas associados a este processo, desde logo a quantidade de energia necessária para fazer este processo, que é enorme.

Dito isto, eis que nos deparamos com o grande obstáculo. De facto, o hidrogénio é “verde” porque a origem da energia usada neste processo é de fontes renováveis, no entanto, a quantidade necessária é tanta que poderíamos estar a fornecer energia renovável quase em exclusivo para as centrais de produção de hidrogénio, e para o resto teríamos de manter o carvão ou o gás. Ou então teríamos de instalar centrais solares e eólicas de proporções gigantescas, algo que tem impactos ambientais muito negativos e contribuiria para a desflorestação. Não discordo da utilização do hidrogénio verde, nomeadamente para o setor da aviação e dos transportes pesados de mercadorias. No entanto, este “vilão” chama para si dentro do PRR um forte investimento para levar à sua massificação, que seria melhor aplicado em programas de democratização e descentralização energética com base na energia solar e eólica, ou seja, investir mais nas microproduções ligadas à rede em vez de em mega centrais.

Neste filme premiado, falta apresentar o realizador: o Governo. Como qualquer amante do cinema sabe, podemos ter um excelente guião, mas se tivermos uma má realização a qualidade do filme vem pelo cano abaixo. E aqui temos um realizador que diz aos sete ventos que Portugal tem um bom historial de utilização dos fundos europeus, mantendo o nível de irregularidades e fraude inferior à média da União Europeia. Pois bem, segundo o Eurobarómetro, com o Governo socialista entre 2015 e 2019 fomos o 8º país com mais perdas de fundos comunitários devido a fraude e irregularidades. Contra factos não há argumentos e, de facto, ao contrário do que diz este realizador, os governos do nosso país não têm tido mãozinhas para executar os planos do financiamento comunitário.

Por isso esta estatueta até pode premiar o guião, mas claramente falhou na análise ao vilão e no trabalho do realizador.

E esta será a nossa sina para os próximos cinco anos. Nunca, desde a nossa entrada para a CEE, conseguimos executar anualmente sequer 60% do que agora será obrigatório para não perdermos o investimento. E este não é um problema menor, muito pelo contrário, temos de ter a consciência de que precisamos de maximizar estes fundos o mais possível para conseguirmos ser competitivos. O futuro assim o exige.

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